quarta-feira, 13 de março de 2013

Papa Francisco I

Penso que é uma boa notícia. É auspicioso o nome que o cardeal Bergoglio escolheu: Francisco. Pode querer homenagear S. Francisco de Assis ou S. Francisco Xavier ou, ainda, S. Francisco de Borja. Os dois últimos foram eminentes jesuítas. No primeiro caso, a tónica está na pobreza e na austeridade. No segundo e terceiro, a tónica está na evangelização. No anterior conclave, que elegeu Ratzinger, o cardeal Bergoglio foi o seu rival. Não sendo um reformista, foi nesse conclave apoiado pelos reformista. O novo Papa é jesuíta como o Padre António Vieira.

domingo, 10 de março de 2013

O Pai e o Político


“Retrato do pai de Dürer com 70 anos", 1497, Albrecht Dürer

"Retrato do Doge Leonardo Loredan", 1501, Giovanni Bellini
(Crónica de Paulo Varela Gomes publicada no suplemento do jornal Público de hoje) 

Ricardo Araújo Pereira e a questão de Deus





Judite, Salomé e Artemisia


Foi inaugurada na quinta-feira passada no Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), Lisboa, a exposição conjunta de dois quadros de tema idêntico do pintor Lucas Cranach o Velho (c. 1472-1553), Judite com a Cabeça de Holofernes, obra pertencente ao Metropolitan de Nova Iorque, e Salomé com a Cabeça de S. João Baptista, este do próprio MNAA.
Proponho aos leitores que, ao verem e compararem estes quadros, os confrontem também com uma Judite muito famosa pintada em 1612-13 por uma mulher, Artemisia Gentileschi (1593-c. 1656). É um quadro realista. Nem Artemisia nem outros artistas da mesma tradição e gosto procuravam a imitação da natureza. O que queriam era forçar a emersão de um efeito de realidade na pintura. No caso desta obra, a realidade assalta os nossos olhos pela brutalidade gore dos gestos e cores, e pela luz branca que destaca as figuras da escuridão do fundo. O quadro é como que um instantâneo, um flash de realidade. Em contrapartida, os quadros de Cranach, pintados quase cem anos antes, são tranquilos. Neles, a armadura simbólica das figuras femininas contrabalança a brutalidade do gesto que praticaram, cujo único resíduo é o pescoço decepado das suas vítimas.
Há um aspecto em que esta margem de diferença entre o simbolismo e a realidade pode ser evidenciada de uma maneira talvez mais interessante: a expressão dos rostos femininos. Às suas Judite e Salomé, Cranach conferiu uma pose e um sorriso que conseguem dotar de gelo e sociabilidade o contentamento pelo acto que cometeram. Já Gentileschi deu a Judite, e também à criada que a auxilia na tarefa macabra que ambas executam, a expressão de uma determinação firme e indiferente. A frieza, aqui, não é a da pose, é a da própria intenção. Estas duas mulheres decapitam Holofernes como quem corta carne num talho, lava o sangue de um lençol, degola um frango na mesa da cozinha. O assassinato não resulta de um momento de exaltação, mas da continuidade plácida da existência. Afinal de contas, este é um quadro realista, Artemisia era uma mulher e a realidade é que as mulheres matam sossegadamente. Aos leitores ou leitoras mais inconformados com esta ideia, proponho que vejam na Internet outro quadro de Gentileschi: Jael e Sísera.
E que se imaginem a dormir... ou com o martelo e o prego nas mãos.
(autoria de Paulo Varela Gomes, publicado no Público de 27 de janeiro de 2013)

José Gil - a direita navega à vista



quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Um pouco de ternura e nada mais


"No domingo, 27 de Janeiro, às 5 da tarde, fui internado de urgência no Santa Maria. Respirava com extrema dificuldade, era assaltado por terríveis acessos de tosse, não me mantinha equilibrado e estava apossado de funesta sonolência. Andava nesta obstinada teimosia há uma semana, ante os reparos dos filhos e as reprimendas da Isaura, que custodia as minhas disposições com a benevolência e a firmeza que lhe conferem cinquenta anos de vida em comum. Éramos dois miúdos e durante estes anos todos temos enfrentado vendavais sem conta. Continuamos dois miúdos, um pouco mais velhos.
Cheguei, pois, ao hospital num estado deplorável, em razão da minha presunção e soberba. Presumiu-se que uma virose me atacara; depois, talvez fosse vítima de embolia pulmonar. O despiste das doenças não impediu a minha acentuada fraqueza. Fui rodeado imediatamente de atenções e de solicitudes que logo notei serem iguais para todos quantos haviam entrado naquele crisol de sofrimento e de espanto. Pertencia, agora, a esta comunidade na qual o abatimento, a dependência, a fragilidade e a perda do recato pertencem ao mesmo número de resignadas admissões.
Pouco depois fui transferido para o Hospital Pulido Valente. Explicaram-me que, na Unidade de Cuidados Intermédios, dispunha de assistência assídua e especializada, e a minha miséria encontrava resposta na bondade, no carinho, no desvelo de um grupo de raparigas e de rapazes não só atento à medicação, procurando magoar-me o mínimo possível, com o furo nas veias débeis, como me lavavam, me limpavam, me cuidavam com a grandeza de quem não precisa de reciprocidade. A dimensão da humanidade na sua expressão acaso mais nobre. Sou-lhes eterno devedor.
Ao observá-los e à sua compassiva densidade, apreendi que os macacos sem fé e sem sonho, que nos governam, desejam não só dar cabo do Serviço Nacional de Saúde: eles querem, sobretudo, dissolver os laços de benevolência, essa ligação suave, decente e poderosa entre alma e coração, substância e essência que constituem a construção social e o espírito do SNS. O que são alianças de piedade e de solidariedade entre os que sofrem e os que cuidam, ajudam e amparam, eles ambicionam transformar em gélidas demonstrações profissionais, "justificadas" pelo dinheiro.
Estes que tais encontram, porventura, na maldita frase do banqueiro Ulrich ["eles aguentam, aguentam"] o mais sórdido apoio aos seus projectos de demolição social e ética. Estão do outro lado das coisas, ignoram a natureza concêntrica das grandes simpatias humanas. Têm o coração oco. Nada sabem dessa humanidade assustada, desvalida, a quem querem roubar o pouco que lhes resta, que sofre nas ruas, nos hospitais, que envelhece no pasmo de desconhecer o que lhes acontece. E ocorre-me a frase de Raul Brandão: "Apenas anseiam por um pouco de ternura e nada mais."
Baptista-Bastos, crónica publicada no Diário de Notícias de hoje

Sexo não é trabalho


"O anúncio, que vi na SIC Notícias, tem por título "Direitos iguais". No ecrã dividido em dois, apresentam-nos a Júlia e a Ana, duas mulheres em movimento.
O texto que acompanha as vidas dinâmicas de Júlia e Ana diz o seguinte: «As duas têm direito ao trabalho. O direito a boas condições de trabalho. O direito ao respeito. O direito a um pagamento justo. O direito de escolher e recusar clientes. O direito à segurança».
Na última imagem, a Júlia segreda, rindo, ao ouvido de um homem e a Ana desenrola um papel sobre um estirador. O texto explica: «A Júlia é trabalhadora do sexo. A Ana é arquitecta».
O ‘trabalho’ do sexo é representado por cumplicidades e gargalhadas; muito menos enfadonho, nesta demonstração, do que o solitário trabalho da Ana, realizando projectos de arquitectura.
A frase final do anúncio é a seguinte: «Trabalho sexual é trabalho».
Em letras minúsculas, só passíveis de leitura quando se coloca o ecrã em pausa, encontra-se o seguinte texto: «A realização deste vídeo foi possível através do projecto Indoors, com o apoio financeiro do Programa Daphne III da Comissão Europeia. Os conteúdos deste vídeo são da exclusiva responsabilidade do autor e não podem ser considerados uma tomada de posição oficial da Comissão Europeia».
Seguem-se, muito mais legíveis, os logotipos da apdes (Agência Piaget para o Desenvolvimento), do Indoors, do programa Daphne (um programa da União Europeia para combater a violência contra mulheres e crianças), da União Europeia e da Sic Esperança (projecto de solidariedade das empresas do universo SIC, que tem o estatuto de Instituição Privada de Solidariedade Social).
Não, o trabalho da Júlia não é igual ao trabalho da Ana. Vender o corpo a um cliente não é a mesma coisa que vender-lhe um projecto de arquitectura.
O sexo é a mais íntima das trocas humanas, não pode ser considerado um ‘produto’: quem entrega o corpo a troco de dinheiro perdeu o respeito por si mesmo, pela expressão dos seus afectos, pelo seu prazer.
Perde algo de essencial da sua condição humana.
O respeito por quem se prostitui deve consistir na oferta de alternativas a esse modo de sobrevivência. A prostituição é, sempre, uma forma de violência.
Pessoalmente, não acredito em ‘prostituição consentida’, como não acredito na felicidade dos bombistas suicidas: parece-me evidente que estas actividades são respostas violentas a uma violência fundamental e fundadora.
Estranho que a União Europeia, a agência Piaget para o desenvolvimento e a SIC Esperança patrocinem a ideia de que vender sexo seja igual a vender desenhos de casas e jardins. Não é: ‘trabalho sexual’ é a expressão politicamente correcta para esconder o abuso implícito na palavra ‘prostituição’.
Se um museu quiser fazer um anúncio na SIC contará com o apoio da SIC Esperança, e da Agência Piaget, e da Comissão Europeia? Pois é. Trabalho cultural é trabalho contra a violência. Sexo pago, não."
Inês Pedrosa, crónica publicada no jornal Sol de 8 de fevereiro de 2013.