quarta-feira, 16 de maio de 2012

Carlos Fuentes


Dois excertos do livro "Aquilo em que acredito", de Carlos Fuentes:
“O amor quer ser, durante o maior tempo possível, plenitude de prazer. É quando o desejo floresce por dentro e se prolonga nas mãos, nos dedos, nas coxas, nas cinturas, na carne erguida e na carne aberta, nas carícias e na pulsação ansiosa, no universo da pele amorosa, reduzidos os amantes ao encontro do mundo, às vozes que se nomeiam em silêncio, ao baptismo interno de todas as coisas.”
“Oxalá o leitor deste livro encontre as formas variadas do amor em cada capítulo do meu alfabeto pessoal. Há uma, contudo, que desejo realçar a fim de tê-la sempre presente. É a qualidade da atenção. O amor como atenção. Prestar atenção ao outro. Abrir-se à atenção. Porque a atenção extrema é a faculdade criadora e a sua condição é o amor.”

Morreu Carlos Fuentes

Sobre Carlos Fuentes, José Saramago escreveu em 14 de Outubro de 2008:

"O primeiro livro de Carlos Fuentes que li foi “Aura”. Embora não tenha voltado a ele, guardei até hoje (mais de quarenta anos passaram) a impressão de haver penetrado num mundo diferente de tudo o que conhecera até então, uma atmosfera composta de objectividade realista e de misteriosa magia, em que estes contrários, afinal mais aparentes que efectivos, se fundiam para criar no espírito do leitor uma envolvência em todos os aspectos singular. Não foram muitos os casos em que o encontro de um livro tenha deixado na minha memória uma tão intensa e perene lembrança.Não era um tempo em que as literaturas americanas (às do Sul me refiro) gozassem de um especial favor do público ilustrado. Fascinados desde gerações pelas lumières francesas, hoje empalidecidas, observávamos com certa displicência (a fingida displicência da ignorância que sofre por ter de reconhecer-se como tal) o que se ia fazendo para baixo do rio Grande e que, para agravar a situação, embora pudesse viajar com relativo à vontade a Espanha, mal se detinha em Portugal. Havia lacunas, livros que simplesmente não apareciam nas livrarias, e também a confrangedora falta de uma crítica competente que nos ajudasse a encontrar, no pouco que ia sendo posto ao nosso alcance, o muito de excelente que aquelas literaturas, lutando em muitos casos com dificuldades semelhantes, iam tenazmente elaborando. No fundo, talvez houvesse uma outra explicação: os livros viajavam pouco, mas nós ainda viajávamos menos. A minha primeira viagem ao México foi para participar, em Morelia, num congresso sobre a crónica. Não tive então tempo para visitar livrarias, mas já começara a frequentar com assiduidade a obra de Carlos Fuentes através, por exemplo, da leitura de livros fundamentais, como foram os casos de “La región más transparente” e “La muerte de Artemio Cruz”. Tornou-se-me claro que estava ali um escritor de altíssima categoria artística e de uma incomum riqueza conceptual. Mais tarde, um outro romance extraordinário, “Terra nostra”, rasgou-me novas perspectivas, e daí em diante, sem que seja necessário referir aqui outros títulos (salvo “El espejo enterrado”, livro de fundo, indispensável a um conhecimento sensível e consciente da América do Sul, como sempre preferi chamar-lhe), reconheci-me, definitivamente, como devoto admirador do autor de “Gringo Viego”. Conhecia já o escritor, faltava-me conhecer o homem.Agora, uma confissão. Não sou pessoa facilmente intimidável, muito pelo contrário, mas os meus primeiros contactos com Carlos Fuentes, em todo o caso sempre cordiais, como era lógico esperar de duas pessoas bem educadas, não foram fáceis, não por culpa dele, mas por uma espécie de resistência minha a aceitar com naturalidade o que em Carlos Fuentes era naturalíssimo, isto é, a sua forma de vestir. Todos sabemos que Fuentes veste bem, com elegância e bom gosto, a camisa sem uma ruga, as calças de vinco perfeito, mas, por ignotas razões, eu pensava que um escritor, especialmente se pertencia àquela parte do mundo, não deveria vestir assim. Engano meu. Afinal, Carlos Fuentes tornou compatível a maior exigência crítica, o maior rigor ético, que são os seus, com uma gravata bem escolhida. Não é pequena cousa, creiam-me."

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Eduardo Galeano em discurso direto

Na passada quinta-feira (10 de maio), a RTP2 transmitiu o 1º programa da série "o tempo e o modo".  O programa consistiu numa entrevista a Eduardo Galeano. Podemos ver e ouvir o referido programa aqui.

Noel Rosa



Samba "Quem dá mais", composto por Noel Rosa pode ouvir-se aqui.

O uruguaio Eduardo Galeano (Montevideu, 1940) escreveu um livro ("Los hijos de los días") com a forma de calendário. A cada dia do ano corresponde uma história com distintas localizações no espaço e no tempo.

Para o dia 4 de maio escreveu “Mientras dure la noche”:

"En 1937 murió, a los veintiséis años, Noel Rosa.
Este músico de la noche de Río de Janeiro, que en vida conoció la playa sólo por fotos, escribió y cantó sambas en los bares de la ciudad que los canta todavía.
En uno de esos bares un amigo lo encontró, a la nocturna hora de las diez de la mañana.
Noel tarareaba una canción recién parida.
En la mesa había dos botellas. Una de cerveza y otra de aguardiente de caña.
El amigo sabía que la tuberculosis lo estaba matando. Noel le adivinó la preocupación en la cara, y se sintió obligado a dictarle una lección sobre las propiedades nutritivas de la cerveza. Señalando la botella sentenció:
–Esto alimenta más que un plato de buena comida.
 El amigo, no muy convencido, apuntó a la botella de caña:
¿Y esto?
Y Noel explicó:
–Es que no tiene gracia comer sin alguna cosita que acompañe."

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Rafael Moneo

Foto de Gorka Lejarcegi
Ao saber que lhe tinha sido atribuído o Prémio Príncipe das Astúrias das Artes, Rafael Moneo declarou: "Cuando creía pasado mi turno, reconocen mi trabajo"
Notícias no site do jornal "El País":
http://cultura.elpais.com/cultura/2012/05/09/actualidad/1336563827_576698.html
http://cultura.elpais.com/cultura/2012/05/08/actualidad/1336507256_250140.html
Notícia no site do jornal Público:
"Moneo foi escolhido entre 39 candidaturas nas mais diversas áreas da arte, apresentadas por 25 países. Portugal concorreu com a pintora Paula Rego. Outro pintor, Jasper Jones, o designer Philippe Starck, a cantora mexicana Chavela Vargas, o Teatro Bolshoi e Frank Gehry, o arquitecto norte-americano que desenhou o Museu Guggenheim de Bilbau, também eram candidatos.

De acordo com a acta do júri, presidido pelo espanhol José Lladó y Fernández-Urrutia, Moneo foi escolhido por ser um arquitecto "dimensão universal, cuja obra enriquece os espaços urbanos com uma arquitectura serena e esmerada". "Mestre reconhecido no âmbito académico e profissional, Moneo deixa uma marca própria em cada uma das suas criações e, ao mesmo tempo, combina estética com funcionalidade, especialmente nos espaços interiores diáfanos que servem de enquadramento impecável para as grandes obras da cultura e do espírito", lê-se na acta.

Moneo, que também projectou o Museu Romano de Mérida e o famoso Kursaal – o auditório e centro de congressos em forma de cubo à beira-mar, em San Sebastián –, recebeu já alguns dos mais importantes prémios de arquitectura do mundo, incluindo o Pritzker, em 1996 (é o único espanhol a tê-lo), o Mies van der Rohe, de 2001, e o RIBA (Royal Institute of British Architects), em 2003.

Criado em 1981, o prémio que distingue os que contribuíram “de forma relevante para o património cultural da humanidade” volta assim a escolher um arquitecto, depois de Francisco Javier Sáenz de Oiza, Óscar Niemeyer, Santiago Calatrava e Norman Foster. Na edição do ano passado o prémio foi para o maestro Riccardo Muti. "

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Aquela cativa...


Endechas a uma cativa com quem andava de amores na Índia, chamada Bárbara
Poema de Luis de Camões, Música de Zeca Afonso, Intérprete: Zeca Afonso (pode ouvir-se aqui)
Aquela cativa
que me tem cativo,

porque nela vivo

já não quer que viva.

Eu nunca vi rosa

em suaves molhos,

que para meus olhos

fosse mais fermosa.

Nem no campo flores,

nem no céu estrelas

me parecem belas

como os meus amores.

Rosto singular,

olhos sossegados,

pretos e cansados,

mas não de matar.

Uma graça viva,

que neles lhe mora,

para ser senhora

de quem é cativa.

Pretos os cabelos,

onde o povo vão

perde opinião

que os louros são belos.

Pretidão de Amor,

tão doce a figura,

que a neve lhe jura

que trocara a cor.

Leda mansidão,

que o siso acompanha;

bem parece estranha,

mas bárbara não.

Presença serena

que a tormenta amansa;

nela, enfim, descansa

toda a minha pena.

Esta é a cativa

que me tem cativo;

e, pois nela vivo,

é força que viva.

Quem poderá domar...


Canção tão simples (ouvir aqui)
Música: António Portugal; Letra: Manuel Alegre; Intérprete:
Adriano Correia de Oliveira;

Quem poderá domar os cavalos do vento
quem poderá domar este tropel
do pensamento
à flor da pele?

Quem poderá calar a voz do sino triste
que diz por dentro do que não se diz
a fúria em riste
do meu país?

Quem poderá proibir estas letras de chuva
que gota a gota escrevem nas vidraças
pátria viúva
a dor que passa?

Quem poderá prender os dedos farpas
que dentro da canção fazem das brisas
as armas harpas
que são precisas?