quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Antígona de Sófocles

Antígona por Frederic Leighton (1830–1896)

"Se me fosse permitido escolher uma só página da literatura para lançar no espaço em testemunho da humanidade, escolheria o monólogo de Antígona, de Sófocles". Claudio Magris citado por Guilherme d'Oliveira Martins (GOM) in Jornal de Letras de hoje. Depois de citar Claudio Magris, GOM escreve "A referência a Antígona não é casual, é um símbolo de ligação entre a humanidade e a memória, entre a justiça e a verdade."
A tragédia: "Logo após a fracassada tentativa dos sete chefes contra Tebas, Creonte, rei de Tebas, decreta que os cadáveres dos inimigos da cidade ficarão insepultos e sem os ritos fúnebres de praxe (na falta deles, a alma dos mortos não seria recebida por Hades). A penalidade estipulada para quem desobedecesse o decreto era a morte.
Polinices, um dos filhos de Édipo e sobrinho de Creonte, estava entre os atacantes; o decreto de Creonte, portanto, aplica-se também a ele. Antígona, revoltada com a ordem do tio, cobre secretamente o corpo do irmão com um pouco de terra e realiza alguns dos rituais que a religião grega preconizava para os mortos.
Descoberta, Antígona confronta Creonte com coragem e altivez, e é condenada à morte. Posteriormente as profecias de Tirésias amedrontam Creonte e ele recua; ordena a imediata libertação da moça, mas ao procurá-la descobre-se que ela, seu filho Hémon e sua esposa Eurídice haviam se suicidado." (in http://greciantiga.org/arquivo.asp?num=0434)

Análise de Jefferson Luiz Maleski (transcrição parcial):
A tragédia Antígona mostra como duas opiniões opostas podem ser corretas dependendo do ângulo analisado.
Os dois filhos homens de Édipo, Etéocles e Polinice, morrem em batalha no mesmo dia. Um contra o outro. Um a favor e o outro contra a cidade de Tebas, que passa a ser governada pelo cunhado de Édipo, Creonte. Creonte então manda enterrar honrosamente ao primeiro, mas lança uma lei de que o segundo não seja velado nem sepultado e, por ser um traidor de sua pátria, quem o fizesse seria igualmente considerado traidor. Acontece que Antígona, filha de Édipo e irmã dos falecidos, infringe a lei e presta as honras fúnebres ao morto. Com este gesto é condenada à morte.
Creonte pode ser considerado por muitos como o tirano na história, mas ele fez o que qualquer governante em seu lugar faria. Ele homenageou o herói e puniu o traidor. Nada mais justo e legal aos olhos do estado. E quando Antígona infringiu a lei, mesmo que significasse punir sua sobrinha e futura nora, não poderia voltar atrás. Considerou que ele não poderia abrir uma exceção à lei somente pelas súplicas dos seus próximos. A lei era superior ao rei. “Se eu tolerar os desmandos da minha gente, perderei autoridade sobre os demais. [...] O insolente, o transgressor das leis, o que se opõe às autoridades não conte com meu aplauso. A que a cidade conferiu poder, a este importa obedecer, seja nas grandes questões seja nas justas… e até nas injustas. [...] Não há mal maior que a anarquia, ela devasta cidades, arrasa casas, aniquila a investida de forças aliadas”. A desobediência de Antígona era um ato contra o poder de Creonte, contra as leis do estado, contra o próprio direito soberano. Creonte foi firme em defender a sua posição, assim como hoje os governantes são firmes (ao menos em tese) quando aplicam a lei aos transgressores (outra tese), pois a não punição levaria ao caos e anarquia.
Por outro lado, Antígona também tinha a sua razão. Como ela poderia obedecer a lei estatal e desobedecer a lei moral, religiosa, que mandava prestar homenagens fúnebres aos parentes mortos? A grande questão era: qual das duas leis teria primazia? Ela escolheu a lei de seus deuses, de sua moral e de sua religião. Mesmo que isto significasse a morte. Ela defendeu-se perante Creonte: “Nem eu supunha que tuas ordens tivessem o poder se superar as leis não-escritas, perenes, dos deuses, visto que és mortal. Pois elas não são de ontem nem de hoje, mas são sempre vivas, nem se sabe quando surgiram. Por isso, não pretendo, por temor às decisões de algum homem, expor-me à sentença divina”. Quantos em toda história da humanidade não morreram por um ideal? Quantos hoje não morreriam quais mártires por sua crença, por sua família ou por aquilo que faz parte de sua essência como humano? Muitos o fariam, assim como Antígona.
Existe outra discussão sobre se os reais motivos tanto de Antígona quanto de Creonte não seriam políticos. Com os dois sucessores ao trono mortos (os irmãos de Antígona), o próximo herdeiro foi Creonte. Da linhagem dos Labdácidas (Laio e Édipo), sobraram somente Antígona e sua irmã, Ismene. Como Ismene cala-se a respeito do edito real, Antígona com a sua desobediência, silenciosamente incita o povo contra Creonte. Todos passam a admirar e concordar com a atitude dela em relação ao seu irmão. Começam a falar contra o governante. Creonte também pode ter tido a idéia de despoluir Tebas exterminando os descendentes incestuosos de Édipo, pois estes eram amaldiçoados. Caso o seu filho Hemon se casasse com Antígona, a maldição continuaria em seus próprios netos.
Como toda boa tragédia grega, no final muita gente morre. Mas o importante não é a contagem de corpos, antes, a discussão sobre grandes temas que envolvem moral, direito, política e filosofia. Esta discussão ainda faz parte do presente, onde vários pensadores e críticos tem analisado a obra de diferentes pontos-de-vista.

O monólogo de Antígona:
"Ó meu túmulo e meu tálamo nupcial, ó lar cavado na rocha que me guardarás prisioneira para sempre! Para aí avanço ao encontro dos meus, de que Perséfone recebeu já o maior número entre os mortos; dentre eles, restava eu, em muito a mais perversa; a caminho já vou, antes que se tivesse cumprido o destino da minha vida. Espero, porém, confiadamente, que, ao chegar, serei bem-vinda para o meu pai, e querida para ti, minha mãe, e cara a ti, meu irmão, pois, quando morrestes, eu, querido, pois, quando morrestes, eu, pelas minhas próprias mãos, vos lavei e adornei, e derramei sobre o túmulo as libações. E agora, Polinices, por ter dado sepultura ao teu corpo, obtenho esta recompensa.
E contudo, eu soube bem honrar-te, aos olhos dos que pensam bem. Pois nem que eu fosse uma mãe com filhos, nem que tivesse um marido que apodrecesse morto, eu teria empreendido estes trabalhos contra o poder da cidade. Mas em atenção a que princípio é que eu digo isto? Se me morressem esposo, outro haveria, e teria um filho de outro homem, se houvesse perdido um. Mas estando pai e mãe ocultos no Hades, não poderá germinar outro irmão. Por eu ter preferido honrar-te, devido a este princípio, é que eu apareci aos olhos de Creonte como culpada e ousada, ó meu caro irmão! E agora ele tem-me nas suas mãos, e leva-me, privada de tálamo, privada do hirmeneu, sem me terem tocado em sorte os esponsais nem a criação de filhos, mas vai esta infeliz, abandonada pelos amigos, ainda viva, para os sepulcros dos mortos. Qual foi a lei divina que eu transgredi? Porque Heitor-de eu, aí de mim, olhar ainda para os deuses? Quem invocarei para me valer, já que por usar de piedade fiquei possuída de impiedade?
Mas se está pena é bela aos olhos dos deuses, só depois de a termos sofrido poderemos reconhecer que errámos. Se, porém, são eles que erram, que eles não sofram maiores males do que aqueles a que me forçaram, fora da lei."

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Quero fazer contigo o que a primavera faz com as cerejeiras

Brincas todos os dias com a luz do universo. 
Subtil visitadora, chegas na flor e na água. 
És mais do que a pequena cabeça branca que aperto 
como um cacho entre as mãos todos os dias.


Com ninguém te pareces desde que eu te amo. 
Deixa-me estender-te entre grinaldas amarelas. 
Quem escreve o teu nome com letras de fumo entre as estrelas do sul?


Ah deixa-me lembrar como eras então, quando ainda não existias. 


Subitamente o vento uiva e bate à minha janela fechada. 
O céu é uma rede coalhada de peixes sombrios. 
Aqui vêm soprar todos os ventos, todos. 
Aqui despe-se a chuva.


Passam fugindo os pássaros.
O vento. O vento.
Eu só posso lutar contra a força dos homens.
O temporal amontoa folhas escuras
e solta todos os barcos que esta noite amarraram ao céu.


Tu estás aqui. Ah tu não foges. 
Tu responder-me-ás até ao último grito. 
Enrola-te a meu lado como se tivesses medo. 
Porém mais que uma vez correu uma sombra estranha pelos teus olhos.


Agora, agora também, pequena, trazes-me madressilva, 
e tens até os seios perfumados. 
Enquanto o vento triste galopa matando borboletas 
eu amo-te, e a minha alegria morde a tua boca de ameixa.


O que te haverá doído acostumares-te a mim, 
à minha alma selvagem e só, ao meu nome que todos escorraçam. 
Vimos arder tantas vezes a estrela d'alva beijando-nos os olhos 
e sobre as nossas cabeças destorcerem-se os crepúsculos em leques rodopiantes.
As minhas palavras choveram sobre ti acariciando-te. 
Amei desde há que tempo o teu corpo de nácar moreno. 
Creio-te mesmo dona do universo. 
Vou trazer-te das montanhas flores alegres, «copihues», 
avelãs escuras, e cestos silvestres de beijos. 


Quero fazer contigo 
o que a primavera faz com as cerejeiras.


(Pablo Neruda in "Vinte poemas e uma canção desesperada", tradução de Fernando Assis Pacheco, Poema 14)

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Escritaria. Mário de Carvalho

De hoje até domingo decorre a Escritaria, em Penafiel. Este ano, o autor homenageado é Mário de Carvalho. Para falar da sua obra, além do próprio, estarão lá: Lídia Jorge, Ricardo Araújo Pereira, Gonçalo M. Tavares, José Carlos Vasconcelos.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Kierkegaard. Exposição na Biblioteca Nacional


A mostra reúne bibliografia publicada em Portugal de e sobre Søren Kierkegaard (1813-1855) e um conjunto de 16 painéis descritivos da sua vida e obra, que assinalam e celebram o bicentenário do seu nascimento. Além da Biblioteca Nacional de Portugal e das instituições culturais dinamarquesas responsáveis pela sua conceção, tuteladas pelos Ministérios da Cultura e dos Negócios Estrangeiros da Dinamarca, a mostra conta com o apoio da Embaixada da Dinamarca em Lisboa e do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa.

A obra de Søren Kierkegaard — muita dela escrita sob pseudónimo — atingiu, em vida do autor, um escasso número de leitores. Pelo contrário, a partir do início do séc. XX, a sua obra passou a ser objeto de intensa e generalizada investigação. Kierkegaard exerceu uma influência significativa em filósofos de várias escolas e nacionalidades, entre os quais se contam Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir e Albert Camus, e também Miguel de Unamuno, Martin Heidegger, Karl Jaspers e Ludwig Wittgenstein, e, na atualidade, por exemplo, Alain Badiou ou Slavoj Žižek. No campo da teologia, Kierkegaard marcou, entre outros, Dietrich Bonhoeffer, Paul Tillich, Karl Bath e Rudolf Bultmann. No campo literário, o impacto de Kierkegaard é reconhecível, numa primeira geração, em Henrik Ibsen, August Strindberg e Franz Kafka, mas hoje em dia estende-se a autores de muitas outras literaturas.

Em Portugal, durante o séc. XX, a receção de Søren Kierkegaard caracteriza-se por uma investigação de iniciativa marcadamente individual ao longo de sucessivas gerações de tradutores e de filósofos. Distinguem-se inicialmente Adolfo Casais Monteiro (1908-1972), José Marinho (1904-1975), e Delfim Santos (1907-1966), cuja influência se desenvolveu tanto nos círculos literários como académicos. Eduardo Lourenço (n.1923) é a figura dominante na geração que acolhe criticamente o Existencialismo. Merece também destaque o fluxo ensaístico que veio a lume durante a década de 60, revelador da presença contínua da filosofia de Kierkegaard na produção literária e filosófica em Portugal. É a primeira década do séc. XXI que anuncia um novo fôlego na investigação kierkegaardiana, que surge agora mais enraizada na universidade. Publicaram-se as primeiras traduções a partir do original dinamarquês, acompanhadas pela realização regular de conferências e pela publicação de estudos sobre a obra do autor, num conjunto de realizações que assinala inequivocamente uma mudança de paradigma na receção portuguesa do filósofo dinamarquês.
(do site da Biblioteca Nacional)

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Onde se pensa?


"Cada vez, diga-se, pensamos em menos espaços. Os espaços de pensamento estão a desaparecer . No teatro diz-se (já ouvimos muitas vezes): o teatro não é para pensar. No cinema diz-se: o cinema não é para pensar. Na arte diz-se: a arte não é para pensar. Na literatura diz-se: A literatura não é para pensar. Nos jornais: os jornais não são para pensar e etc., e etc. A questão que fica é : então, onde é que se pensa ? No quarto sozinhos ? Fechados na casa de banho ? 
Num submarino ?
Pensar tornou-se quase sinónimo de incomodar os outros. Como se pensar fosse uma falta de educação. Pensar à frente dos outros, que indiscrição, que falta de pudor! Pensar começa a ser uma actividade que se tolera apenas quando um homem está só e a muitos metros abaixo do solo. Pensar, sim, mas no subterrâneo. Certamente chegará o momento em que levarão as pessoas que pensam para uma mina a muitos metros abaixo do solo e depois dirão: pensem aí à vontade.
Acredito que com o tempo poderá surgir uma espécie de aldeia de pensadores debaixo do chão.Uma comunidade paralela à nossa, que não chegará a ver a luz do sol - e que ali continuará, nas profundezas, a pensar; a pensar muito. Uma comunidade de pensadores-mineiros. Ou melhor, uma comunidade de pensadores transformados, à força, em mineiros. Descubram metal valioso, sim, mas lá em baixo. Uma cidade abaixo do nível do chão.
Ou então, enviar quem pensa para o mar. Eis outra hipótese. Como se os pensadores fossem pescadores que não querem peixes, pescadores do nada. Não querem apanhar nenhum animal, nenhum objecto, nada - só querem apanhar ideias, que desperdício! Eis, então uma segunda comunidade possível. Os homens que pensam são expulsos para o mar; para o alto mar!
Eis uma situação ficcional. Um navio gigante cheios de homens que pensam; os melhores pensadores de todas as cidades ali estão, embarcado; vivos, sim, e fortes, sim, mas longe da terra e dos sítios onde tudo se decide, longe de qualquer movimento político, longe do parlamento. Os pensadores estão apenas a par dos movimentos do mar; porém os homens que ficam em solo firme, os que expulsaram esse barco do pensamento como se fosse um navio de detritos, de restos - navio lançado ao mar para aí ficar para sempre - os que ficaram em solo firme suspiram de alívio. E se esse navio se aproximar da costa será bombardeado. Eis o barco dos pensadores, o barco dos homens que incomodam o discurso que se faz em terra firme.
E eis, então, que são criadas duas cidades para pensadores : uma cidade abaixo da terra e outra acima do mar, literalmente - uma cidade móvel, um barco.
Em terra firme, na cidade que não treme, eis quem fica: Aquele humano que não é mal educado; aquele que 
só pensa depois dos outros, nunca antes. Como se pensar fosse semelhante a deixar passar senhoras de idade à frente nas portas.
- Primeiro pense o senhor.
- Não, por favor, primeiro pense o senhor. E assim ficam minutos, horas, dias, bem educados a insistirem para que o outro pense primeiro. E como são muitíssimos bem educados ninguém se atreve a dar o primeiro passo e por isso alí ficam, assim, de frente uns para os outros, com rosto de peixe e pensamento nenhum; em terra firme, mas tonta."
Gonçalo M. Tavares 
Crónica publicada na Revista Visão de 22 de Agosto de 2013

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Claudio Magris venceu o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva


É um dos grandes intelectuais europeus da actualidade, um eterno candidato ao Nobel da Literatura. O escritor italiano Claudio Magris, de 74 anos, venceu o primeiro Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a divulgação do Património Cultural, instituído pela Europa Nostra, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o Clube Português de Imprensa.
À hora em que o prémio foi este domingo anunciado, Claudio Magris, ensaísta especializado nos grandes dilemas da Europa, autor de obras tão conhecidas e aplaudidas pela crítica como Danúbio (Dom Quixote), passeava-se (e passeia) pelo alto mar. Mas não partiu para longe do mundo que tanto analisa sem antes ter deixado uma mensagem de agradecimento por mais uma distinção.
Numa carta endereçada ao júri, presidido por Guilherme d’Oliveira Martins (presidente do Centro Nacional de Cultura), Claudio Magris expressou a “mais profunda gratidão por este grande, generoso e totalmente inesperado reconhecimento”, que, acrescenta. “chega de um país que sempre esteve presente na minha fantasia, nos meus interesses, no meu imaginário”.
“Não sou um lusitanista e infelizmente não falo português, mas a história, a civilização e a literatura desse pequeno grande país sempre desempenharam para mim um importante papel, sempre me estiveram presentes.” E continua, na nota enviada ao PÚBLICO: “Talvez porque se trata de uma enorme civilização de mar, elemento essencial da minha sensibilidade e do meu ser, de um pequeno país que se tornou num império do mundo – no mais lato sentido do termo e não só no político – e como poucos outros foi um teatro de encontro, e como sempre também de confronto, em suma, um palco de protagonismo no grande teatro do mundo”.
A ligação do escritor italiano a Portugal há muito tempo que é conhecida. Em 2011, Claudio Magris assinou até o prefácio da reedição da Caminho de A Viagem a Portugal, de José Saramago. Magris lembrou no prefácio que, quando se encontrou pela primeira vez com Saramago em Lisboa, foi este o livro que o Nobel da Literatura lhe ofereceu.
Nascido em Trieste em 1939, Claudio Magris tem uma extensa obra dedicada ao ensaio, ao romance e ao relato de viagens. O italiano é ainda professor de literatura alemã e tradutor, colaborando ainda com regularidade para o jornal italiano Corriere della Sera. Como diz ao PÚBLICO Guilherme d’Oliveira Martins, “além de um grande escritor, Claudio Magris é um homem da comunicação”.
O prémio agora entregue a Magris pretende anualmente distinguir um cidadão europeu que, ao longo da sua carreira, se tenha distinguido pela sua actividade de divulgação, defesa e promoção do património cultural europeu através de obras literárias, artigos, crónicas, fotos, séries documentais, filmes e programas de rádio e/ou de televisão publicados ou emitidos nos diversos meios de comunicação.
É por isso que, para Guilherme d’Oliveira Martins, “faz todo o sentido premiar Claudio Magris nesta primeira edição”. “É um escritor com uma noção de património que não se projecta apenas no passado como se estende ao presente. Tem uma escrita plural, tolerante e promotora de uma cultura europeia”, diz ao PÚBLICO o presidente do júri, composto por Antonio Foscari, Francisco Pinto Balsemão, Irina Subotic, João David Nunes, José María Ballester e Piet Jaspaert.
No comunicado, o júri destaca exactamente o conhecimento que Claudio Magris tem da Europa “enquanto espaço de diálogo e de intercâmbio cultural é muito perceptível, especialmente na sua obra sobre o Danúbio", cujo tema principal é uma incursão e um pretexto para explorar e dissertar sobre a cultura centro-europeia, "mas igualmente em toda a sua rica produção literária”.
“Através dos seus textos tem contribuído para a tolerância e a paz europeia. Magris é alguém que tem reflectido ao longo da vida sobre os temas de identidade como factores de entendimento, valores tão importantes nos dias de hoje”, acrescenta ainda ao Guilherme d’Oliveira Martins, que em Outubro entregará o prémio no valor de dez mil euros ao escritor italiano numa cerimónia que vai acontecer na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.
Sendo a Europa um dos temas sobre os quais mais se debruça, Claudio Magris foi um dos intelectuais que no início do ano assinou o manifesto internacional chamado Europa ou o caos. Uma denúncia do vertiginoso crescimento do "cinismo", "chauvinismo" e populismo" e que começava por dizer que “a Europa não está em crise, está a morrer”.
“Não a Europa como território, naturalmente. A Europa como Ideia. A Europa como um sonho e um projecto”, diz o início do texto assinado ainda pelo escritor português António Lobo Antunes, Bernard-Henri Lévy (autor francês), Vassilis Alexakis (escritor grego), Juan Luis Cebrián (jornalista espanhol e fundador do El País), Umberto Eco (intelectual italiano), Salman Rushdie (romancista indiano), Fernando Savater (filósofo espanhol), Peter Schneider (romancista alemão), Hans Christoph Buch (jornalista e autor alemão), Julia Kristeva (filósofa búlgaro-francesa) e Gÿorgy Konrád (ensaísta húngaro).

(Artigo da autoria de Cláudia Carvalho, publicado no site do jornal Público)

sábado, 20 de julho de 2013

Últimas palavras


Quando chegava o verão, o avô lembrava-se finalmente das crianças da casa. Durante todo o ano elas eram-lhe aparentemente indiferentes, mesmo nas festas de aniversário, mesmo no Natal, mesmo quando a avó dizia que alguma delas estava com febre.
Dava o dinheiro para as prendas quando era caso disso, perguntava se já tinham telefonado para o médico – mas nem perdia tempo a ouvir a resposta.
Mas quando o verão chegava, o avô instalava-se debaixo do limoeiro do jardim e escrevia frases. Muitas frases. Depois chamava-as e pedia-lhes a opinião. As crianças eram muito pequenas, encolhiam os ombros, e riam sem perceber nada. Mas o avô não se ria. O avô punha um ar muito sério e dizia que estava ali toda a sabedoria do mundo, e que era assim que se crescia.
Durante as longas tardes de verão, o avô inventava frases. Frases importantes e únicas, dizia ele. «Quando desaparecermos», repetia, «seremos lembrados sempre por aquilo que dissermos.» Depois costumava citar exemplos de colegas ilustres. «Passa-me os óculos – foi a última frase do Fernando Pessoa», dizia o avô muitas vezes, e as crianças riam ainda mais, porque nenhuma delas sabia quem era o Fernando Pessoa e, além disso, não acreditavam que alguém pudesse ficar conhecido só por ter dito uma frase igualzinha à que a velha Josefina andava sempre a dizer, porque nunca sabia onde é que deixava as coisas. Mas o avô garantia que sim, «as palavras que dizemos é o que de nós fica quando partirmos», e por isso passava horas debaixo do limoeiro do jardim, vendo toda a gente ir para a praia, e ele a inventar frases dignas de serem recordadas. «Frases únicas», repetia. [...] A mãe às vezes ainda insistia, «ó pai, venha lá até à praia!», mas ele que não, que não podia ser, que não tinha tempo a perder, daqui a nada vinha o outono [...]. A mãe abanava a cabeça, e ele ficava, debaixo do limoeiro, com o caderninho de capa de oleado muito perto dos olhos, escrevendo, escrevendo, escrevendo.
Um dia, estavam as crianças já muito bronzeadas da praia, o avô chamou-as e disse: «Vou morrer amanhã.» E, como sempre, elas riram muito, «essa não é má, avô, é melhor do que pedir os óculos!». E o avô continuou: «O meu coração não vai aguentar as primeiras chuvas.» E elas, «e quem é que falou em chover, avô? Está um sol que é uma beleza»; e ele, «entrou o inverno no limoeiro», e elas olharam umas para as outras e pensaram que, tal como a mãe murmurava às vezes para o pai, pensando que ninguém a ouvia, o avô já não dizia coisa com coisa.
Nessa noite a casa encheu-se de barulhos estranhos, e a Josefina entrou no quarto das crianças dizendo-lhes que não tivessem medo, e que ficassem muito quietas na cama, e que tentassem adormecer.
No dia seguinte, o céu estava cheio de nuvens e o jardim alagado da chuva que caíra de madrugada. «O vento deitou abaixo o limoeiro», disse Josefina, enquanto lhes punha o leite nas canecas. As crianças olharam umas para as outras. E nenhuma delas precisou de perguntar pelo avô.
Foi nesse verão que se tornaram adultos.
Mas isso só o compreenderam muitos anos depois.
Alice Vieira, «Últimas Palavras», Bica Escaldada, Lisboa, Editorial Notícias, 2004
(texto incluído na prova de Português do 12º ano, 2013, 2ª fase)