Eu não gostava nada de ALA. Nem dele nem do que ele escrevia. Influenciado pelo meu filho João, tenho vindo a gostar cada vez mais, para já, das suas crónicas.
Além de eu ter novos olhos, creio que ele, ultimamente, se tem modificado: mais humano e menos presunçoso.Gostei muito da última crónica, como também tenho gostado de outras. Tem o título da data em que foi escrita.A crónica toca numa questão que me tem feito refletir muito.Diz ALA que se opta por um partido político da mesma forma que se opta por um clube de futebol. A opção é feita com base em emoções e não com base na razão. ALA cita um poeta francês, Paul Fort. Escreveu Paul Fort: "laisse penser tes sens (deixa pensar os teus sentidos".As minhas reflexões baseiam-se no conhecimento que tenho de alguns dos chamados retornados. Pessoas socialmente progressistas e politicamente reacionárias. De facto, nas antigas colónias, nos anos 60/70, os costumes eram muito mais vanguardistas, pelo menos no seio da elite branca, do que em Portugal Continental. Para eles, do ponto de vista social, foi um choque a chegada ao continente. A sociedade aqui era muito mais intolerante, conservadora e castradora do que nas antigas colónias. No entanto, muito deles tinham ficado sem os bens materiais que lhes pertenciam e atribuíam a responsabilidade, por esse facto, aos políticos de esquerda que tinham sido responsáveis pela descolonização. Fazendo um exercício de especulação, admito que, se eu tivesse passado por aquilo que os "retornados" passaram, hoje poderia defender opções políticas de direita.De qualquer maneira, a compreensão das razões que, eventualmente, tenham levado outros a assumir posições políticas diferentes das nossas não nos deve inibir de defender as nossas convicções, mas deve fazer com que sejamos tolerantes. A última frase da crónica de ALA é: "Dois homens, quando são homens, pensem o que pensarem, estão condenados a entenderem-se".
domingo, 4 de dezembro de 2016
terça-feira, 9 de junho de 2015
A arte da ideia
Há uns meses, comprei em Barcelona o livro "El arte de la idea. Y como puede cambiar tu vida" de John Hunt. Obviamente que é uma tradução. O título original é "The Art of the Idea: And How It Can Change Your Life". Comecei a lê-lo agora. Estou maravilhado pela originalidade dos pontos de vista. O livro, além da introdução, contém 20 observações (capítulos). A observação n.º 10: "Abraza la diversidad, te devolverá el abrazo". A parte final da observação n.º 10: "Además, es mucho más fácil crear algo nuevo si los ladrillos que utilizas son diferentes. Jugar con com ladrillos que sontodos igualeses un juego mucho menos satisfatorio. Unir a gente que ve el mundo de forma distinta crea una alquimia única. La diversidad no quiere un beso volado, espera un buen apretujón. Te sorprenderás gratamente de lo que sucederá después."
sábado, 6 de junho de 2015
A próxima ilha é aquela que amo
Foto de Adam Butler
O barco avança através de uma espessa
neblina. A luz do dia é escassa e o frio entranha-se no corpo. Sente-se o
cheiro forte a maresia e ouve-se o som dos cagarros. Não há qualquer dúvida:
aproximamo-nos de terra. Depois de tantos e tantos dias nas certezas do mar alto,
surge a dúvida: como será a estadia naquela ilha? Uma certeza: vou encontrar a
natureza em atividade frenética. Estamos no início da primavera e Perséfone já está de novo nos braços de sua
mãe.
O vento mudou de direção e a neblina
dissipa-se. Já se avista, na linha do horizonte, o perfil montanhoso da ilha. A
brisa está forte e o barco avança rapidamente. A ilha é uma mancha escura onde
pousaram as estrelas. Avisto os primeiros rochedos, negras pupilas contornadas
por íris latejantes de alva espuma. Ao fundo, eleva-se uma parede vertical de
rocha vulcânica, qual muralha de castelo flutuante. Lá no alto, a inspiradora
Vénus espera uma oportunidade para abençoar o amor.
O dia começa a clarear e vêem-se já
linhas de fumo agarradas a pequenas casas. Sinto o cheiro a cedro queimado. Ali,
ao centro, três altas araucárias alinhadas, mastros deste navio que, sem
descanso, navega no mar. Ouve-se o desassossego matinal dos bandos de pássaros nos
verdes prados de cabelo arrepiado pela forte brisa primaveril. Aos primeiros
raios de Sol, brilha intensamente a camada de orvalho que cobre o extenso manto
vegetal. A serenidade fecunda da natureza emite notas musicais e pode ouvir-se
“De povos e terras distantes” de Robert Schumann. Mesmo na minha frente, um
ribeiro, engrossado pelas chuvas dos últimos dias, desce apressado do alto da
montanha até aos terrenos quase planos que ficam junto ao mar onde, o seu
percurso, é marcado pela guarda de honra dos ulmeiros. Sobre a esquerda, à
entrada do bosque de cedros, um pequeno grupo de cavalos selvagens comem
petúnias multicolores que cobrem o terreno. Eis que surge um a galopar, logo
seguido de outro, longas crinas voando livremente ao sabor do vento. Um
milhafre solitário voa em largos círculos, coroando a beleza da paisagem. Sinto
vontade de mergulhar nesta terra. Se, como disse Diotima, o amor é uma
aspiração e uma iniciação no Belo e no Bem, então, eu quero amar esta ilha. Aqui
há vida antes da morte!
Depois do barco amarrado ao cais, salto para terra. O chão debaixo dos meus pés vacila. O mar é mais firme do que esta terra devastadoramente fascinante.
Depois do barco amarrado ao cais, salto para terra. O chão debaixo dos meus pés vacila. O mar é mais firme do que esta terra devastadoramente fascinante.
domingo, 11 de janeiro de 2015
Vitória de Samotrácia
Vitória de Samotrácia (artista desconhecido, talvez originário de Rodes)
Um bom motivo para ir a Paris. Esta escultura helénica, de cerca do ano 200 a.C., está no Louvre. Os seus fragmentos foram encontrados, em 1863, nas ruínas do Santuário dos Grandes Deuses de Samotrácia (ilha situada na costa da Trácia, perto da Turquia). Representa a deusa grega Nice, deusa que personificava a vitória. Obviamente que o símbolo da Rolls Royce é uma réplica manhosa da Vitória de Samotrácia.
domingo, 12 de outubro de 2014
Patrick Modiano
Confesso
que não conhecia Patrick Modiano. Nas vésperas da revelação do premiado com o
Nobel da Literatura 2014, o jornal El País anunciava os
favoritos: Haruki Murakami, Milan Kundera e Philip
Roth.
A
vitória de Patrick Modiano surpreendeu todos, o próprio incluído que afirmou: “Nunca pensei que isto me pudesse acontecer, estou muito
tocado, cheio de emoções”.
O Comité tem-nos habituado a estas surpresas e ainda
bem. Penso que mais do que premiar uma carreira, o Nobel deve servir para dar
notoriedade a escritores que merecem essa notoriedade e ainda a não possuem.
A vontade de conhecer Modiano fez-me ir à livraria procurar por um livro seu. Não havia. Fui então à Biblioteca Pública. Lá encontrei "Um circo que passa", livro escrito em 1992. Li-o ontem. Uma escrita acessível. Um quase policial. Dado o tema tratado, seria de esperar um pouco de sensualidade, mas nada. Lá estava a "arte da memória". Uma história muito bem contada. Um pequeno excerto do livro: “Hoje, revejo essa cena à distância. Por detrás do vidro de uma janela, numa luz difusa, eu distingo um loiro cinquentão em roupão de escocês, uma rapariga de casaco de peles e um jovem... A lâmpada, no pé do candeeiro, era demasiado fraca. Se eu pudesse voltar atrás no tempo e regressar àquele quarto, poderia trocar a lâmpada. Mas sob uma luz mais forte, tudo se poderia dissipar.”
O original, em francês, está acessível na net:
http://www.ae-lib.org.ua/texts/modiano__un_cirque_passe__fr.htm
sábado, 4 de outubro de 2014
"a Europa precisa de ter uma discussão séria sobre os seus valores" Pamuk
"Na
sua primeira visita oficial a Portugal, para receber um prémio que reconhece o
seu contributo para o património cultural europeu, o Nobel da Literatura deixou
um recado: “A herança cultural europeia não se deve limitar à preservação dos
seus monumentos, mas também à preservação dos seus valores fundamentais”
O escritor
turco Orhan Pamuk defendeu esta sexta-feira em Lisboa que “a Europa precisa de
ter uma discussão séria sobre os seus valores fundamentais”. O Nobel da
Literatura de 2006, autor de uma obra literária sobre a procura de uma
identidade turca, dividida entre o Ocidente e o Oriente, entre modernidade
europeia e tradição muçulmana, recebeu esta noite o Prémio Europeu Helena Vaz
da Silva para a Divulgação do Património Cultural na Fundação Calouste
Gulbenkian, com um discurso em que prestou tributo à tradição cultural
europeia, mas que terminou com uma nota crítica.
“A herança
cultural europeia não se deve limitar à preservação dos seus monumentos, mas
também à preservação dos seus valores fundamentais”, disse o escritor, na sua
primeira visita oficial a Portugal. “E temos de ter uma discussão séria sobre
esses valores fundamentais.”
Pareceu
claro que era um recado para a Europa – não por acaso, o presidente da Comissão
Europeia, Durão Barroso, estava presente na primeira fila – embora Pamuk não
tenha especificado o que queria dizer com isso, talvez para não correr o risco
de soar pouco diplomático. Mas o que Pamuk quis dizer terá talvez a ver com o
que respondeu numa entrevista em Dezembro do ano passado, quando um jornalista
colombiano lhe perguntou se se sentia europeu. “Não sei. Não penso nesses
termos. Em primeiro lugar, sinto-me turco. E um turco tanto se sente europeu
como não europeu. Acredito numa Europa que não se baseia no cristianismo, mas
no Renascimento, na modernidade, na ‘liberdade, igualdade, fraternidade’. Essa
é a minha Europa. Acredito nessas coisas e quero fazer parte delas. Mas se a
Europa é a civilização cristã, lamento: nós, turcos, não queremos entrar.”
No debate
sobre a hipotética entrada da Turquia na União Europeia, Pamuk – um turco
cosmopolita e laico que se autodefine como um “muçulmano, mas apenas no sentido
cultural” – emergiu como um intérprete do diálogo entre civilizações. Daniel
Cohn-Bendit disse que foi Pamuk quem o ajudou a “perceber a importância de a
Turquia aderir à União Europeia”. Até mesmo o ex-Presidente americano George
Bush se referiu à obra do escritor como “uma ponte entre culturas”, notando que
ela mostra como “pessoas noutros continentes e civilizações” são “exactamente
como nós”.
Em defesa das pessoas normais
Atribuído
pela primeira vez no ano passado ao escritor italiano Claudio Magris, cuja obra
é notória pela sua deambulação cultural (como a de Pamuk), o Prémio Europeu
Helena Vaz da Silva, no valor de dez mil euros, é uma iniciativa da organização
europeia de defesa do património Europa Nostra em parceria com o Centro
Nacional de Cultura e o Clube Português de Imprensa, com o objectivo de
distinguir um cidadão europeu que, ao longo da sua carreira, tenha contribuído
para a divulgação, defesa e promoção do património cultural e dos ideais
europeus.
O
presidente do Centro Nacional de Cultura e membro do júri, Guilherme de
Oliveira Martins, notou que a atribuição do prémio a Pamuk teve em conta “o
cidadão apaixonado pela defesa do património cultural, mais do que o grande
romancista”, embora o seu discurso tenha sido dominado por referências e
citações constantes do último romance do escritor, O Museu da Inocência
(ed. Presença), publicado em 2008.
Pamuk
confessou-se “lisonjeado e honrado” pela atribuição do prémio, que lhe foi
entregue pelo secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier.
Falando em
inglês, o escritor lembrou como concebeu um romance e um museu ao mesmo tempo,
referindo-se a O Museu da Inocência, ficção sobre um homem que
colecciona todos os objectos tocados pela mulher que amou e que perdeu e ao
edifício com o mesmo nome que abriu em Istambul, a cidade onde nasceu e onde
vive, com objectos que foi juntando para o processo de escrita do livro e que é
hoje, também, um museu sobre a vida quotidiana da classe média turca na segunda
metade do século XX.
“Os
verdadeiros romances centram-se em pessoas normais, no seu dia-a-dia”, disse.
Com a entrada na modernidade, a literatura deixou de se interessar pelos reis e
poderosos para se ocupar da história de pessoas simples, como se fossem reis –
Joyce fê-lo em Ulisses, notou. Pamuk defendeu que os museus deviam fazer
o mesmo. “Deixem de prestar atenção à nação e aos reis e dediquem-se aos
pequenos detalhes das nossas vidas quotidianas. É por isso que defendo que
precisamos de pequenos museus”, disse.
Nesta
segunda edição do Prémio Europeu Helena Vaz da Silva, foi também atribuído um
prémio especial de carreira ao historiador de arte José-Augusto França por ter
“fomentado a tomada de consciência e o sentimento de orgulho relativamente à
arte portuguesa, relacionando-a com a cultura europeia e mundial”. O júri
distinguiu ainda o jornalista holandês Pieter Steinz com uma menção especial
pela criação de uma enciclopédia de ícones culturais europeus."
artigo de Kathleen Gomes publicado no Público de hoje
Oliveira da Figueira
Oliveira da Figueira é personagem secundária em vários livros da série "As Aventuras de Tintim" de Hergé. Aparece pela primeira vez em "Os Charutos do Faraó. Comerciante, simpático, falador, fura-vidas, lá se vai desenrascando, nem que para isso tenha de aprender a falar árabe. Oliveira da Figueira entra também nos livros "Tintim no País do Ouro Negro " e "Carvão no Porão".
Guilherme d'Oliveira Martins (GOM) dedica a Oliveira da Figueira o último capítulo do seu livro de viagens, saído no mês passado, intitulado "Na Senda de Fernão Mendes. Percursos Portugueses no Mundo". Este livro é consequência das viagens que têm sido promovidas pelo Centro Nacional de Cultura, de que GOM é Presidente, viagens com o título genérico "Os portugueses ao encontro da sua história". Uma frase extraída do livro, cujo título é uma homenagem a Fernão Mendes Pinto: "Se Sophia diz que vivemos "de pouco pão e de luar" é porque a viagem nos anima, para que possamos combater a mediocridade e a indiferença." A erudição de GOM também fica reforçada por esta incursão no mundo da banda desenhada.
sexta-feira, 3 de outubro de 2014
O Museu da Inocência
A imaterialidade tem um museu em Istambul. Chama-se "O Museu da Inocência" e existe desde 2012. O museu homenageia as personagens do romance "O Museu da Inocência" de Orhan Pamuk, prémio Nobel da Literatura em 2006. Ao mesmo tempo que escrevia o romance, Pamuk ia guardando os objetos que nele descrevia. Esses mesmos objetos estão expostos no museu. Por exemplo, estão lá: um brinco e um vestido de Fusun (a personagem amada por Kemal) e também nele foi reconstituído o quarto onde Kemal (o personagem principal) contou a sua história a Pamuk.
O museu dá um testemunho do que era a vida e a cultura na Istambul do fim do século XX.
Informação mais detalhada em:
http://arteref.com/gente-de-arte/museu-da-inocencia-orhan-pamuk/
O museu dá um testemunho do que era a vida e a cultura na Istambul do fim do século XX.
Informação mais detalhada em:
http://arteref.com/gente-de-arte/museu-da-inocencia-orhan-pamuk/
quinta-feira, 2 de outubro de 2014
O que está em jogo no Brasil
Escrevo esta crónica de Cuiabá,
capital do Estado do Mato Grosso e que é também a capital do que no Brasil se
designa por agronegócio (agricultura industrial de monocultura: soja, algodão,
milho cana do açúcar), a capital do consumo de agrotóxicos que envenenam a
cadeia alimentar e da violência contra líderes camponeses e indígenas que
defendem as suas terras da invasão e do desmatamento ilegais. Reúno-me com
líderes de movimentos sociais, um deles (indígena Xavante) chegado à reunião
clandestinamente por estar sob ameaça de morte. Deste lugar e desta reunião
torna-se particularmente claro o que está em jogo nas próximas eleições no
Brasil.
As classes populares - o vasto
grupo social de pobres, excluídos e discriminados que viu o seu nível de vida
melhorado nos últimos 12 anos com as políticas de redistribuição social
iniciadas pelo Presidente Lula e continuadas pela Presidente Dilma - estão perplexas
mas têm os pés bem assentes no chão e não me parece que sejam facilmente
iludidas. Sabem que as forças conservadoras que se opõem à Presidente Dilma
estão apostadas em recuperar o poder político que perderam há 12 anos.
Conscientes de que a época Lula transformou ideologicamente o país, não o
poderão fazer pelos meios e com os protagonistas habituais. Para pôr fim a essa
época é necessário recorrer a alguém que a evoque, Marina Silva, o desvio
contra-natura para chegar ao poder.
A pouco e pouco as classes
populares vão conhecendo o programa de Marina Silva e identificando, tanto o
que nele é transparente, quanto o que nele é mistificatório. É transparente o
regresso ao neoliberalismo que permita os lucros extraordinários decorrentes
das grandes privatizações (da Petrobras ao pré-sal) e da eliminação da
regulação macroeconómica e social do Estado. Para isso se propõe a total
independência do Banco Central e a eliminação das diplomacias paralelas
(leia-se, total alinhamento com as políticas neoliberais dos EUA e da EU). É
mistificatório o recurso a conceitos como o de "democracia de alta
intensidade" e de "democratizar a democracia" -, conceitos muito
identificados com o meu trabalho mas de que é feito um uso totalmente
oportunístico - como se fosse uma novidade política quando, de facto, do que se
trata é, no seu melhor, a continuação do que tem vindo a ser feito em alguns
estados de que é exemplo mais notável o do Rio Grande do Sul.
Acresce a tudo isto que o que há
de verdadeiramente novo na candidatura de Marina Silva significa um retrocesso
não só político como civilizacional. Trata-se da certificação da maioridade
política do evangelismo conservador. O grupo parlamentar evangélico é já hoje
poderoso no Congresso e o seu poder está totalmente alinhado, não só com o
poder económico mais predador (a bancada ruralista), a que a teologia da
prosperidade confere desígnio divino, como com as ideologias mais reacionárias
do criacionismo e da homofobia. Marina, se eleita, levará tais espantalhos
ideológicos para o Palácio do Planalto para que de lá façam a pregação do fim
da política, da ilusão da diferença entre esquerda e direita, da união entre
ricos e pobres. Tirando o verniz religioso, trata-se do regresso democrático à
ideologia da ditadura, no ano em que o Brasil celebra o mais longo e mais
brilhante período de normalidade democrática da sua história (1985-2015).
Por que estão perplexas então as
classes populares? Porque a Presidente Dilma nada faz ou diz para lhes mostrar
que está menos refém do agronegócio que Marina Silva. Nada faz ou diz para
mostrar que é urgente iniciar a transição para um modelo de desenvolvimento
menos centrado na exploração voraz dos recursos naturais que destrói o meio
ambiente, expulsa camponeses e indígenas das suas terras e assassina os que lhe
oferecem resistência. Bastaria um pequeno-grande gesto para que, por exemplo,
os povos indígenas e afrodescendentes se sentissem protegidos pela sua
Presidente: mandar publicar as portarias de identificação, de declaração e de
homologação de terras ancestrais, portarias que estão prontas, livres de
qualquer impedimento jurídico e apenas engavetadas por decisão política.
O que as classes populares e os
seus aliados parecem não saber é que não basta querer que a Presidente Dilma
ganhe as eleições. É necessário vir para a rua lutar por isso. Ao contrário, os
adversários dela sabem isso muito bem.
Crónica de Boaventura de Sousa Santos publicada na Visão de 18 de setembro de 2014
Crónica de Boaventura de Sousa Santos publicada na Visão de 18 de setembro de 2014
domingo, 21 de setembro de 2014
A lição escocesa:o abanão na Europa estabelecida
"Ao
fim de quatro anos de pensamento único, “inevitável”, que varreu tudo, na política,
da direita à esquerda, e na cabeça colocou os que perdiam a pensar como os que
ganhavam, matou a revolta e a crítica."
"O referendo
escocês, mesmo com o resultado que teve, é um bom exemplo de como é errado
pensar como se pensa por cá: o que está tem muita força e o que está não muda,
é “inevitável”. O “não” vitorioso não vai impedir que muita coisa mude, e o
“sim” derrotado vai garanti-lo. Os escoceses deram um exemplo notável da
introdução de novidade, de surpresa, daquilo que é a “matéria” da história.
Querem um exemplo do “pensar out of the box”, o apelo estandardizado de
qualquer seminário para gestores, empreendedores, criativos, publicitários?
Aqui o têm. Não é comum, nem fácil e comporta riscos, mas é vivo, logo muda. Aye.
Ao pensar
único por cá, o mais “in the box” que se pode imaginar, chamem-lhe
realismo, que não é; conservadorismo, que não é, - é mais preguiça de pensar e
aceitação do direito dos mais fortes a pensar por nós. Ao fim de quatro anos de
pensamento único, “inevitável”, que varreu tudo, na política, da direita à
esquerda, e na cabeça colocou os que perdiam a pensar como os que ganhavam,
matou a revolta e a crítica, gerou a apatia e a submissão. Ah! Homens de saias,
monstros de Loch Ness, castelos assombrados, lagos sinistros, encarnações de William
Wallace, venham comemorar o Hogmaney por cá que bem precisamos de ar fresco,
bravura e alegria de sermos senhores de nós mesmos. Aye.
A ideologia
do “ajustamento”, funcionou como um deserto que avança, enchendo tudo de areia
e atrito. A “história” ideológica que por cá mostra o soçobrar do pensamento é
esta: Portugal faliu no final do governo Sócrates devido ao despesismo
socialista, não apenas devido à “má despesa pública” de Sócrates, mas devido ao
socialismo, social-democracia, keynesianismo, investimentismo público, ou
qualquer ismo dessa categoria. Ou seja, não se trata apenas de apresentar uma
realidade, mas de avançar com uma explicação ideológica para ela. Confrontado
com esta situação de bancarrota, sem liberdade nem independência face aos credores
e dependendo da benevolência dos mercados, os números do défice (mais) e os da
dívida (menos) passaram a ser o tema central do discurso, de todo o discurso,
económico, social, político e ideológico. Deixou de haver política, porque
deixou de haver “alternativas”: o curso das coisas tornou-se inevitável. Ou
melhor, o défice a dívida sugaram como um buraco negro tudo o resto. Eles eram
a natureza das coisas, sólida, dura, permanente. Eram como a gravidade, o
atractor universal. Nay.
Quem não
queria partir daqui e chegar aqui, estava a filiar-se na escola ou “dos que não
percebiam que o mundo tinha mudado”, ou dos partidários do “pensamento mágico”
que pensavam que, com uma varinha mágica, resolviam tudo, mesmo os dois
Mostrengos que se erguiam entre o Terreiro do Paço e os mandantes dos credores,
o défice e a dívida. Eram desqualificados, “velhos do Restelo”, “socráticos”,
ultrapassados e empecilhos. Para os que ainda podiam influenciar perversamente
os jovens, como alguns professores reformados e jubilados que davam aulas de
graça, e que eram portadores do perigoso pensamento anti-inevitabilidade, uma
lei iníqua proibiu-os de o fazerem. A capa do livro de Camilo Lourenço chamado
“Saiam da frente!” fazia a lista dos culpados – Soares, Sócrates, Mário
Nogueira, Jerónimo de Sousa, Manuela Ferreira Leite, - “aqueles que levaram
Portugal á falência”, “três vezes” – é “altura de os afastar”. Que tal uma
injecção atrás da orelha, para tão perniciosa gente? Havia que abrir caminho
para os Maçãs, os Poiares, os Lourenços, os César das Neves, os Joaquim Aguiar,
os articulistas da imprensa económica, os jovens lobos do Compromisso Portugal,
dos blogues governamentais e do Observador. Nay.
Como um dos
corifeus deste pensamento salvífico, Maçãs, escreveu, era tempo de acabar com o
“socialismo” que, com excepção dos anos de Passos Coelho, tinha sempre dominado
em Portugal. Com uma técnica estalinista da história, a amálgama, juntava-se no
mesmo saco Sócrates e Manuela Ferreira Leite que lhe tinha dito “não há dinheiro”,
para ouvir Passos Coelho, então desenvolvimentista e keynesiano, lhe criticar o
reaccionarismo da afirmação. Todos são culpados, porque toda a história desde o
25 de Abril é apenas um longo caminho de “socialismo” de “vida acima das suas
posses”, um percurso que nasce do mal, o 25 de Abril, e continua pelo mal, o
“socialismo” de todos até à “revolução” Passos Coelho. Nay.
Se Sócrates
está lá bem, Soares está lá pela sua intransigência face a este governo,
Nogueira, porque os sindicatos são o inimigo a abater, Jerónimo, porque haver
um partido comunista legal e activo é um perigo público, Cavaco Silva porque é
suspeito de keynesianismo, e Manuela Ferreira Leite, porque lembra que o PSD
foi em tempos um partido reformador e social-democrata e algumas avis raras não
se têm calado e subjugado como muitos fizeram. Ou seja, tudo o que aparece como
empecilho ao glorioso caminho da “libertação da economia”, vai para o índex. Nay.
O
“ajustamento” foi a palavra encontrada para, na política, - que deixou de poder
ser nomeada como política, - se poder voltar ao estado natural das coisas, que
o “socialismo” de Cavaco Silva a Sócrates, tinha perturbado, levando o país a
“viver acima das suas posses”. Agora vinha a factura para regressarmos ao
estado natural de que nunca devíamos ter saído. Qual era esse estado natural? A
pobreza atávica de Portugal, a mesma que Salazar apreciava como geradora de
virtudes. Quem retirou Portugal desse estado natural, de forma esbanjadora,
perdulária, despesista, viciosa? A classe média criada depois do 25 de Abril,
os funcionários públicos, os professores, os trabalhadores das empresas
públicas, os militares, os enfermeiros, o estado social, o alvo a abater. A
esse alvo acrescentava-se a economia expendable, as pequenas e médias
empresas dadoras de emprego, na construção civil, na restauração, etc., o
símbolo do atraso do sistema económico português que deveria ter dot.coms em
vez de cafés da esquina. Naturalmente as “jovens” desempoeiradas que pegavam na
receita da tia e começaram a vender compotas na Internet, passavam ao modelo do
“empreendorismo”. Nay.
Qual é o
remédio para repôs a virtude e combater o vício? “Ajustar”, uma tarefa que
passa por empobrecer quem ainda tinha alguma coisa (a classe média), alterar os
equilíbrios sociais que garantiam alguma distribuição (através do ataque aos
chamados “direitos adquiridos”), diminuir o valor do trabalho, impor uma
violenta carga fiscal sobre o trabalho. O empobrecimento, que os nossos
governantes com todo o à vontade tratam de “efeito colateral”, algo de tão
inevitável que não vale a pena defrontá-lo, era na verdade um mecanismo
estrutural, para voltarmos a esse estado natural a partir do qual se podia
esperar uma “economia sã”. Nay.
Podia
continuar por aqui adiante, mas cansa. Cansa ouvir isto, como me cansa a mim
escrevê-lo. Para sair disto, vale a pena aprender com os escoceses. Vejam lá o
que fizeram esses malvados. Deram alento a uma ideia que parecia morta,
marginal, apenas circulando pelas franjas da vida política, a de uma Escócia independente.
Na última década, essa ideia, a que ninguém atribuía importância, tão grande
era a inevitabilidade do Reino Unido, começou a crescer, impôs mais autonomia e
tornou central o debate da independência. Várias coisas ajudaram, a tradição
operária escocesa, a preservação da cultura nacional, e a afronta que alguns
governantes ingleses, como Thatcher, fizeram aos rudes highlanders, que
lá por usarem saias, nem por isso deixam de ser homens e mulheres orgulhosos
num mundo europeu demasiado submisso. E quando os sins e os nãos se aproximaram
perigosamente, soaram os alarmes por toda essa Europa burocrática,
estabelecida, convencida e em grande parte inútil. Aye.
A
independência escocesa teria problemas, - por mim se a maioria dos escoceses
quer ficar no Reino Unido, um sítio particularmente civilizado da Europa, muito
bem, - mas em bom rigor qual era o mal de serem independentes? Que ameaças
traria à Europa? Traria à Espanha por causa da Catalunha, mas pensam que o
“não“ escocês resolve o problema? Traria à Ucrânia oriental, mas a situação de
independência de facto existe e só em termos geopolíticos se pode explicar o
grande amor europeu à integralidade territorial da Ucrânia, que não se aplica à
Moldova, nem à Geórgia, nem à Arménia. As instituições europeias hoje
representam uma espécie de polícia da boa economia do “ajustamento”, da boa
política do establishment, da boa área de influência, a alemã. Os
escoceses mandaram-lhe um valente abanão, vindo da história, ou seja da
surpresa, da vida, da liberdade. E não pediram autorização a ninguém. Nem a
Bruxelas, nem a Londres, nem a Berlim. Aye, aye."
José Pacheco Pereira, no Público de ontem.
segunda-feira, 23 de junho de 2014
Mario Vargas Llosa: “Esta realidad puede llegar a ser el infierno”
Foto de Samuel Sánchez
¿Qué papel adopta cuando
habla con jóvenes? El de un
curioso. El abismo generacional es el más grande de la historia. Los jóvenes
están más en las pantallas; ahí su desenvoltura es imbatible. Nosotros seguimos
siendo librescos.
¿Qué más cambió? Se hacen adultos muy pronto. Frente al sexo, por
ejemplo. Es una libertad que los hace más sanos de lo que fuimos nosotros. Los
tabúes y las prohibiciones hicieron que el sexo fuera traumático.
¿Qué entiende ahora que no
hubiera entendido de joven? La igualdad
entre el hombre y la mujer. Los jóvenes ahora son más conscientes de eso y
nosotros estábamos bastante ciegos. El sexo los hace más libres. Aunque esa
libertad les hace perder más rápido esa inocencia que poco a poco iba
fomentando el amor y enriqueciendo la relación sentimental.
¿Cuándo perdió usted la
inocencia? Entre los diez y los once años.
Yo no sabía cómo venían los niños al mundo; que los trajera la cigüeña me
parecía algo fantasioso; no sospechaba el tipo de vida sexual que estaba en el
origen de la procreación.
¿Y qué otros descubrimientos
naturales lo conmovieron? El amor. Fue
fundamental y lo descubrí antes que el sexo. Mi primer amor fue el de una
trapecista de circo. Era muy chiquito; en Cochabamba los circos venían para el
6 de agosto, día de Bolivia. Había una equilibrista vestida de rosado; fue mi
primer amor.
¿Y el primer beso? A los doce años, quizá. Teníamos juegos maliciosos
entre chicos y chicas. El premio era un beso. El primero fue el de Teresita;
¡así nombré a la protagonista de la primera novela!
Abrazó la utopía de joven.
¿Cuándo se rompió la utopía? Cuando los
países que vivieron la utopía nos demostraron que ésta provocaba peores
injusticias que las injusticias que nosotros queríamos corregir con las
mediocres democracias.
Esta realidad no está para
echar cohetes. Esta realidad democrática
no sólo no es el paraíso sino que puede llegar a ser el infierno. Hay
corrupción, falta de transparencia, de vitalidad de las democracias, y eso
lleva a los jóvenes a volcarse en la indiferencia y el desprecio por lo social
y lo político; me parece muy grave. Es una realidad de nuestro tiempo.
¿Qué le sorprende de lo
que habla con los chicos? El enorme
desprecio por la política y el compromiso; piensan que es una pérdida de
tiempo, que todos los políticos son corruptos. Esa actitud cínica a la que
llegan tan pronto es peligrosa para el futuro de la democracia, de la libertad,
de todo lo que nos ha sacado de la barbarie.
¿Los convence de lo
contrario? Es difícil hacerlo si lo que
les ofreces es vivir en sociedades donde no hay trabajo sino para minorías. La
gran revolución tecnológica transforma el mundo y hace desaparecer cada vez más
oportunidades de trabajo.
¿Qué no entiende de lo que
oye? Hay un engolosinamiento con la
tecnología como panacea para resolverlo todo. Una utopía peligrosa: amenaza la
más grande conquista de la humanidad, la libertad. Es la pesadilla orwelliana
hecha realidad.
Dijo que imaginaba la
vejez junto a un gran danés, frente al mar. ¿Lo ve lejos? ¡Ja ja ja! Mi sueño es poder seguir leyendo y
escribiendo hasta el final. Si es así será una muerte feliz.
Un padre casi de su edad
le deja el sitio a alguien que puede ser su hijo, Vargas Llosa. ¿Qué porvenir
le augura al nuevo Rey? Creo que es un joven muy bien preparado para enfrentar
un porvenir enormemente incierto y difícil. Creo que es un joven muy bien preparado para enfrentar un porvenir
enormemente incierto y difícil.
(Mario Vargas Llosa entrevistado por Juan Cruz)
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