quinta-feira, 14 de março de 2013

"La Réjouissance" de Telemann

Ó subalimentados do sonho!

Artur Bual - 'Natália Correia', óleo sobre tela

"Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto


Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim


Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes


Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei


Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em criança que salvo
do incêndio da vossa lição


Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis


Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além


Senhores três quatro cinco e Sete
que medo vos pôs por ordem?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?


Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa


Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer."


Natália Correia, A Defesa do Poeta

quarta-feira, 13 de março de 2013

Papa Francisco I

Penso que é uma boa notícia. É auspicioso o nome que o cardeal Bergoglio escolheu: Francisco. Pode querer homenagear S. Francisco de Assis ou S. Francisco Xavier ou, ainda, S. Francisco de Borja. Os dois últimos foram eminentes jesuítas. No primeiro caso, a tónica está na pobreza e na austeridade. No segundo e terceiro, a tónica está na evangelização. No anterior conclave, que elegeu Ratzinger, o cardeal Bergoglio foi o seu rival. Não sendo um reformista, foi nesse conclave apoiado pelos reformista. O novo Papa é jesuíta como o Padre António Vieira.

domingo, 10 de março de 2013

O Pai e o Político


“Retrato do pai de Dürer com 70 anos", 1497, Albrecht Dürer

"Retrato do Doge Leonardo Loredan", 1501, Giovanni Bellini
(Crónica de Paulo Varela Gomes publicada no suplemento do jornal Público de hoje) 

Ricardo Araújo Pereira e a questão de Deus





Judite, Salomé e Artemisia


Foi inaugurada na quinta-feira passada no Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), Lisboa, a exposição conjunta de dois quadros de tema idêntico do pintor Lucas Cranach o Velho (c. 1472-1553), Judite com a Cabeça de Holofernes, obra pertencente ao Metropolitan de Nova Iorque, e Salomé com a Cabeça de S. João Baptista, este do próprio MNAA.
Proponho aos leitores que, ao verem e compararem estes quadros, os confrontem também com uma Judite muito famosa pintada em 1612-13 por uma mulher, Artemisia Gentileschi (1593-c. 1656). É um quadro realista. Nem Artemisia nem outros artistas da mesma tradição e gosto procuravam a imitação da natureza. O que queriam era forçar a emersão de um efeito de realidade na pintura. No caso desta obra, a realidade assalta os nossos olhos pela brutalidade gore dos gestos e cores, e pela luz branca que destaca as figuras da escuridão do fundo. O quadro é como que um instantâneo, um flash de realidade. Em contrapartida, os quadros de Cranach, pintados quase cem anos antes, são tranquilos. Neles, a armadura simbólica das figuras femininas contrabalança a brutalidade do gesto que praticaram, cujo único resíduo é o pescoço decepado das suas vítimas.
Há um aspecto em que esta margem de diferença entre o simbolismo e a realidade pode ser evidenciada de uma maneira talvez mais interessante: a expressão dos rostos femininos. Às suas Judite e Salomé, Cranach conferiu uma pose e um sorriso que conseguem dotar de gelo e sociabilidade o contentamento pelo acto que cometeram. Já Gentileschi deu a Judite, e também à criada que a auxilia na tarefa macabra que ambas executam, a expressão de uma determinação firme e indiferente. A frieza, aqui, não é a da pose, é a da própria intenção. Estas duas mulheres decapitam Holofernes como quem corta carne num talho, lava o sangue de um lençol, degola um frango na mesa da cozinha. O assassinato não resulta de um momento de exaltação, mas da continuidade plácida da existência. Afinal de contas, este é um quadro realista, Artemisia era uma mulher e a realidade é que as mulheres matam sossegadamente. Aos leitores ou leitoras mais inconformados com esta ideia, proponho que vejam na Internet outro quadro de Gentileschi: Jael e Sísera.
E que se imaginem a dormir... ou com o martelo e o prego nas mãos.
(autoria de Paulo Varela Gomes, publicado no Público de 27 de janeiro de 2013)

José Gil - a direita navega à vista