quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Kierkegaard. Exposição na Biblioteca Nacional


A mostra reúne bibliografia publicada em Portugal de e sobre Søren Kierkegaard (1813-1855) e um conjunto de 16 painéis descritivos da sua vida e obra, que assinalam e celebram o bicentenário do seu nascimento. Além da Biblioteca Nacional de Portugal e das instituições culturais dinamarquesas responsáveis pela sua conceção, tuteladas pelos Ministérios da Cultura e dos Negócios Estrangeiros da Dinamarca, a mostra conta com o apoio da Embaixada da Dinamarca em Lisboa e do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa.

A obra de Søren Kierkegaard — muita dela escrita sob pseudónimo — atingiu, em vida do autor, um escasso número de leitores. Pelo contrário, a partir do início do séc. XX, a sua obra passou a ser objeto de intensa e generalizada investigação. Kierkegaard exerceu uma influência significativa em filósofos de várias escolas e nacionalidades, entre os quais se contam Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir e Albert Camus, e também Miguel de Unamuno, Martin Heidegger, Karl Jaspers e Ludwig Wittgenstein, e, na atualidade, por exemplo, Alain Badiou ou Slavoj Žižek. No campo da teologia, Kierkegaard marcou, entre outros, Dietrich Bonhoeffer, Paul Tillich, Karl Bath e Rudolf Bultmann. No campo literário, o impacto de Kierkegaard é reconhecível, numa primeira geração, em Henrik Ibsen, August Strindberg e Franz Kafka, mas hoje em dia estende-se a autores de muitas outras literaturas.

Em Portugal, durante o séc. XX, a receção de Søren Kierkegaard caracteriza-se por uma investigação de iniciativa marcadamente individual ao longo de sucessivas gerações de tradutores e de filósofos. Distinguem-se inicialmente Adolfo Casais Monteiro (1908-1972), José Marinho (1904-1975), e Delfim Santos (1907-1966), cuja influência se desenvolveu tanto nos círculos literários como académicos. Eduardo Lourenço (n.1923) é a figura dominante na geração que acolhe criticamente o Existencialismo. Merece também destaque o fluxo ensaístico que veio a lume durante a década de 60, revelador da presença contínua da filosofia de Kierkegaard na produção literária e filosófica em Portugal. É a primeira década do séc. XXI que anuncia um novo fôlego na investigação kierkegaardiana, que surge agora mais enraizada na universidade. Publicaram-se as primeiras traduções a partir do original dinamarquês, acompanhadas pela realização regular de conferências e pela publicação de estudos sobre a obra do autor, num conjunto de realizações que assinala inequivocamente uma mudança de paradigma na receção portuguesa do filósofo dinamarquês.
(do site da Biblioteca Nacional)

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Onde se pensa?


"Cada vez, diga-se, pensamos em menos espaços. Os espaços de pensamento estão a desaparecer . No teatro diz-se (já ouvimos muitas vezes): o teatro não é para pensar. No cinema diz-se: o cinema não é para pensar. Na arte diz-se: a arte não é para pensar. Na literatura diz-se: A literatura não é para pensar. Nos jornais: os jornais não são para pensar e etc., e etc. A questão que fica é : então, onde é que se pensa ? No quarto sozinhos ? Fechados na casa de banho ? 
Num submarino ?
Pensar tornou-se quase sinónimo de incomodar os outros. Como se pensar fosse uma falta de educação. Pensar à frente dos outros, que indiscrição, que falta de pudor! Pensar começa a ser uma actividade que se tolera apenas quando um homem está só e a muitos metros abaixo do solo. Pensar, sim, mas no subterrâneo. Certamente chegará o momento em que levarão as pessoas que pensam para uma mina a muitos metros abaixo do solo e depois dirão: pensem aí à vontade.
Acredito que com o tempo poderá surgir uma espécie de aldeia de pensadores debaixo do chão.Uma comunidade paralela à nossa, que não chegará a ver a luz do sol - e que ali continuará, nas profundezas, a pensar; a pensar muito. Uma comunidade de pensadores-mineiros. Ou melhor, uma comunidade de pensadores transformados, à força, em mineiros. Descubram metal valioso, sim, mas lá em baixo. Uma cidade abaixo do nível do chão.
Ou então, enviar quem pensa para o mar. Eis outra hipótese. Como se os pensadores fossem pescadores que não querem peixes, pescadores do nada. Não querem apanhar nenhum animal, nenhum objecto, nada - só querem apanhar ideias, que desperdício! Eis, então uma segunda comunidade possível. Os homens que pensam são expulsos para o mar; para o alto mar!
Eis uma situação ficcional. Um navio gigante cheios de homens que pensam; os melhores pensadores de todas as cidades ali estão, embarcado; vivos, sim, e fortes, sim, mas longe da terra e dos sítios onde tudo se decide, longe de qualquer movimento político, longe do parlamento. Os pensadores estão apenas a par dos movimentos do mar; porém os homens que ficam em solo firme, os que expulsaram esse barco do pensamento como se fosse um navio de detritos, de restos - navio lançado ao mar para aí ficar para sempre - os que ficaram em solo firme suspiram de alívio. E se esse navio se aproximar da costa será bombardeado. Eis o barco dos pensadores, o barco dos homens que incomodam o discurso que se faz em terra firme.
E eis, então, que são criadas duas cidades para pensadores : uma cidade abaixo da terra e outra acima do mar, literalmente - uma cidade móvel, um barco.
Em terra firme, na cidade que não treme, eis quem fica: Aquele humano que não é mal educado; aquele que 
só pensa depois dos outros, nunca antes. Como se pensar fosse semelhante a deixar passar senhoras de idade à frente nas portas.
- Primeiro pense o senhor.
- Não, por favor, primeiro pense o senhor. E assim ficam minutos, horas, dias, bem educados a insistirem para que o outro pense primeiro. E como são muitíssimos bem educados ninguém se atreve a dar o primeiro passo e por isso alí ficam, assim, de frente uns para os outros, com rosto de peixe e pensamento nenhum; em terra firme, mas tonta."
Gonçalo M. Tavares 
Crónica publicada na Revista Visão de 22 de Agosto de 2013

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Claudio Magris venceu o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva


É um dos grandes intelectuais europeus da actualidade, um eterno candidato ao Nobel da Literatura. O escritor italiano Claudio Magris, de 74 anos, venceu o primeiro Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a divulgação do Património Cultural, instituído pela Europa Nostra, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o Clube Português de Imprensa.
À hora em que o prémio foi este domingo anunciado, Claudio Magris, ensaísta especializado nos grandes dilemas da Europa, autor de obras tão conhecidas e aplaudidas pela crítica como Danúbio (Dom Quixote), passeava-se (e passeia) pelo alto mar. Mas não partiu para longe do mundo que tanto analisa sem antes ter deixado uma mensagem de agradecimento por mais uma distinção.
Numa carta endereçada ao júri, presidido por Guilherme d’Oliveira Martins (presidente do Centro Nacional de Cultura), Claudio Magris expressou a “mais profunda gratidão por este grande, generoso e totalmente inesperado reconhecimento”, que, acrescenta. “chega de um país que sempre esteve presente na minha fantasia, nos meus interesses, no meu imaginário”.
“Não sou um lusitanista e infelizmente não falo português, mas a história, a civilização e a literatura desse pequeno grande país sempre desempenharam para mim um importante papel, sempre me estiveram presentes.” E continua, na nota enviada ao PÚBLICO: “Talvez porque se trata de uma enorme civilização de mar, elemento essencial da minha sensibilidade e do meu ser, de um pequeno país que se tornou num império do mundo – no mais lato sentido do termo e não só no político – e como poucos outros foi um teatro de encontro, e como sempre também de confronto, em suma, um palco de protagonismo no grande teatro do mundo”.
A ligação do escritor italiano a Portugal há muito tempo que é conhecida. Em 2011, Claudio Magris assinou até o prefácio da reedição da Caminho de A Viagem a Portugal, de José Saramago. Magris lembrou no prefácio que, quando se encontrou pela primeira vez com Saramago em Lisboa, foi este o livro que o Nobel da Literatura lhe ofereceu.
Nascido em Trieste em 1939, Claudio Magris tem uma extensa obra dedicada ao ensaio, ao romance e ao relato de viagens. O italiano é ainda professor de literatura alemã e tradutor, colaborando ainda com regularidade para o jornal italiano Corriere della Sera. Como diz ao PÚBLICO Guilherme d’Oliveira Martins, “além de um grande escritor, Claudio Magris é um homem da comunicação”.
O prémio agora entregue a Magris pretende anualmente distinguir um cidadão europeu que, ao longo da sua carreira, se tenha distinguido pela sua actividade de divulgação, defesa e promoção do património cultural europeu através de obras literárias, artigos, crónicas, fotos, séries documentais, filmes e programas de rádio e/ou de televisão publicados ou emitidos nos diversos meios de comunicação.
É por isso que, para Guilherme d’Oliveira Martins, “faz todo o sentido premiar Claudio Magris nesta primeira edição”. “É um escritor com uma noção de património que não se projecta apenas no passado como se estende ao presente. Tem uma escrita plural, tolerante e promotora de uma cultura europeia”, diz ao PÚBLICO o presidente do júri, composto por Antonio Foscari, Francisco Pinto Balsemão, Irina Subotic, João David Nunes, José María Ballester e Piet Jaspaert.
No comunicado, o júri destaca exactamente o conhecimento que Claudio Magris tem da Europa “enquanto espaço de diálogo e de intercâmbio cultural é muito perceptível, especialmente na sua obra sobre o Danúbio", cujo tema principal é uma incursão e um pretexto para explorar e dissertar sobre a cultura centro-europeia, "mas igualmente em toda a sua rica produção literária”.
“Através dos seus textos tem contribuído para a tolerância e a paz europeia. Magris é alguém que tem reflectido ao longo da vida sobre os temas de identidade como factores de entendimento, valores tão importantes nos dias de hoje”, acrescenta ainda ao Guilherme d’Oliveira Martins, que em Outubro entregará o prémio no valor de dez mil euros ao escritor italiano numa cerimónia que vai acontecer na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.
Sendo a Europa um dos temas sobre os quais mais se debruça, Claudio Magris foi um dos intelectuais que no início do ano assinou o manifesto internacional chamado Europa ou o caos. Uma denúncia do vertiginoso crescimento do "cinismo", "chauvinismo" e populismo" e que começava por dizer que “a Europa não está em crise, está a morrer”.
“Não a Europa como território, naturalmente. A Europa como Ideia. A Europa como um sonho e um projecto”, diz o início do texto assinado ainda pelo escritor português António Lobo Antunes, Bernard-Henri Lévy (autor francês), Vassilis Alexakis (escritor grego), Juan Luis Cebrián (jornalista espanhol e fundador do El País), Umberto Eco (intelectual italiano), Salman Rushdie (romancista indiano), Fernando Savater (filósofo espanhol), Peter Schneider (romancista alemão), Hans Christoph Buch (jornalista e autor alemão), Julia Kristeva (filósofa búlgaro-francesa) e Gÿorgy Konrád (ensaísta húngaro).

(Artigo da autoria de Cláudia Carvalho, publicado no site do jornal Público)

sábado, 20 de julho de 2013

Últimas palavras


Quando chegava o verão, o avô lembrava-se finalmente das crianças da casa. Durante todo o ano elas eram-lhe aparentemente indiferentes, mesmo nas festas de aniversário, mesmo no Natal, mesmo quando a avó dizia que alguma delas estava com febre.
Dava o dinheiro para as prendas quando era caso disso, perguntava se já tinham telefonado para o médico – mas nem perdia tempo a ouvir a resposta.
Mas quando o verão chegava, o avô instalava-se debaixo do limoeiro do jardim e escrevia frases. Muitas frases. Depois chamava-as e pedia-lhes a opinião. As crianças eram muito pequenas, encolhiam os ombros, e riam sem perceber nada. Mas o avô não se ria. O avô punha um ar muito sério e dizia que estava ali toda a sabedoria do mundo, e que era assim que se crescia.
Durante as longas tardes de verão, o avô inventava frases. Frases importantes e únicas, dizia ele. «Quando desaparecermos», repetia, «seremos lembrados sempre por aquilo que dissermos.» Depois costumava citar exemplos de colegas ilustres. «Passa-me os óculos – foi a última frase do Fernando Pessoa», dizia o avô muitas vezes, e as crianças riam ainda mais, porque nenhuma delas sabia quem era o Fernando Pessoa e, além disso, não acreditavam que alguém pudesse ficar conhecido só por ter dito uma frase igualzinha à que a velha Josefina andava sempre a dizer, porque nunca sabia onde é que deixava as coisas. Mas o avô garantia que sim, «as palavras que dizemos é o que de nós fica quando partirmos», e por isso passava horas debaixo do limoeiro do jardim, vendo toda a gente ir para a praia, e ele a inventar frases dignas de serem recordadas. «Frases únicas», repetia. [...] A mãe às vezes ainda insistia, «ó pai, venha lá até à praia!», mas ele que não, que não podia ser, que não tinha tempo a perder, daqui a nada vinha o outono [...]. A mãe abanava a cabeça, e ele ficava, debaixo do limoeiro, com o caderninho de capa de oleado muito perto dos olhos, escrevendo, escrevendo, escrevendo.
Um dia, estavam as crianças já muito bronzeadas da praia, o avô chamou-as e disse: «Vou morrer amanhã.» E, como sempre, elas riram muito, «essa não é má, avô, é melhor do que pedir os óculos!». E o avô continuou: «O meu coração não vai aguentar as primeiras chuvas.» E elas, «e quem é que falou em chover, avô? Está um sol que é uma beleza»; e ele, «entrou o inverno no limoeiro», e elas olharam umas para as outras e pensaram que, tal como a mãe murmurava às vezes para o pai, pensando que ninguém a ouvia, o avô já não dizia coisa com coisa.
Nessa noite a casa encheu-se de barulhos estranhos, e a Josefina entrou no quarto das crianças dizendo-lhes que não tivessem medo, e que ficassem muito quietas na cama, e que tentassem adormecer.
No dia seguinte, o céu estava cheio de nuvens e o jardim alagado da chuva que caíra de madrugada. «O vento deitou abaixo o limoeiro», disse Josefina, enquanto lhes punha o leite nas canecas. As crianças olharam umas para as outras. E nenhuma delas precisou de perguntar pelo avô.
Foi nesse verão que se tornaram adultos.
Mas isso só o compreenderam muitos anos depois.
Alice Vieira, «Últimas Palavras», Bica Escaldada, Lisboa, Editorial Notícias, 2004
(texto incluído na prova de Português do 12º ano, 2013, 2ª fase)

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Crivelli "exportado"

C. Crivelli, Virgem com o Menino, Santo Emídio, São Sebastião, São Roque, São Francisco de Assis e o Beato Tiago da Marca


Respondo à resposta de João Miguel Tavares (J.M.T.) na sua crónica de 6 de Junho. Tendo que ser sintética, há, ainda assim, dois brevíssimos pontos prévios.
1. O destaque dado pelo PÚBLICO ao caso da exportação, talvez ilegal, da pintura de Crivelli enche-me o coração e consolida o acto da compra diária do jornal. Apesar da alarmante perda de qualidade, é o único órgão de comunicação em Portugal que tem (ainda?) jornalistas para a área da cultura e que são muito boas.
2. A crónica de J.M.T. provocou-me uma estranha impressão: num tempo em que as diferenças entre esquerda e direita são tão ténues, confirmei que sou de esquerda. Não trompe l’oeil como ele diz, em desnecessária chicana, mas com a convicção que a coisa pública existe, tem razão de ser e deve ser defendida. Sobretudo quando se trata de heranças culturais.
Passo à resposta dele: ‘A verdade é que o país não tem coisíssima nenhuma. O Crivelli é de Pais do Amaral.’
Para apoiar tão convicta “verdade”, J.M.T. cita o artigo 62º da Constituição Portuguesa que garante o direito à propriedade privada. Mas a verdade é que a Lei de Bases do Património Cultural, de 2001, foi aprovada, por unanimidade, na Assembleia da República e não está ferida de inconstitucionalidade. Ora, ela enuncia e regula o direito do Estado para reduzir drasticamente os direitos à propriedade, em defesa de patrimónios que, mesmo sendo propriedade privada, têm elevado valor cultural. É nesta civilizada lei (que, com nuances diversas, existe em todos os países da Europa) que me fundamentei para considerar que Portugal tinha e devia continuar a ter um Crivelli. Ele é agora (ainda será?) de quem o comprou para o vender logo a seguir, como antes fora, durante quase dois séculos, de uma família açoriana e, antes dela, de sei lá de quantos proprietários de que gostaríamos de saber o nome, só para sabermos mais sobre Crivelli.
Como é possível amesquinhar com tanta leviandade a energia do capital simbólico perante a efemeridade ferida de morte do dinheiro? As famílias italianas que permitiram a Crivelli criar são sombras, e se delas guardamos memória é por terem sido mecenas dele. Só por isso um papa como Júlio II me interessa. Não foi ele que criou Miguel Ângelo, antes este que lhe garantiu a glória da encomenda. E Calouste Gulbenkian, pouco mais de meio século após a sua morte, é definitivamente um museu.
A salvaguarda e valorização dos capitais simbólicos é um traço constitutivo da cultura europeia. Precisa de ser alimentado pelas políticas públicas e pela generosidade cívica. Coisas essenciais de que somos muito carentes, como prova a presente história.
Nota final: o à-vontade com que J.M.T. se me dirige, permite--me que lhe deixe um conselho, um bocado professoral. Precisa de estudar a cultura das vanguardas russas das duas primeiras décadas do século XX. E, como deve calcular, não é por causa dos “cartazes de Estaline”.
Raquel Henriques da Silva professora de História da Arte

segunda-feira, 3 de junho de 2013

The Love-Song of J. Alfred Prufrock


O poema "The Love-Song of J. Alfred Prufrock" de T. S. Eliot aqui

domingo, 2 de junho de 2013

Ulisses, segundo Enrique Vila-Matas

James Joyce, Samuel Beckett, George Bernard Shaw e Oscar Wilde no episódio "In the name of the grandfather" - "Os Simpsons"

Le Nouvel Observateur: Dans votre roman Dublinesca, vous écrivez à propos de Riba, le personnage principal, : « Il lui est agréable de se rappeler la vieille musique de ce livre splendide [Ulysse] qu’il avait lu à la fois stupéfait et fasciné. » Comment définir cette musique ?
Enrique Vila-Matas: Joyce avait une impressionnante oreille de poète et de musicien. Quand il écrivait une page en prose, il était persuadé qu’il rédigeait une page parallèle à sa partition musicale préférée. C’est une façon de travailler à la fois très folle et très intéressante. Je la recommande. Un écrivain croit qu’il est Debussy quand il écrit, mais le résultat n’est pas Debussy ; en fait, il accède à une plus grande hauteur que s’il ne s’était pas pris pour lui. Les goûts musicaux de Joyce étaient très éclectiques. Ce qui nous donne une piste pour comprendre son désir de tout embrasser et de nier toutes les frontières. Il comprenait les classiques allemands, la musique italienne ancienne, la musique populaire ainsi que les compositeurs d’opéra, depuis Spontini jusque bien avant lui, de même que les Français jusqu’à Satie. Il avait, par ailleurs, une splendide voix de ténor et Svevo, qui l’appréciait beaucoup, disait toujours qu’il aurait aimé voir son ami Joyce marcher triomphalement sur une scène lyrique et interpréter Faust ou Manrico (le personnage principal du Trouvère de Verdi).
La musique d’Ulysse dont je parle dans Dublinesca est la musique du monde. Quand le monde n’existera plus, il restera sa musique, un bruit de fond, le bruit éternel. Ce bruit me fait penser à Hamlet quand il dit que pour lui, il n’y a plus que le silence, un silence infini. Horatio lui souhaite une bonne nuit et, à ce moment précis, on entend un tambour. Hamlet, surpris, demande pourquoi ce tambour se dirige vers lui. Il annonce cette sorte de bruit éternel, une musique sans fin, la musique du tambour de l’univers. C’est aussi la musique d’Ulysse.
Le Nouvel Observateur: Vous l’avez entendue dès votre première lecture?
Enrique Vila-Matas: En ce qui concerne ma première approche d’Ulysse, je dois dire que j’étais extrêmement jeune et je n’avais rien compris au premier chapitre, le seul que j’avais lu. Un ami m’avait dit que je devais me procurer un livre expliquant ce livre pour pouvoir le comprendre. J’ai découvert, à ce moment-là, un aspect intéressant de l’art contemporain qui vient du modernisme, époque où tout a changé pour nous : le discours théorique est passé au premier plan, il est devenu essentiel. Si vous ne savez pas que vous regardez un tableau cubiste, vous ne saurez sûrement pas ce qu’il y a à voir. Vous allez devoir avoir recours à un manuel qui vous explique ce que vous êtes en train de voir. C’est le triomphe de la théorie. Ce que j’adore !
En résumé, pour pouvoir me replonger dans Ulysse, j’ai lu des livres qui l’expliquaient et petit à petit j’ai été fasciné, j’avais de plus en plus envie de retourner à ce premier chapitre que je n’avais pas compris. Ce fut pour le lecteur que je suis un grand festin que je ne pourrai jamais oublier.
(Enrique Vila-Matas, parte da entrevista ao Nouvel Observateur)