quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Sempre vigilantes!


Crónica de Frei Bento Domingues


Um Cristo formatado?
Pretender despolitizar o discurso económico e torná-lo tecnocrático e apartidário é um embuste.
1. “Esta é a definição da lei: algo que pode ser transgredido”. Assim falava, no seu gosto pelos paradoxos, o grande escritor católico, Gilbert K.Chesterton (1874-1936). Partindo da convicção de que a Deus nada é impossível, as comunidades cristãs, sobretudo as do primeiro século, elaboraram narrativas sobre o percurso de Jesus Cristo - desde a anunciação à ressurreição – que parecem contrariar, sem necessidade, as mais respeitáveis e inocentes leis da natureza. 
A este respeito, importa não esquecer que a linguagem mítica e simbólica da liturgia do Natal não pretende dar aulas de biologia e astronomia, mas subverter as leis de um mundo dominado pela injustiça. Quando os Evangelhos são interpretados em registo literal, em vez de provocarem a inteligência, a imaginação e os afectos, paralisam-nos e tornam-se charadas absurdas, até naquilo que têm de mais belo e subversivo. A letra mata. O espírito livre vivifica. 
Esta observação não desvaloriza, porém, a importância do método histórico-crítico aplicado aos escritos do Novo Testamento. Ao procurar esclarecer a produção dos textos bíblicos, nas suas diferentes etapas, descobre-se o ridículo das leituras fundamentalistas e que a pluralidade de interpretações não brota da arbitrariedade.
Passada a decepção com as “biografias liberais” de Jesus, do séc. XIX e os estudos pós-bultmanianos da década de 50 do século passado, vários exegetas célebres desenvolvem a “terceira vaga” de investigações sobre o “Jesus da história”. A obra monumental, de John P. Meier, “Jesus, um Judeu marginal”, impôs-se como referência incontornável. No entanto, como ele próprio confessa, o Jesus reconstruido pela investigação histórica – dada a natureza das fontes disponíveis – não pode sondar todas as dimensões da sua realidade. J. Meier alimenta a fantasia da reunião de um “conclave sem papa” e que ele próprio configurou: um católico, um protestante, um judeu e um agnóstico - todos historiadores honestos e bem informados sobre os movimentos religiosos do século I – ficariam trancados, na biblioteca da Harvard Divinity School, submetidos a uma dieta espartana e só lhes seria permitido reaparecer, quando tivessem elaborado um documento de consenso, sobre Jesus de Nazaré.
Um requisito essencial desse documento seria o de basear-se em fontes e argumentações puramente históricas. As suas conclusões deveriam ser abertas à verificação de todas e quaisquer pessoas sinceras, com acesso aos meios da moderna pesquisa histórica. Esse documento não teria a pretensão de apresentar uma interpretação completa, final e definitiva sobre Jesus, a sua obra e as suas intenções. Poderia, no entanto, proporcionar uma base comum e um ponto de partida academicamente respeitáveis para o diálogo entre pessoas de várias crenças ou sem crença alguma. J. Meier talvez goste de um Jesus marginal, mas não muito!
2. Esse empreendimento pode ter a sua utilidade, sobretudo para enfraquecer os delírios teológicos estacionados em definições dogmáticas, como alfândegas da fé. Mas não estou nada interessado num Jesus normalizado, formatado e em repouso num museu da história do cristianismo. Os escritos cristãos falam da sua presença clandestina, onde e quando menos se espera, baseados na promessa de que Ele não desertará da nossa vida.
Muito se escreveu acerca do mundo em que Jesus nasceu e cresceu, e onde se difundiram as comunidades cristãs dos séculos primeiro e segundo. Funcionavam “em rede”. Quando o Imperador Constantino entrou em cena, no séc. III, foi porque ele próprio se deu conta que mais valia ter os cristãos do seu lado do que persegui-los.
Os monges não foram para o Deserto por terem desistido da evangelização do mundo, mas porque se consideravam marginais em relação a uma cristandade adulterada por privilégios. Em vez de se instalarem no Poder, preferiram recusá-lo. Sabiam que ao esquecer o Cristo crucificado na carne dos sacrificados pelos interesses dos poderosos, acabariam na adoração de um Deus do Poder que tudo justifica.
3. O Papa Francisco denunciou os efeitos da economia que mata. Muitos se apressaram a dizer que ele não percebia nada de economia e a sua “Exortação Apostólica” era gravemente desmobilizadora quando já estavam à vista os belos frutos da austeridade, que importa não abrandar. Paul Krugman, Prémio Nobel de economia, em 2008, mostrou, no passado Domingo (cf. El País), as consequências desastrosas, nos EUA, da correlação entre os cortes nos programas sociais, o crescimento das desigualdades e o aumento da dívida. São os interesses e preconceitos de uma elite económica, cuja influência política disparou ao mesmo tempo que a sua riqueza, que procuram ocultar essa realidade. Pretender despolitizar o discurso económico e torná-lo tecnocrático e apartidário é um embuste. A classe social e a desigualdade modelam e distorcem o debate.
Será possível uma economia amiga das pessoas? Manuela Silva mostra que sim (cf. rev. Communio, XXX (2013).
Bom ano!
(Público de 29-12-2013)

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

“Vencereis…mas não convencereis!”: Unamuno e a razão contra a força

Unamuno, na saída da Universidade, com os falangistas cercando o filósofo antes de entrar no carro.

No livro "O Ano da Morte de Ricardo Reis", cuja ação se passa em 1936, José Saramago recorda Miguel de Unamuno e Millán Astray (pág. 370 a 376 da 15ª edição). Episódio marcante e revelador envolveu ambos e dele encontrei o relato no site do jornal "O Estado de S. Paulo" (Estadão):
"Don Miguel de Unamuno, filósofo espanhol, no fim da vida fez um discurso emblemático a favor da razão contra o uso da força.
Neste 7 de abril, dia do jornalista, não falarei de um jornalista em si, mas sobre um pensador. E sobre um governo que desprezava os pensadores e os livros. Isto é, em resumo, é sobre a liberdade de expressão versus o uso da força.
Os protagonistas: o filósofo e reitor de Salamanca, Miguel de Unamuno; o general Millán Astray, líder da Legião Estrangeira, braço-direito do generalíssimo Francisco Franco; uma multidão de militares e civis falangistas-franquistas.
O cenário: o recinto de cerimônias da Universidade de Salamanca, cidade que havia tornado-se capital provisória dos rebeldes.
O contexto: a guerra civil espanhola (1936-1939). Mais especificamente, seus primeiros meses, quando as tropas de Franco e seus aliados avançavam pela Espanha, tomando as principais cidades e realizando massacres de civis, aprisionando e torturando os intelectuais, impondo uma censura sem precedentes desde os tempos da Santa Inquisição.
O ano: 1936
O dia: 12 de Outubro, data na qual celebrava-se o “Dia da Raça” (mais tarde denominado de “Dia da Hispanidade”), uma das principais datas nacionais na Espanha.
No dia 18 de julho de 1936, o reitor e filósofo Miguel de Unamuno, que havia colaborado intensamente para a instauração da República em 1931, decidiu respaldar o golpe militar que imediatamente foi monopolizado pelo general Francisco Franco. No entanto, ao ver a repressão desatada que os rebeldes aplicavam contra a população civil e a instalação de um regime autoritário, Unamuno começa a perceber que o grupo que havia apoiado não era o que havia imaginado. Sua mesa em seu escritório na Universidade fica coberto de cartas de amigos e conhecidos que pedem que salve centenas de pessoas que estavam sendo detidas na cidade.
Seu amigo Prieto Carrasco, prefeito republicano de Salamanca, e José Andrés y Manso, deputado socialista, haviam sido assassinados. Na prisão, à espera do fuzilamento, estavam seus amigos pessoais Filiberto Villalobos, médico, e o jornalista José Sánchez Gómez. Outro amigo, o pastor anglicano e maçom Atilano Coco, estava ameaçado de morte. Dezenas de alunos seus na Universidade haviam sido levados à prisão.
O septuagenário escritor vai até o palácio episcopal de Salamanca, onde Franco estava hospedado, para pedir clemência para um grupo de pessoas que tentava salvar da morte. É inútil. Franco fuzila todos.
Arrependido de ter respaldado os rebeldes com seus prestígio internacional, Unamuno participa – sem previsão de discurso algum – da abertura solene do ano acadêmico no dia 12 de outubro de 1936 no salão de cerimônias da Universidade.
Na tribuna estavam sentados a mulher de Franco, Carmen Pólo, o bispo de Salamanca, Enrique Plá y Deniel, e o chefe do Departamento de Imprensa e Propaganda de Franco, o general José Millán Astray, fundador da Legião Estrangeira Espanhola, que havia perdido o braço esquerdo e o olho direito nos combates no Marrocos. E além deles, ali sentado estava Unamuno, nascido no país basco, uma das grandes figuras da “Geração de 98”, que haviam revitalizado a cultura da Espanha nas primeiras décadas depois da guerra hispano-americana, que havia mergulhado o país na depressão.
Toda a alta cúpula franquista estava presente. Menos Franco, que estava representado por um imenso retrato pendurado em uma das paredes, ao qual a multidão realizava a saudação fascista (nas quatro décadas seguintes a imagem de Franco estaria presente em todos os lugares públicos e seu nome seria usado para rebatizar ruas e avenidas).
Millán Astray começou os discursos afirmando que “o fascismo seria o cirurgião que extirparia a “falsa Espanha”, constituída pelos “bascos, catalães e comunistas. O fascismo é o remédio da Espanha, os exterminará, cortando na carne viva como um frio bisturi”.
Seu discurso foi interrompido por seus simpatizantes, que começaram a gritar o slogan da Legião: “Viva a morte!”.
Millán Astray, tal como o pavovliano cachorro, gritou três vezes seguidas “Espanha!”
Os simpatizantes ficaram em pé, estenderam seus braços direitos à moda fascista e gritaram em coro: “Uma, grande, livre!”.
O entourage rebelde: no centro da turma, o general Francisco Franco Bahamonde (o mais baixinho) e seu amigo e general Millán Astray.
Não estava previsto que Unamuno fosse discursar. Mas, o velho filósofo considerou que tudo o que estava acontecendo era demasiado.
“Serei breve. A verdade é mais verdade quando manifesta-se nua, livre de adornos e palavreados…Falou-se aqui de guerra internacional em defesa da civilização cristã; eu próprio o fiz outra vezes. Mas não, a nossa é apenas uma guerra incivil”, disse Unamuno.
“Me conhecem bem e sabem que não sou capaz de ficar em silêncio. Às vezes, ficar calado é o mesmo que mentir, pois o silêncio pode ser interpretado como aceitação”.
“Gostaria comentar o discurso, para chamá-lo de algum modo, do general Millán Astray, que se encontra aqui entre nós. Vencer não é convencer e é preciso convencer, principalmente, e não pode convencer o ódio que não deixa lugar para a compaixão. Vou ignorar a afronta pessoal da súbita onda de vitupérios que ouvi contra bascos e catalães. Eu mesmo, que dúvida cabe disso, nasci em Bilbao. O bispo, goste ou não, é catalão de Barcelona. Ele ensina a doutrina cristã que o sr (dirigindo-se a Millán Astray) não aprende. E eu, que sou basco, passei a vida ensinando a vocês o idioma espanhol, que o sr não conhece”.
Vestido de preto, com presença majestosa com sua barba branca, disse com voz firme, mas serena: “acabo de ouvir o necrófilo grito de ‘viva a morte!’, que para mim é como gritar ‘morte à vida’ ”.
Um close up na dupla: o cara da esquerda governaria a Espanha durante 4 décadas, mergulhando o país no atraso tecnológico e econômico, além de atrasar a vida cultural do país (e isolando o país durante longo tempo). O sujeito da direita seria o encarregado da propaganda oficial e imprensa durante certo tempo. Sem querer parecer preconceituoso contra as aparências físicas…mas se vocês derem de cara com um dos dois na rua, a partir das 19:00 hs, não sairiam correndo?
Na seqüência, indignado e enojado com os crimes, a censura e a perseguição cultural que os rebeldes estavam protagonizando, Unamuno diz:
“E eu, que passei toda a vida a criar paradoxos que provocaram a reprovação e a zanga daqueles que não os compreenderam, tenho que lhes dizer, com autoridade na matéria, que este ridículo paradoxo me parece repelente. Uma vez que foi proclamada em homenagem ao último orador, entendo que foi a ele dirigida, se bem que de uma forma excessiva e tortuosa, como testemunho de que ele próprio é um símbolo da morte. E outra coisa (Unamuno, nesse momento, começa a exaltar-se com as próprias palavras)…o general Millán-Astray é um inválido. Não é preciso que o diga em tom mais baixo. É um inválido de guerra. Também o foi Cervantes. Porém os extremos não servem como norma. Desgraçadamente, hoje em dia há demasiados inválidos. E depressa haverá mais se Deus não nos ajudar. Me dói o fato de pensar que o general Millán-Astray possa ditar normas de psicologia de massas. Um inválido que não tenha a grandeza espiritual de Cervantes, que era um homem, não um super-homem, viril e completo apesar das suas mutilações, um inválido, como disse, que não possua essa superioridade de espírito, costuma sentir-se aliviado vendo como aumenta o número de mutilados em seu redor. O general Millán-Astray gostaria de criar uma Espanha nova, criação sem dúvida negativa, à sua própria imagem. Por isso ele desejaria uma Espanha mutilada”.
Millán Astray – que detestava Unamuno – fica encolerizado e grita “Morte à inteligência!”. O público completa aos brados: “viva a morte!”. Os militares da Legião sacam suas armas dos coldres. Unamuno, aparentemente sozinho nesse recinto, não se intimida. Millán Astray continua gritando “morte à inteligência!” e de repente ficam sem voz, afônico.
Subitamente, após os gritos dos falangistas, um silêncio aparentemente interminável toma conta do recinto da velha universidade. Todos olham na direção de Unamuno.
Ele fica em pé. E concluiu sua derradeira lição magistral.
“Este é o templo da inteligência! E eu sou o seu supremo sacerdote! Vocês estão profanando o seu recinto sagrado. Sempre fui, apesar do que diz o provérbio, profeta em meu próprio país. Vencereis, mas não convencereis. Vencereis porque possuem a força bruta de sobra. Mas não convencereis, porque convencer significa persuadir. E para persuadir precisam de uma coisa que lhes falta – razão e direito na luta. E parece-me inútil pedir-lhes que pensem na Espanha”.
Unamuno só conseguiu sair vivo do recinto de cerimônias de Salamanca porque Carmen Polo Franco deu o braço a Unamuno e – depois de passar pela massa que apontava seus revólveres contra a cabeça do filósofo, no meio de vaias e gritos – o acompanhou até sua casa, para protegê-lo da fúria dos falangistas, que o queriam linchar. Carmen, mais tarde, foi recriminada por Franco, que durante horas reclamou de sua atitude e por não ter permitido que executassem o filósofo “traidor” após o discurso.
No dia 22 Franco o destitui do cargo de reitor.
Dias depois, recebe o escritor grego Nikos Kazantzakis, a quem diz: “um dia, em breve, me levantarei e começarei uma luta pela liberdade, eu sozinho. Não sou fascista nem bolchevique. Sou um solitário”.
No dia 31 de dezembro de 1936, enquanto as tropas de Franco avançavam pela Espanha, Unamuno falece."
Repare-se que comemoravam os fascistas o "Dia da Raça", hoje denominado "Dia da Hispanidade". Note-se que Cavaco Silva desenterrou recentemente a denominação de má memória "Dia da Raça".

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Jorge Listopad

Prefácio do último livro de Jorge Listopad:
"Não gosto de falar de mim, mas falo — não gosto de falar dos textos, mas sou-lhes permeável. Quando escrevo, é como se fosse o meu primeiro e o meu último livro. Bem sei que entre o primeiro e o último existe apenas um espaço, ora mais curto, ora mais comprido, isso depende da potên- cia eólica dos moinhos de vento de hoje. É verdade, quase tudo é vento: em cima o do céu, em baixo a narrativa.
o livro que o leitor tem na mão, Remington, divide-se em duas partes, ciente que a comunicação tem vários processos. a primeira parte chama-se Vale das borboletas mortas. ao escrevê- -la, por vezes sorri, moderei o meu amor e até me deixei apa- nhar pela melancolia eslava; quiçá repeti-me e, se assim foi, perdi tempo e os contos perderam o carácter de mistério que consiste numa proposta entre o real e a ficção e cuja síntese me atrai tremendamente. Quarenta e um contos sem parasitação teórica.
a segunda parte aproxima-se de uma outra realidade, diria alucinatória, traduzida por uma técnica de narrar. porém, mesmo assim, o rio da memória encharca os pés dos tex- tos. o nome desta série pertence a um enredo que procura Gibraltar, onde o território de facto não consta, ou, antes, não figura no mapa que conhecemos, na sua passagem entre o Mediterrâneo amado e o atlântico respeitado, isto é, entre o nosso Homero e um qualquer Neptuno metafísico.
entre o primeiro livro e este último — Remington — existem apenas coisas da vida e do seu oposto."
Dois contos lidos, aqui
Três contos, aqui
Crítica no Ipsilon, aqui
Sobre o livro, na TSF, aqui
Excertos da entrevista a Jorge Listopad, em 2003, aqui

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

A Felicidade em Albert Camus

"A última edição de «A Felicidade em Albert Camus», de Marcello Duarte Mathias (Rio de Janeiro, 1975; 3ª ed., D. Quixote, 2013) apresenta-nos na capa um jovem que sorri. Não estamos perante a imagem de alguém que transporta os males do mundo, mas de um homem que olha atento o tempo em que vive – perscrutando o absurdo da existência. A obra tornou-se profundamente atual, e invoca bem o escritor no ano do centenário.

UM JOVEM MARCANTE
Já cem anos… A imagem que temos de Albert Camus é a de alguém que partiu cedo, jovem, com apenas 46 anos, antes de nos ter legado a obra que dele esperaríamos. O tempo passou e a sua influência, longe de se ter desvanecido, cresceu e tornou-se um símbolo do tempo em que viveu – de grandes mudanças e escolhas dilacerantes: a emergência do singular, os existencialismos, a consideração do absurdo, num contexto de fim de uma guerra violenta e de queda do eurocentrismo e dos colonialismos. No dia 3 de janeiro de 1960, o potente Facel-Vega de Michel Gallimard despistou-se numa longa reta, perto de Montereau, embatendo contra um plátano. Albert Camus, que deveria ter viajado de comboio, teve morte imediata, o editor resistiria cinco dias. Tudo absurdo. Numa pasta de couro, estavam cento e quarenta e quatro páginas de «Le Premier Homme», romance incompleto que veria a luz do dia numa edição em 1994. Sete anos antes, Camus escrevera «L’Homme Revolté», que gerara uma tempestade nos meios intelectuais parisienses, por comparar a barbárie nazi e a lógica estalinista, o que conduziu ao corte de relações com Sartre e a uma violenta reação da revista «Les Temps Modernes». Em 1957, no auge do conflito argelino, depois de tentar uma via legalista (então impossível), no momento em que o Prémio Nobel reconhece a importância da sua obra, incendeia, de novo, o debate político ao dizer «creio na justiça, mas defenderia a minha mãe antes da justiça». Num tempo em que os nervos estão à flor da pele e em que o tema da independência e da autodeterminação estava na ordem do dia, a independência de Camus é por muitos interpretada como um desvio aos ideais da esquerda. E à pergunta se se considerava um intelectual de esquerda contrapõe: «Não estou certo de ser um intelectual. Quanto ao resto, sou pela esquerda, apesar de mim, e apesar dela». A obra de Marcello Duarte Mathias sobre Camus tornou-se profundamente atual. Limpos os circunstancialismos dramáticos de debates muito duros de vida ou de morte, podemos reencontrar Camus como alguém que compreendeu a história, recusando uma lógica de sistema. Como o autor português do magnífico ensaio recorda, Camus fez seu o grito de alma de Píndaro, colocando-o como epígrafe de «O Mito de Sísifo»: «Ó minha alma, não aspires à vida imortal mas esgota o campo do possível». De facto, como diz Marcello: «para lá das contingências históricas que o condicionam, todo o homem é uma liberdade em movimento, liberdade que se afirma e interroga ao serviço de uma ambição mais alta». Eis o centro desta reflexão. Eis a marca fundamental da personalidade de Albert Camus – engrandecer o homem e desdenhar o que o apouca e empobrece. E a decantação do tempo permitiu que essa liberdade se tenha projetado para além dos episódios momentâneos dessa hora já distante. Sendo certo que (como bem viu Raymond Aron) não estamos perante alguém que apenas foi clarividente. Não, Camus foi importante porque viu o que poderia ver, mesmo sem ver tudo, como sempre no-lo disse. Cometeu erros? Poderia ter dito mais? O certo, porém, é que teve as intuições fundamentais. Como referia o obituário do «The Times», Camus foi «a man who walked alone», e como tal soube definir o momento histórico singular em que viveu. Não por acaso, tanto Calígula como Sísifo são protagonistas únicos. E a felicidade, como o absurdo, são filhos da mesma terra, da relação entre o homem e o mundo e entre o mundo e os outros homens.

O TESTEMUNHO DE MOUNIER
Num ensaio luminoso, intitulado «Albert Camus ou l’appel des humiliès» (Esprit, jan. 1950), escrito pouco antes de morrer, Emmanuel Mounier procura compreender a originalidade do autor de «État de Siège». «O mundo nem é tão racional assim, nem irracional. É desrazoável, e nada mais que isso». Aqui estaria a raiz do absurdo – «como divórcio entre o espírito que deseja e o mundo que desilude, este espírito e este mundo estão confrontados um contra o outro sem poderem abraçar-se» (como se diz no «Mito»). O absurdo é o «pecado sem Deus». E Camus recusava o jogo de palavras de um suposto divórcio entre o homem e o mundo. Como diz Mounier a «vitalidade mediterrânica que bate no coração de Camus não pode tirar, do nada como espetáculo, o dever de agravar ainda mais a negação. Mesmo o absurdo quer mantê-lo em vida, não como absurdo, mas como algo de vivo». E, em convergência com o tema do ensaio de M.D.M., diz-se que «a abstração se opõe à felicidade». É esta recusa da abstração e do sistema (que nos aproxima de Kierkegaard) que torna os temas da felicidade e da vida decisivos. A felicidade passa além do heroísmo, levando-nos a uma «exigência generosa» (que encontramos em «A Peste» e nas «Cartas a um Amigo Alemão»). E o absurdo é o contrário da esperança. Mounier fala, por isso, de uma «esperança de desesperados», unindo os destinos de Malraux, Camus, Sartre e Bernanos. Para eles, a recusa não é uma renúncia, como um não de método, mas um sim à vida. E a felicidade é a maior das conquistas contra o destino que nos é imposto… É a vida que está em causa. E foi isso que perturbou os bem pensantes quando Camus invocou o exemplo da sua mãe, exposta ao drama da violência. Calígula organiza a indiferença. Mas nem tudo é permitido. A vontade incessante e obstinada do homem é que decide o absurdo. A Prometeu, herói da superação, Camus contrapõe Sísifo, herói da incessante repetição. Impõe-se compreender os limites: escolher a história contra o eterno, a ação contra a contemplação, o presente contra a abstração, «escolher uma vida inteiramente votada à dispersão». O que tem sentido para Camus? Não é um sentido superior, mas um sentido «le monde a du moins la verité de l’homme». Tolstoi como Camus (segundo Mounier) consideram como raiz do mal a cedência à autoridade de uma abstração, estatista ou teocrática (Magris falou-nos da idolatria). Daí a importância dos limites. Anos passados, M.D.M sabe que as considerações que apôs no final da sua reflexão confirmaram, de pleno, a indiscutível influência de Camus, o caráter premonitório das suas considerações e, sobretudo, a abertura de horizontes no sentido dos limites e da imperfeição. «Camus possuía uma profunda, uma tenaz esperança nas virtualidades redentoras do homem. Essa esperança apontava um caminho e constituía, já de per si, uma promessa de plenitude que o levava a naturalmente imaginar Sísifo feliz – pois não renova Sísifo todos os dias, perante todos e sem desfalecimentos, a liberdade do seu sonho? Isolado decerto, mas solidário dos outros na procura e conquista da felicidade. E é isso o que afinal importa»."
Guilherme d'Oliveira Martins

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Almada Negreiros I

Autorretrato
Paris e eu
Um dia foi a minha vez de ir a Paris. Foi necessário um passaporte. Pediram a minha profissão. Fiquei atrapalhado. Pensei um pouco para responder verdade e disse verdade: Poeta!
Não aceitaram.
Também pediram o meu estado. Fiquei atrapalhado. Pensei um pouco para responder verdade: Menino!
Também não aceitaram.

E para ter o passaporte tive de dizer o que era necessário para ter o passaporte, isto é uma profissão que houvesse! E um estado que houvesse!

(José de Almada Negreiros in "A invenção do dia claro"

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Um Dó Li Tá


"Perguntam-me muitas vezes por que motivo nunca falo do governo nestas crónicas e a pergunta surpreende-me sempre. Qual governo? É que não existe governo nenhum. Existe um bando de meninos, a quem os pais vestiram casaco como para um baptizado ou um casamento. Claro que as crianças lhes acrescentaram um pin na lapela, porque é giro
-Eh pá embora usar um pin?
que representa a bandeira nacional como podia representar o Rato Mickey"
(início da crónica de António Lobo Antunes, intitulada "Um Dó Li Tá", publicada na Visão de hoje)