quinta-feira, 1 de março de 2012

Paul Krugman ao Expresso


Paul Krugman diz que a austeridade é um caminho errado para a Europa mas não pode ser Portugal a invertê-lo sozinho.
Excertos da entrevista concedida por Paul Krugman ao Expresso, aqui

Não culpem o Rio, por Michel Rocard

Estamos há pouco mais de uma década no século XXI, mas um terrível precedente já foi estabelecido: todas as grandes negociações internacionais e principais esforços de cooperação iniciados neste século terminaram, até agora, em fracasso.

Em relação ao meio ambiente, a luta contra o aquecimento global chegou a um impasse, com as três últimas conferências anuais sobre as alterações climáticas das Nações Unidas, em Copenhaga, Cancún e Durban, a falharem na renovação do Protocolo de Quioto.



Da mesma forma, apesar da conferência do ano passado em Paris, para rever o Tratado de Não Proliferação e as subsequentes conversações entre o presidente dos EUA, Barack Obama, e o presidente russo Dmitri Medvedev sobre o desarmamento nuclear, em Nova Iorque, terem feito notáveis avanços, os resultados estiveram muito aquém de garantirem um futuro livre de armas nucleares.



A lista continua: eventos no Médio Oriente acabaram com todas as hipóteses de paz na região, as medidas tomadas para ajudar na recuperação mundial - incluindo as melhorias reguladoras, como a separação entre a banca de retalho e de investimento, a eliminação dos paraísos fiscais e a repressão dos conflitos de interesses das agências de notação de crédito - foram fracas; e as duas últimas reuniões do G-20 registaram falhas graves.



As causas e as partes responsáveis por essas falhas são diversas, mas há uma constante: nos últimos anos, a retórica nacionalista, até mesmo xenófoba, intensificou-se dramaticamente. O patriotismo e a supremacia são hoje em dia enfatizados mais insistentemente, enquanto expressões de desconfiança dos “outros” têm aparecido em toda parte - inclusive no Oceano Ártico, onde o Canadá e a Rússia estão envolvidos em algo a que um especialista apelidou de “Guerra Fria light”.



A consequência da crescente balcanização da comunidade internacional é que as conferências voltadas para o consenso tendem a terminar em impasses. Estas falhas não significam que a maioria das pessoas em todo o mundo não concorde totalmente com estas questões, ou que essas pessoas não estejam preparadas para tomarem decisões atempadas ou até mesmo corajosas. Infelizmente, os sentimentos das pessoas comuns raramente triunfam quando os governos se reúnem.



A conclusão é inevitável: é a procura do consenso absoluto - unanimidade - que está a comprometer o progresso das principais preocupações mundiais. As negociações voltadas para o consenso podem resultar quando um tratado é feito entre vencedores e vencidos - o forte e o fraco. Após a I Guerra Mundial, as potências aliadas tentaram promover a paz internacional através da criação da Liga das Nações. Mas o requisito de unanimidade da Liga deu, efectivamente, o poder de veto a todos os membros e a recusa do Senado dos Estados Unidos em ratificar o seu Tratado condenou o esforço a uma morte prematura.



O fracasso abjecto da Liga para evitar a II Guerra Mundial resultou num segundo esforço para criar cortesia internacional após o fim dos combates. A nova ONU estava muito melhor estruturada do que a sua antecessora e o mundo ganhou uma instituição que promove o debate e a tomada de decisão deliberativa de forma muito mais vigorosa da que é possível em organizações conduzidas pelo consenso.



Mas uma mudança que contradiz o espírito da Carta das Nações Unidas ocorreu. Num esforço para evitar resoluções ou medidas que expõem os seus desacordos, as grandes potências mundiais adoptaram o hábito de organizar debates e conferências em todo o mundo que façam regressar a tomada de decisão por consenso.



De acordo com a Carta das Nações Unidas, o foco principal da Assembleia Geral e do Conselho de Segurança é promover a segurança internacional. Mas a ONU tornou-se o “operador geral” para as conferências mundiais, agindo como administrador e fornecedor de serviços e instalações (tais como locais e intérpretes) para eventos que oficialmente não fazem parte das suas operações principais. Como resultado, a ONU está a assumir cada vez mais a culpa pelas falhas destas conferências, que só não deixam as questões em aberto, mas também comprometem a autoridade da ONU.



A conferência Rio+20, que examinará os progressos realizados desde a primeira “Cimeira da Terra” no Rio de Janeiro há 20 anos, terá lugar na mesma cidade em Junho deste ano. Concebida com um vasto conjunto de objectivos, incluindo um destaque tanto para a economia verde como para o desenvolvimento sustentável, a conferência parece condenada ao fracasso. Sem consenso, nenhuma acção pode ser tomada e haver consenso será impossível.É claro, há a hipótese de que o mundo reconhecerá o seu dilema no Rio. Se a maioria dos países presentes se atrever a declarar que exigir o consenso é equivalente a impor a paralisia e se insistir em seguir os procedimentos de votação consagrados na Carta das Nações Unidas, poderemos ver progressos enormes.



O aquecimento global e a crise económica estão a ameaçar a segurança internacional. Só isso justifica referir estas questões na Assembleia Geral da ONU, que, ao contrário do Conselho de Segurança, não conhece o poder de veto. Uma declaração forte e um apelo às medidas vinculativas para abordar essas questões seriam então possíveis.



As crises económica e ambiental com que nos deparamos são demasiado urgentes para participar em jogos que dão a aparência de unanimidade internacional. Está mais do que na hora de abordar não só o aquecimento global e a crise económica, mas também o processo de tomada de decisão internacional. Por que não começar com o Rio?
(Do site do jornal Público)

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Paul Krugman, Doutor honoris causa pelas: UL, UTL e UNL

Fotografia de Paulo Spranger

Paul Krugman, que recebeu hoje o doutoramento honoris causa por três universidades (a de Lisboa, a Técnica e a Nova), começou o seu discurso dizendo que é em alturas de crise como a actual que os economistas e a análise económica são mais úteis, mas que não é isso que está a acontecer. “É doloroso para mim assistir ao fracasso da profissão”, atirou o economista. 

O prémio Nobel da Economia em 2008, que tem sido particularmente crítico à via de austeridade seguida pelos países europeus para combater a crise, atribuiu boa parte da responsabilidade por isso aos economistas. Segundo Krugman, os argumentos usados para defender medidas de austeridade em vez de mais investimento público ou de expansão monetária têm muita pouca base de sustentação. “Havia economistas a usar argumentos de há 80 anos, que foram refutados no debate económico nos anos seguintes”, explica, acusando os colegas de profissão de terem esquecido a história das depressões económicas e a fórmula certa para as combater.

“Algo correu muito mal na profissão e com consequências muito graves para o mundo”, salientou Krugman, admitindo mesmo que “o que se passa na Europa e no mundo se deve em grande parte ao fracasso dos economistas”.

“Dediquei a minha vida ao avanço da economia e agora temos uma situação em que a profissão é inútil”, lamentou o prémio Nobel, para de seguida lançar um apelo: “Não é altura de os economistas de ficarem calados, a vida de milhões de pessoas está em jogo, é altura de a profissão se auto-analisar”. E terminou com um misto de sinal de esperança e de aviso, ao dizer que a crise actual irá acabar, mas que haverá sempre outra – uma certeza deixada pela história económica, mas que Krugman diz que foi esquecida pelos seus colegas. (do site do jornal Público)

As guerras também se inventam?

(Excerto do editorial da revista Courrier Internacional de Março de 2012, da autoria de Rui Cardoso.)

Nos anos 60, Che Guevara lançou uma palavra de ordem antiamericana que ficou célebre: "É preciso criar um, dois, três Vietnames..." Meio século depois, Washington parece apostado em criar não um mas vários Iraques, senão diversos Afeganistões. É certo que a perspectiva de um Irão com capacidade nuclear é asssustadora, mas há qualquer coisa de familiar no bombardeamento mediático sobre o país dos ayatollahs. A Agência Internacional para a Energia Atómica (AIEA) ainda não encontrou provas de que o país esteja, de facto, a construir bombas nucleares. Os serviços secretos ocidentais também não. Mas EUA e UE avançaram já com sansões (que atingem mais o povo iraniano que a clique dirigente), enquantoa marinha norte-americana ocupa o Golfo Pérsico. Supostamente Saddam Hussein tinha armas de destruição maciça e, por isso, foi invadido pelos EUA em 2003. (...)

José Gil - entrevista

Fotografia de Rodrigo Cabrita

Tem acompanhado os nossos passos. O “medo de existir” sofreu alguma alteração?
O medo mudou, ao mesmo tempo que esse medo continua, um medo fundamental.
Quase genético?
Felizmente não é genético, mas há um outro medo que se espalha, que tem a ver com a situação actual. Um medo de mudar, de perder segurança. Todos nós temos amigos que perderam empregos, que tinham uma carreira quando a catástrofe desabou, que emigraram ou estão prestes a emigrar. É um medo que depende talvez mais do exterior que do interior. O medo de existir é uma espécie de bloqueio de forças, de vida, em nós, que vinha de longe, e que se manifestava na maneira como somos, não expressivos; na maneira como nos aconchegamos, como não sabemos a força do desejo.
Como desconhecemos a própria violência e receamos o escândalo?
Absolutamente. Não queremos conflitos de nenhuma ordem. Como se vivêssemos num casulo. Enquanto a existência é perigo, é risco, e temos de o enfrentar para sermos nós. Recusar o conflito faz parte desse medo de existir. Agora temos outros, concretos, que se manifestam imediatamente, e que se agravam em nós portugueses por causa desse medo de existir. Porque se enxertam nesse medo de existir. Um medo de não poder ter um futuro, um futuro banal, a que as pessoas têm imediatamente direito, como constituir uma família.
São medos demasiado prementes para se pensar no tal medo identitário?
Claro, mas tem a ver também com esse medo essencial. Não o liberta, não o quebra. Uma das percepções possíveis que se pode ter da maneira como este governo está a governar, da governação Passos Coelho, é precisamente através do medo. A contenção, a austeridade, a pressão é tão grande que não só não há alternativas, mesmo mínimas, locais, para certos domínios deste governo, como o governo quer fazer mais ainda que aquilo a que a troika nos obriga.
Um medo em forma de epidemia.
Absolutamente. Imagine que não há saída se não apertarmos o cinto. Significa que, se abrirmos a torneira, se modificarmos um bocadinho no domínio da saúde ou da educação, isto pode levar imediatamente a uma multiplicação de despesas. Há um medo que seca.
Vivendo nós em medo quase permanente com a ideia de “crise”, como dar-lhe a volta?
Como dar a volta ao medo ou à crise?
A ambos seria perfeito.
Não sei como dar-lhe a volta, mas a crise não é portuguesa, como toda a gente sabe. É europeia, senão global. Sobre a crise europeia as coisas vão mal. Não se vê uma saída. Os últimos números que falam do PIB de vários países são para desesperar. Não se vê nem na zona euro nem na organização europeia um futuro. Do que se fala constantemente é da possível desagregação da zona euro, da possível desagregação da UE. Só se fala nisto. Depois há o outro discurso, de que temos de afirmar a Europa. Através de quê, quando tudo vai no sentido contrário?
Dizia esta semana Eduardo Lourenço que não acredita que Portugal venha a “morrer realmente”, apesar da tentação do pessimismo. Alimenta alguma esperança?
Não tenho um outro factor racional que me diga que haverá uma reviravolta nesta linha. Vejo as dificuldades maiores. A solução seria a unificação política da Europa, mas mesmo com um estado federal, diferente, não vejo que seja possível. A esperança vem da inércia, porque não acreditamos que possa haver uma catástrofe na Europa.
Faria falta uma catástrofe?
Não, não. Isso parece-me bastante perigoso. Faz-me lembrar os discursos antes da Segunda Guerra Mundial, em que se dizia que precisávamos era de uma boa guerra para purificar. Não precisamos de boa guerra nenhuma, a guerra só é má, e agora sobretudo. Simplesmente em relação à Europa estamos na mesma situação que temos relativamente à nossa própria morte. Sabemos que vamos morrer, mas não acreditamos. Não é possível, porque viver é auto-suficiente por si. A Europa é a mesma coisa. Se aqui estamos, como é possível que desaparecesse?
Mas pode sentir que se encaminha para um certo suicídio?
O suicídio de quem? A Europa não é uma pessoa, são colectividades coesas ou menos coesas, numa realidade que não se formou ainda. Estou a falar da Europa dos estados-nação, não da Europa que está por detrás disso tudo, que nos forma, a Europa de uma cultura e de uma terra que é muito mais rica que a Europa política e dos estados, que não tem fronteiras definidas.
Esse capital ainda é o bem mais precioso no movimento de resistência?
Certamente, agora é preciso é entender a cultura de uma outra maneira. De uma maneira antropológica, a cultura implica relação com todo o território, com toda uma maneira de ser e de viver e de formar uma colectividade.
Quando fala de território, é possível conjugá-lo com a ideia de um tempo movido, por exemplo, pelo imediatismo das redes sociais? Recordo por exemplo a noção de cronopolítica de Paul Virilio, ou de como a gestão do tempo é tão ou mais decisiva hoje que a gestão do espaço.
Com certeza que também. Simplesmente domar o tempo histórico é pretensão de tal maneira ambiciosa... quase limite em relação à finitude do homem. Há qualquer coisa no tempo que se vai acelerando e que nos vai dominando. Quem pensou melhor isso foi, como disse, o Paul Virilio, urbanista francês, e ele não tem solução. Constata que há uma mudança extraordinária na velocidade e no tempo. Ele dizia na brincadeira que ia passar a andar de burro em Paris, porque já não suportava os carros.
Não temos alternativa senão alinhar na engrenagem?
Quem tem o poder pode alguma coisa, mas não pode muito. Um dos problemas dos governos é tempo, um outro tempo, mas é o tempo. Eles não param para pensar, têm de tomar iniciativas, têm de, têm de. Talvez não tenham de. Podem talvez parar.
Recomendar-se-ia um bocadinho da síndrome do Bartlebly?
Pois, mas repare, no Bartleby aquilo é um meio fechado. Ele é empregado num escritório e toda a relação depende do facto de a fórmula “I would prefer not to” condicionar não só o seu patrão, mas também os colegas. Isso é possível porque é um meio fechado. Quando aparecem os oficiais para o porem fora do escritório, põem-no fora. Porque esses guardas não são condicionados por aquilo. Há dois mundos. Ora nós estamos nisso. Há um mundo que não é condicionado por uma resistência, e é esse mundo que tem força, o mundo da política, dos guardas.

(transcrição de parte da entrevista publicada no jornal i de 25 de Fevereiro de 2012)

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O bispo também descende do macaco

Richard Dawkins e Rowan Williams, à chegada à Universidade de Oxford / Foto de Andrew Winning

Mucho han evolucionado los obispos desde que el de Oxford le preguntó a Thomas Huxley, el bulldog de Darwin, si él creía venir del mono por parte del abuelo paterno o del materno. Un siglo y medio después de aquella salida gloriosa, la Universidad de Oxford ha querido reeditar la reyerta con unos modales más británicos. El debate entre el evolucionista y ateo militante Richard Dawkins y el obispo de Canterbury, Rowan Williams, ha alcanzado hoy alturas estratosféricas y profundidades teológicas sin llegar a las manos. No ha resuelto la naturaleza de Dios, pero al menos ha servido para saber que los obispos ya admiten venir del mono. Por vía paterna y materna.

El debate entre Huxley y el entonces obispo de Oxford, Samuel Wilberforce, se celebró en 1860, solo siete meses después de que Darwin publicara El origen de las especies, y la ocurrencia de Wilberforce se ha convertido desde entonces en el chascarrillo obligado sobre lo mal que le sentó el libro al clero. La reedición de hoy ha tenido lugar en el solemne salón de actos de la facultad de Teología de la Universidad de Oxford. Su solo título ya rizaba el pelo: La naturaleza del ser humano y la cuestión de su origen último.

Si la actitud de Williams, que es el jefe de la iglesia anglicana, es representativa de la mentalidad religiosa actual, o al menos una avanzadilla de ella, el último siglo y medio de teología responde al esquema del God of the gaps, o Dios de los huecos: una teología que va aceptando la evidencia científica, aunque sea murmurando, y deja a Dios el papel de ir rellenando los huecos allí donde la ciencia actual no alcanza.

Williams, al igual que el Vaticano, acepta ahora la evolución biológica, pero sigue creyendo que tiene un propósito superior. También admite que el ser humano proviene del mono, lo que deja a Dios el dificultoso papel de insertarle un alma en algún momento de la evolución de los homínidos. Acoge de mil amores el Big Bang —lo más parecido a una Creación que ha producido la ciencia, y encima formulado por un cura—, pero frunce el ceño frente a la inmensidad del cosmos, y no hablemos ya de los universos paralelos que conjeturan muchos físicos teóricos. Puede que Dios utilice la ciencia, pero solo si es para crear al hombre.

Es curioso que no haya sido el obispo de Canterbury, sino el ateo Dawkins, quien haya logrado orientarse entre todas esas brumas de las capas altas o altísimas de la atmósfera para señalar el problema verdaderamente vital que tienen las religiones en nuestro tiempo: “El perdón de los pecados y la salvación de las almas”.

Dawkins, como Einstein y otros científicos, opina que las religiones viven del miedo que sienten sus feligreses ante la intranscendencia de la vida y la certeza de la muerte. Es poco probable que el grueso de los creyentes se preocupe por la causa última del Big Bang o el fino ajuste de las constantes físicas mientras no le resuelvan esas cuestiones más acuciantes.

El científico también le ha soltado al obispo una de sus refutaciones favoritas de la existencia de Dios. La teoría del diseño inteligente —versión posmoderna del creacionismo norteamericano— sigue sosteniendo lo mismo que la teología natural de los tiempos de Darwin, que deducía la existencia de Dios a partir de la complejidad de sus criaturas. Dawkins argumenta, en cambio, que un diseñador inteligente debe ser aún más complejo que las criaturas a las que pretende dar explicación, luego no les da ninguna.

Como ocurre a veces en este tipo de debates, los ponentes han adoptado a menudo el lenguaje del adversario con la intención —invariablemente frustrada— de llevarse el gato al agua. Así, el obispo de Canterbury ha hablado con cierta soltura de “consciencia autorreflexiva”, bases binarias, mutaciones saltatorias, genes del lenguaje, el carácter predecible de los sistemas emergentes, o la falta de él, el mecanismo de transferencia de la información genética y la naturaleza de los procesos evolutivos antes de la aparición de las primeras moléculas autorreplicantes. Hasta se ha disculpado por el hecho de que los redactores de la Biblia no tuvieran ni idea de la física del siglo XX, lo que ha suscitado la comprensión del público.

Dawkins también ha atemperado en cierta medida su lengua viperina. Por ejemplo, no ha dicho que la existencia de un Creador sobrenatural fuera imposible, sino “extremadamente improbable”, con esa vocal muy larga en las segundas sílabas que saben poner en Oxford. Hasta ha llegado a admitir la relevancia de las “macromutaciones”, aunque solo en la evolución de las plantas.

Pero su mejor momento fue cuando el obispo de Canterbury le preguntó: “¿Acaso el conocimiento humano se puede explicar por la evolución?”, y él respondió: “Mire usted, no entiendo ni la pregunta”.

Ese es el Dawkins que cabreaba a los obispos en otros tiempos. Ay Dios, cómo se echa de menos a Samuel Wilberforce.

(do site do jornal El País)

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Casa de campo em Olot, Girona, Espanha

Foto de José Hevia
"Bet Capdeferro y Ramón Bosch ganaron un premio FAD por el diseño de una vivienda que denominaron Casa-Collage para identificar la mezcla de materiales de diversas procedencias que se daba en su proyecto. En Olot, han rehabilitado ahora una antigua masía ocupando, con un porche metálico, la zona en la que antiguamente vivía el ganado. Los arquitectos hablan de construir "una gran ventana habitable", y lo cierto es que la ampliación —realizada con una estructura de zinc y cerramientos de cristal— es a la vez ligera y contundente, transparente y opaca, evanescente y sólida. Cualquiera de estos binomios contrasta con la irregularidad de la casa original. Y no solo formalmente. El diálogo entre lo existente y lo nuevo habla de una época en la que la producción industrial permite trabajar en seco —casi como si el nuevo módulo fuera un elemento prefabricado— con plazos más rápidos y, sin embargo, o tal vez por ello, exige tomar decisiones con gran ponderación: la planificación, por encima de la supervisión, manda en los proyectos que se industrializan. El porche, convertido en parte de la casa, ofrece un lugar nuevo: ni interior ni exterior. El espacio intermedio —el de las antiguas galerías— resuelve y retrata como pocos la indefinición: el terreno que se ha empeñado en abordar la arquitectura actual."
Do site do jornal El País