Europa, Felix Vallotton (1865-1925)
quinta-feira, 9 de maio de 2013
segunda-feira, 6 de maio de 2013
O material tem sempre razão
Hoje é um dia em que a politiquice, a pura coreografia política, a ilusão, o dolo, vão atingir limites de insulto a todos os portugueses que estão a empobrecer. Esta dança entre Passos Coelho e Portas (e deliberadamente escrevo antes de Portas falar) é a utilização da comunicação social e de alguns truques demasiado conhecidos para "todos se sairem bem", com o objectivo de nos distrair e enganar. É corrrupção das mentes, tão grave quanto a dos bolsos, é exactamente tudo aquilo que desagrega velozmente uma democracia. Metáforas habilidosas, recursos semânticos de um autor de títulos de soundbyte, frases que pretendem ser virais, desculpas apresentadas como vitórias, imagem, imagem, imagem, vaidade, vaidade, vaidade. E pequenez disfarçada de esperteza.
O combate contra o governo incompetente, arrogante e destruidor que temos, que vive do medo das pessoas de perderem o mais básico da sua vida, vai acabar por ter mais do que uma dimensão política, vai ter uma dimensão de dever, de obrigação, uma dimensão ética. Com este tipo de coerografias dolosas, sem respeito por ninguém, sem sentido de responsabilidade, e muito menos de estado, está-se a abrir o caminho para a desobediência civil. E estou a dizer exactamente o que quero dizer.
José Pacheco Pereira no Abrupto (5 de maio de 2013)
terça-feira, 23 de abril de 2013
Caminho da manhã
Vais pela estrada que é de terra amarela e quase sem nenhuma sombra. As
cigarras cantarão o silêncio de bronze. À tua direita irá primeiro um muro
caiado que desenha a curva da estrada. Depois encontrarás as figueiras
transparentes e enroladas; mas os seus ramos não dão nenhuma sombra. E assim irás
sempre em frente com a pesada mão do Sol pousada nos teus ombros, mas conduzida
por uma luz levíssima e fresca. Até chegares às muralhas antigas da cidade que
estão em ruínas. Passa debaixo da porta e vai pelas pequenas ruas estreitas,
direitas e brancas, até encontrares em frente do mar uma grande praça quadrada
e clara que tem no centro uma estátua. Segue entre as casas e o mar até ao
mercado que fica depois de uma alta parede amarela. Aí deves parar e olhar um
instante para o largo pois ali o visível se vê até ao fim. E olha bem o branco,
o puro branco, o branco da cal onde a luz cai a direito. Também ali entre a
cidade e a água não encontrarás nenhuma sombra; abriga-te por isso no sopro
corrido e fresco do mar. Entra no mercado e vira à tua direita e ao terceiro
homem que encontrares em frente da terceira banca de pedra compra peixes. Os
peixes são azuis e brilhantes e escuros com malhas pretas. E o homem há-de
pedir-te que vejas como as suas guelras são encarnadas e que vejas bem como o
seu azul é profundo e como eles cheiram realmente, realmente a mar. Depois verás
peixes pretos e vermelhos e cor-de-rosa e cor de prata. E verás os polvos cor
de pedra e as conchas, os búzios e as espadas do mar. E a luz se tornará líquida
e o próprio ar salgado e um caranguejo irá correndo sobre uma mesa de pedra. À
tua direita então verás uma escada: sobe depressa mas sem tocar no velho cego
que desce devagar. E ao cimo da escada está uma mulher de meia idade com rugas
finas e leves na cara. E tem ao pescoço uma medalha de ouro com o retrato do
filho que morreu. Pede-lhe que te dê um ramo de louro, um ramo de orégãos, um
ramo de salsa e um ramo de hortelã. Mais adiante compra figos pretos: mas os
figos não são pretos: mas azuis e dentro são cor-de-rosa e de todos eles corre
uma lágrima de mel. Depois vai de vendedor em vendedor e enche os teus cestos
de frutos, hortaliças, ervas, orvalhos e limões. Depois desce a escada, sai do
mercado e caminha para o centro da cidade. Agora aí verás que ao longo das
paredes nasceu uma serpente de sombra azul, estreita e comprida. Caminha rente às
casas. Num dos teus ombros pousará a mão da sombra, no outro a mão do Sol.
Caminha até encontrares uma igreja alta e quadrada.
Lá dentro ficarás ajoelhada na penumbra olhando o branco das paredes e o
brilho azul dos azulejos. Aí escutarás o silêncio. Aí se levantará como um
canto o teu amor pelas coisas visíveis que é a tua oração em frente do grande
Deus invisível.
Sophia de Mello Breyner Andresen in Livro Sexto, 1962
segunda-feira, 8 de abril de 2013
Passos: balla, balla, ballerino
A reação de Pedro Passos
Coelho à decisão do Tribunal Constitucional faz lembrar a música de Lucio
Dalla, "Balla, balla, ballerino".
Passos não consegue dançar
em cima das ondas ou no planalto entre duas montanhas. Para ele, a decisão do
TC é uma pistola apontada à cabeça - e, em particular, à sua visão do Estado e
da economia.
Por isso, ameaça punir-nos
com mais cortes na educação, na saúde e nas prestações sociais, como retaliação
pela decisão do TC.
Mas o que Passos não
explica é porque os cortes têm de ser sempre nestas áreas, ignorando a redução
do número de municípios ou os cortes na área da defesa, que estão inscritos no
memorando de entendimento, mas que o Governo deixou cair.
Mas o que Passos não
explica é porque não consegue acomodar os 1300 milhões de despesa a mais que
decorrem da decisão do TC no corte de 4000 milhões da despesa pública que disse
que estava a preparar.
Mas o que Passos não
explica é porque razão estes 1300 milhões de despesa a mais são assim tão
dramáticos - quando, no ano passado, a derrapagem orçamental foi o triplo e o
Governo não manifestou nenhuns sinais de pânico.
Mas o que Passos não
consegue explicar é porque o Orçamento deste ano foi elaborado com base na
previsão surrealista de uma recessão de 1% - e três meses depois o próprio
Governo reconhecia que seria mais do dobro. E, como é óbvio, este descalabro
nada tem a ver com a decisão do TC.
Na declaração de Passos, há
uma coisa positiva: não vai abdicar. Faz muito bem. Foi eleito para quatro anos
e deve governar durante esse período. Eleições agora seriam um desastre para o
país, já que a solução que daí saíria seria bem pior do que aquela que existe
atualmente.
Por isso, como diz Lucio
Dalla, o genial criador de "Caruso", "balla balla ballerino
tutta la notte e al matino". Ou seja, aguente. O país está farto de
primeiros-ministros que abandonam o barco no meio da tempestade, invocando
desculpas esfarrapadas.
quarta-feira, 20 de março de 2013
sábado, 16 de março de 2013
O blá-blá de Vítor Gaspar
Vítor Gaspar
colocou hoje o seu melhor ar de hipnotizador para nos tentar passar três
ideias: que o ajustamento está a correr como o previsto; que o défice orçamental
foi cumprido; e que em 2014 tudo começa a melhorar.
São tudo
inverdades. O ajustamento não está a correr como o previsto. O défice orçamental
não é cumprido desde 2011. E em 2014 não há sinais de melhoria no horizonte.
O certo é que
com o seu experimentalismo económico e o seu fuindamentalismo ideológico, o
ministro colocou o país de pantanas. A dívida pública vai chegar aos 124% em
2014, um valor obviamente impagável. O desemprego está descontrolado, porque
atingir 2016 sempre com taxas de desemprego acima dos 18% é uma barbaridade - e
vamos ver se este valor não trepará ainda mais. Estamos no terceiro ano de
recessão, com um valor acumulado de 7%. E o défice orçamental foi de 6,6% no
ano passado contra o objetivo inicial de 4,5% e final de 5% - apesar do
ministro agora ter descoberto que há três valores para o défice: o que conta
para a troika (4,9%), o que conta para o Eurostat (6,6%) e o saldo orçamental
sem efeitos pontuais (6%). Uma conversa para obviamente enganar e coinfundir os
incautos.
Na verdade, foi
Gaspar que optou, depois de falhar o ajustamento orçamental em 2011 e 2012, por
carregar a sério num brutal aumento de impostos para 2013, contra o que estava
escrito no programa de ajustamento e contra a vontade da troika. O resultado é
uma economia devastada pelo napalm dos impostos.
Que Gaspar
piedosamente fale agora em algumas medidas de apoio ao crescimento só dá para
chorar, porque não há nenhuma vontade de rir. Quem é que investe neste
ambiente? Quem é que aposta num país sem energia? E quem acredita que é mesmo
isso que o ministro quer?
Gaspar fala
fala mas nós não o vemos a fazer nada para apoiar o crescimento. Talvez não
seja ele que tenha de fazer isso. Mas então é melhor não mencionar a corda na
casa do enforcado. Até porque os seus truques de hipnotismo deixaram obviamente
de ter qualquer credibilidade.
(Nicolau
Santos, artigo de opinião publicado ontem no site do jornal Expresso)
quinta-feira, 14 de março de 2013
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