quinta-feira, 29 de março de 2012

Testamento de Maria Helena Vieira da Silva

Auto-retrato de Vieira da Silva

Eu lego aos meus amigos

Um azul cerúleo para voar alto.

Um azul cobalto para a felicidade.

Um azul ultramarino para estimular o espírito.

Um vermelhão para o sangue circular alegremente.

Um verde musgo para apaziguar os nervos.

Um amarelo ouro: riqueza.

Um violeta cobalto para o sonho.

Um garança para deixar ouvir o violoncelo.

Um amarelo barife: ficção científica e brilho; resplendor.

Um ocre amarelo para aceitar a terra.

Um verde veronese para a memória da primavera.

Um anil para poder afinar o espírito com a tempestade.

Um laranja para exercitar a visão de um limoeiro ao longe.

Um amarelo limão para o encanto.

Um branco puro: pureza.

Terra de siena natural: a transmutação do ouro.

Um preto sumptuoso para ver Ticiano.

Um terra de sombra natural para aceitar melhor a melancolia negra.

Um terra de siena queimada para o sentimento de duração.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Tabacaria

      TABACARIA (Álvaro de Campos)

    Não sou nada.
    Nunca serei nada.
    Não posso querer ser nada.
    À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

    (...)

terça-feira, 27 de março de 2012

O escritor italiano que entrou em Lisboa pela "tabacaria"

Conheceu Portugal por causa de Fernando Pessoa; adoptou como seu um país que conhece como poucos; é um grande escritor europeu que aqui vive e aqui se inspira.

Num certo Verão, em meados dos anos 60, um jovem italiano de férias em Paris compra num bouquiniste um livrinho intitulado Le Bureau de Tabac. Autor: Fernando Pessoa. A leitura desse longo poema (que era, afinal, de Álvaro de Campos, heterónimo de Pessoa), na tradução de Pierre Hourcade, mudaria para sempre a vida do jovem Antonio Tabucchi. E esse simples gesto tornou-se ele próprio digno de lenda, uma vez que, noutras versões, terá comprado o livro na Gare de Lyon, antes de apanhar o comboio de regresso à Toscana natal. Seja como for, o fascínio que sobre o então estudante de filosofia exerceu A Tabacaria levou-o a estudar português para entender melhor a língua desse "desconhecido e curioso" poeta.

"Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. / À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo." Os primeiros versos do poema de Álvaro de Campos ficaram a martelar-lhe na cabeça até que se decidiu: veio pela primeira vez a Lisboa num velho Fiat 500, atravessando estradas quase intransitáveis. Fez amigos e começou a conhecer melhor uma cultura a que se manteria ligado até hoje. De tal forma que, em 1969, quando terminou o curso em Pisa (cidade onde nascera em 1943) o fez defendendo uma tese sobre "o surrealismo em Portugal".

Uma das moradas de Lisboa que trazia era a de Alexandre O'Neill. Contou mais tarde que, quando abriu a porta, o poeta lhe perguntou: "Gostas de sardinhas decapitadas?" Perante o espanto do jovem italiano, o autor de Abandono Vigiado oferece-lhe sardinhas em lata. Ficaram amigos para sempre e, em 1971, Tabucchi seria testemunha do casamento de O'Neill com Teresa Gouveia.

Por essa altura, já tinha sido investigador na Escola Normal Superior de Pisa e preparava-se para ensinar Língua e Literatura portuguesas em Bolonha. Ainda em Pisa, num Verão invulgarmente quente, com a mulher grávida (a portuguesa Maria José de Lancastre, professora e divulgadora da cultura portuguesa em Itália), pôs-se a escrever um romance. Saiu-lhe Piazza de Italia, um dos poucos livros dele ainda não traduzidos em português. Seguiram-se obras hoje clássicas, como Jogo do Reverso, Pequenos Equívocos sem Importância, Nocturno Indiano (Prémio Medicis),O Fio do Horizonte. A sua ligação a Portugal deu-lhe ainda matéria para livros como A Mulher de Porto Pim, Afirma Pereira (o mais premiado) ou A Cabeça Perdida de Damasceno Monteiro. Com os dois últimos não só se afirmou como um dos mais respeitados nomes da literatura europeia contemporânea como interveio no debate de ideias sobre a evolução da sociedade, a começar pelo caso italiano.

Em 2004, candidatou-se ao Parlamento Europeu pela lista do Bloco de Esquerda. Afirmou então, em entrevista ao DN, que o fazia "para dar testemunho" num momento em que nos arriscávamos "a perder os princípios do Estado de direito". Criticava a invasão do Iraque e, em geral, os métodos da Administração Bush para combater o terrorismo. Manteve uma polémica com Umberto Eco sobre o papel dos intelectuais na actual crise. Que devem fazer os intelectuais quando uma casa arde? Chamar os bombeiros, disse Eco. Sim, acrescentou Tabucchi, mas sobretudo procurar saber as causas do incêndio, para que não se repita. Em Itália, combate o sistema Berlusconi, o "grau zero da política"; em Portugal, onde passa vários meses por ano, agora que está reformado do ensino, pensa, age e, felizmente, continua a escrever, acrescentando sempre um ponto ao velho conto-poema de Álvaro de Campos: "À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo."

(artigo de Albano Matos, publicado no site do Diário de Notícias em 9 de Julho de 2011)

segunda-feira, 26 de março de 2012

Antonio Tabucchi

"Se o homem não tivesse sido movido pelo desejo, nós ainda estaríamos nas cavernas. É o desejo que move a civilização humana." António Tabucchi

Duas frases de Oscar Wilde

1. "A vida é demasiado importante para ser levada a sério!"
2. "Everything in the world is about sex except sex. Sex is about power."
2. "Tudo no mundo é sobre sexo, exceto o sexo. Sexo é sobre o poder."

Frei Bento Domingues

Excerto da crónica da autoria de Frei Bento Domingues, publicada no jornal Público de ontem, intitulada "O grande sermão desta Quaresma":

(...) os pobres e empobrecidos aumentam mais do que as esmolas e em nome de uma futura saúde financeira, muitos cidadãos estão reduzidos à condição de pedintes.

Foi prometido o emagrecimento do Estado e resultou o emagrecimento da sociedade civil. A contra mão, cresceu a nossa generosidade internacionalista: os jovens portugueses mais preparados e qualificados irão trabalhar para o desenvolvimento do Brasil e de Angola. (...)

terça-feira, 20 de março de 2012

Inês Pedrosa - Os equívocos do poder

Austeridade não é sinónimo de autoridade. A austeridade pode impor-se, mas só será eficaz se for consequência de uma autoridade reconhecida como tal por aqueles que sofrem a imposição.

Recordo muitas vezes a história de um jornalista que, viajando de carro com um membro do Governo na Roménia de Ceausescu, o avisou de que estavam a entrar por uma rua de sentido proibido. A resposta do governante foi esta: «On peut tout: on a le pouvoir» (Podemos tudo: temos o poder). Felizmente o tempo veio demonstrar a falsidade escandalosa desta afirmação.

Há demasiados países cujos governantes estão convictos de que o poder é uma distinção suprema que lhes permite todos os atropelos sobre os outros.

Mesmo nas democracias, há inúmeros redutos (normalmente, os que a um olhar turístico parecem mais bucólicos) onde a vida real funciona assim. Existem vilas onde o maior amigo do homem que espanca a mulher é o chefe da Polícia, e municípios onde só se cumprem as ordens dos senhores que detêm o poder.

Com uma ressalva importante: se em democracia as coisas funcionam assim, é porque a populaça cala, acata, consente – na esperança do favorzinho futuro.

A autoridade autêntica é feita de exemplo e acto – nunca de queixumes e culpabilizações. Não basta ganhar eleições para se conquistar autoridade – aquilo a que as vitórias eleitorais comprometem os vencedores é a merecerem ser respeitados como líderes.

A linguagem tem a importância de um enunciado de exame: pode ser estimulante, aborrecida, clara ou confusa – mas exige resposta, e a resposta, em política, exprime-se através da acção, ética em movimento.

Muito mais do que simplesmente ouvir, a capacidade de escutar é essencial a um líder, seja qual for a área da liderança. Vivemos uma era de lideranças múltiplas e interactivas – o que devia significar melhores ideias e um acentuado desenvolvimento. Na ciência e nas artes, essa multiplicação de competências cruzadas tem sido extraordinariamente criativa e rentável.

Pelo contrário na política assistimos a um declínio de ideias e eficiência radicalmente devastador.

Porquê? Porque ao desmoronar das ilusões comunistas se sucedeu um deslumbramento bacoco com as aparentemente infinitas capacidades de prestidigitação do capitalismo.

Um pouco de conhecimento de História bastaria para acalmar a febre do ouro que atacou fatalmente os yuppies do fim do milénio passado – mas, na infinita arrogância que a candura arrasta consigo, eles prescindiram de perder tempo e ganhar rugas debruçados sobre os alfarrábios de História (já para não falar dos de Filosofia, que gastariam ainda mais tempo e contenderiam com o nervosismo da ânsia de sucesso).

Ao contrário do que se pensava, não foi a sida a peste do fim do século – essa, graças aos cientistas, acabou por se tornar uma doença crónica entre muitas outras. E a devastação física e afectiva que causou acabou por convocar as pessoas para esse fundamento moral da existência que é o amor, nas suas múltiplas modalidades. A sida teve pelo menos essa consequência regeneradora: a de levar as pessoas a serem solidárias e a aprenderem a olhar o outro com compaixão (no seu sentido original de paixão partilhada).

O caos financeiro mundial provocado pela genuflexão da política face à especulação financeira não parece ainda ter qualquer efeito no pensamento e no rumo dos líderes políticos democráticos.

Não perceberam o bê-á-bá do funcionamento das sociedades, nem sequer esta coisa elementar: a economia é um meio ao serviço de um fim, que é a dignidade das populações.

(crónica publicada no jornal Sol de 16 de março de 2012)