sábado, 10 de março de 2012

E Tudo o Vento Levou

"Mas, juntos em matéria de fé económica ultraliberal, devotos das teses da escola monetarista de Chicago, Thatcher e Reagan arruinaram os seus países e destruíram quase uma geração. Quando eles saíram de cena, a "Time" (insuspeita de simpatias de esquerda) fez uma imortal capa, decalcada da célebre cena do "E Tudo o Vento Levou", em que Clark Gable carrega ao colo Vivian Leigh enquanto a casa arde em fundo. Na capa da "Time", com a Casa Branca ardendo em fundo, Reagan carregava Thatcher ao colo e o título rezava: "Milton Friedman presents: Gone With The Wind".
Não tarda muito, estarei a ver uma capa destas, com Vítor Gaspar carregando Passos Coelho ao colo e o título: "E tudo as nossas ilusões levaram"."
Excerto da crónica de Miguel Sousa Tavares, publicada no jornal Expresso de hoje.

Restaurante Jaffa, em Telavive

Foto de Amit Geron
O restaurante Jaffa, em Telavive, do chef Haim Cohen, foi projetado pelos arquitetos Baranowitz e Kroenenberg.

"Haim Cohen es uno de los chefs más conocidos de Tel Aviv. En un lugar que mezcla ingredientes y cocinas, la suya se ha hecho famosa por trabajar los alimentos con honestidad (en la selección de materiales y en los juegos gastronómicos) y hasta con ingenuidad (en la naturalidad de las propuestas). Cohen buscó a los arquitectos Baranowitz y Kroenenberg para que tradujeran ese credo en restaurante.

El resultado es un local de estética industrial, inacabada y actual, pero con la calidez de la tradición y la distinción del povera que convierte los vulgares desconchados en vestidos extraordinarios. Con suelos y paredes de hormigón, los arquitectos explican que buscaron trabajar con “agua, hormigón y acero de la misma manera que Cohen cocina con agua, harina y aceite de oliva”. La sencillez admite matices: el cemento de los muros está lijado para dejar ver las piedras que se mezclan con el polvo cuando se levanta una pared."

Texto integral de

Moebius

Morreu Moebius (Jean Giraud), o francês que criou Blueberry.
Aqui, Moebius a desenhar o seu herói.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Povoamento da ilha do Pico

Foto minha
"A ilha do Pico, começada a povoar no século XV, por dois lados diferentes, teve os dois grupos de povoadores afastados quase dois anos, sem fazerem ideia que do outro lado da montanha havia gente. Conta um cronista antigo, que quando os dois grupos finalmente se encontraram, "se festejaram muito"."
(Excerto do artigo de Ana Assis Pacheco, publicado no JL de anteontem).
Digo eu: um facto merecedor de celebração: a festa da ilha, a festa da fraternidade, a festa do afinal não estamos sós.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Porque é que Lu Wenyu não ganhou o Pritzker?

Ha vuelto a pasar. En la reseña del último Premio Pritzker para las páginas de cultura de El País la descripción del esforzado y reivindicativo trabajo del estudio Amateur Architecture constataba la acción política del nuevo galardón, explicaba la oportunidad de cambiar de rumbo de la propia arquitectura y preguntaba por qué, una vez más, la socia fundadora de un estudio familiar se ha quedado sin premio.
Texto integral, aqui.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Quando Matisse plagiava Matisse

"Capuchinas de la Danza II" (1912), óleo sobre lienzo

Desde que empezó a pintar en serio hacia 1898 hasta que se le apagó la luz en 1952, Henri Matisse (1869-1954) hizo de la repetición, las digresiones, las parejas de cuadros y las series y variaciones sobre el mismo tema una especie de reto doble: se medía a sí mismo y al mismo tiempo investigaba sobre el misterioso proceso de la creación pictórica. Como un científico en el laboratorio, o quizá como un Warhol sin su factoría y adelantado a su tiempo, el pintor viajó desde el puntillismo primerizo hasta las maravillosas figuras de papeles recortados de los años cincuenta por todas las fases y rupturas de las vanguardias mientras reflexionaba sobre el color, la materia y la forma copiándose y corrigiéndose a sí mismo.

Ese obsesivo ejercicio de estudio y estilo que, en manos de un gigante como él, resulta sencillamente deslumbrante, es el centro de la exposición que abre hoy el Centro Pompidou de París. El museo examina con lupa la extraña afición de Matisse a plagiar y mejorar a Matisse a través de 60 pinturas y una treintena de dibujos, llegados de medio mundo y ordenados por orden cronológico, cada oveja con su pareja o con la serie que le corresponde.

(…)

La potencia de Matisse, su influjo sobre el arte y la mirada de sus contemporáneos, sus descubrimientos y renuncias —muchos de los cuales Picasso fagocitaría con su compulsiva y esponjosa capacidad de apropiación y reinvención— saltan a la vista al entrar en la enorme sala del sexto piso del Pompidou, donde saludan al visitante dos bodegones de naranjas y manzanas de los años 1898-1899. Enseguida, una pareja de naturalezas muertas, hechas con vivísimas telas españolas y pintadas en Sevilla entre 1910 y 1911 (las presta el Hermitage), eleva un listón del que la exposición ya no vuelve a bajar.

(…)

La comisaria (Cécile Debray) cree que la exposición, que tras cerrar en junio en París, visitará Copenhague y el MoMA, resume una “tensión permanente en la obra de Matisse y que le dio su fuerza y su profundidad: la dualidad entre el brote rápido y espontáneo y la elaboración lenta”.

El pintor dijo que pintar es “como un juego de cartas” porque antes de empezar uno tiene que saber lo que quiere hacer al final. Esa obsesión por mantener (o superar) la idea original y la frescura al final del proceso le llevó a usar la fotografía para captar su primera intención y no dejarse llevar (o sí) por el acto físico de la pintura. Una vez, expuso su Naturaleza muerta con magnolia junto a las fotos de sus estados anteriores, y en 1945 colgó en la galería Maeght seis cuadros a medio terminar colocando a su lado algunas fotos en blanco y negro: unas eran los primeros bocetos, otras reflejaban su apariencia posterior. Una sala especial evoca aquel experimento de work in progress e instalación, inventados por Matisse décadas antes de que se acuñaran los términos.

Él lo explicó con la sencillez de los grandes: “Trabajo desde el sentimiento. Tengo una idea del cuadro en la cabeza, y quiero realizarla. Puedo, muy a menudo, repensarla. Pero sé dónde quiero que acabe. Las fotografías que tomo durante la realización de la obra me permiten saber si la última idea se adapta mejor al ideal que las anteriores. Si estoy avanzando o retrocediendo”.

(Artigo de Miguel Mora. Texto integral, aqui)

terça-feira, 6 de março de 2012

O dom das lágrimas, por Inês Pedrosa

Uma turma de crianças surdas escreveu um conto premiado no Festival Correntes d’Escritas da Póvoa de Varzim.

O vereador da Cultura pediu que, em vez de bater palmas às crianças que subiam ao palco, o público agitasse as mãos no ar, aplaudindo em linguagem gestual a excelência dos vencedores.

Uma longa onda de mãos criou naquele auditório municipal um momento eterno de silêncio e lágrimas. Chorávamos de alegria e orgulho. Honrávamos com as nossas lágrimas a excelência daqueles garotos e da sua professora. O choro pode ser um abraço que perdura.

Não chora quem quer – o dom das lágrimas é uma conquista dos que se lançam à vida com tudo o que têm.

«Muitos anos antes de Cristo havia na Grécia um poeta que dizia: ‘Tenho uma grande arte: eu firo duramente aqueles que me ferem’. Minha arte é ainda maior: eu amo aqueles que me amam». Isto escreveu Rubem Fonseca em A Grande Arte. Mais adiante, no mesmo romance, diz-se: «As palavras, meu carrancudo amigo, antigamente, davam tesão e faziam chorar, faziam revoluções, faziam as pessoas se matarem, mas agora fazem apenas as pessoas terem um ar estúpido, (…)».

Os enredos policiais de Rubem movem-se em torno das palavras que sobram ( medo, morte, ganância, cobardia) e das palavras que faltam (amor, que no léxico de Rubem estará sempre ligado ao sexo, por excesso ou por carência).

Quem tem o privilégio de amar os livros não seca por dentro: chora inconvenientemente.

As lágrimas limpam a visão. Ensinam a ver. No sal delas some-se tudo o que não presta, trazendo à tona as palavras que ardem e curam – o amor, primeira e última razão.

Lágrimas na Chuva é o título do romance agora publicado de Rosa Montero, uma ficção política que decorre no ano de 2109, um tempo em que os nacionalismos fatais foram substituídos pelos Estados Unidos da Terra mas os racismos e a ânsia de poder minam ainda a existência. E a clonagem evoluiu até à criação de replicantes mais ou menos sofisticados, munidos de memórias falsas.

Mas o que é uma memória verdadeira, se duas pessoas recordam os mesmos factos de forma distinta? Em cada replicante grita a brevidade da vida – porque vivem apenas dez anos. Mas os outros, os que vivem os nossos míseros setenta ou noventa anos, o que fazem das suas vidas? O deslumbramento da paixão partilhada, a dor do fracasso, a mágoa do desencontro, o riso dos amigos – e o tempo perdido em estratégias e vinganças, planos de poder e sonhos adiados.

«Todos esses momentos se perderão no tempo como lágrimas na chuva», escreve Rosa, citando o mítico filme Blade Runner, realizado já há 30 anos.

Ao receber o grande Prémio Literário do Casino da Póvoa e das Correntes d’Escritas, Rubem Fonseca declarou o seu amor orgulhoso pela Língua Portuguesa e recitou versos de Camões.

Pode e deve orgulhar-se: trocou uma vida de conforto pelas escarpas da escrita e da leitura. Pegou nas palavras que queimam e atiçou-lhes o fogo, consciente de que só a partir desse lugar obscuro se pode em verdade transformar o mundo. Criou um léxico seu e ofereceu-o ao mundo. «Não há sinónimos» – alertou. Desejo. Amor. Liberdade. Coragem. Entrega. Palavras à prova de bala, brilhantes como corpos cintilando no escuro.

Este festival realiza-se há 13 anos. Dele nasceram ideias, livros, encontros, e pelo menos dois casais felizes – um deles, composto por um escritor espanhol e uma escritora cubana que acabaram por escolher Portugal como a sua morada.

Nas escolas, assiste-se a uma ampliação entusiástica dos hábitos de leitura.

E ganha-se a medalha de cristal das lágrimas, sem a qual não somos mais do que piegas, gente que vive como se estivesse morta.

(crónica publicada no jornal Sol de 2 de Março de 2012)