(Excerto do editorial da revista Courrier Internacional de Março de 2012, da autoria de Rui Cardoso.)segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
As guerras também se inventam?
(Excerto do editorial da revista Courrier Internacional de Março de 2012, da autoria de Rui Cardoso.)José Gil - entrevista
O medo mudou, ao mesmo tempo que esse medo continua, um medo fundamental.
Quase genético?
Felizmente não é genético, mas há um outro medo que se espalha, que tem a ver com a situação actual. Um medo de mudar, de perder segurança. Todos nós temos amigos que perderam empregos, que tinham uma carreira quando a catástrofe desabou, que emigraram ou estão prestes a emigrar. É um medo que depende talvez mais do exterior que do interior. O medo de existir é uma espécie de bloqueio de forças, de vida, em nós, que vinha de longe, e que se manifestava na maneira como somos, não expressivos; na maneira como nos aconchegamos, como não sabemos a força do desejo.
Como desconhecemos a própria violência e receamos o escândalo?
Absolutamente. Não queremos conflitos de nenhuma ordem. Como se vivêssemos num casulo. Enquanto a existência é perigo, é risco, e temos de o enfrentar para sermos nós. Recusar o conflito faz parte desse medo de existir. Agora temos outros, concretos, que se manifestam imediatamente, e que se agravam em nós portugueses por causa desse medo de existir. Porque se enxertam nesse medo de existir. Um medo de não poder ter um futuro, um futuro banal, a que as pessoas têm imediatamente direito, como constituir uma família.
São medos demasiado prementes para se pensar no tal medo identitário?
Claro, mas tem a ver também com esse medo essencial. Não o liberta, não o quebra. Uma das percepções possíveis que se pode ter da maneira como este governo está a governar, da governação Passos Coelho, é precisamente através do medo. A contenção, a austeridade, a pressão é tão grande que não só não há alternativas, mesmo mínimas, locais, para certos domínios deste governo, como o governo quer fazer mais ainda que aquilo a que a troika nos obriga.
Um medo em forma de epidemia.
Absolutamente. Imagine que não há saída se não apertarmos o cinto. Significa que, se abrirmos a torneira, se modificarmos um bocadinho no domínio da saúde ou da educação, isto pode levar imediatamente a uma multiplicação de despesas. Há um medo que seca.
Vivendo nós em medo quase permanente com a ideia de “crise”, como dar-lhe a volta?
Como dar a volta ao medo ou à crise?
A ambos seria perfeito.
Não sei como dar-lhe a volta, mas a crise não é portuguesa, como toda a gente sabe. É europeia, senão global. Sobre a crise europeia as coisas vão mal. Não se vê uma saída. Os últimos números que falam do PIB de vários países são para desesperar. Não se vê nem na zona euro nem na organização europeia um futuro. Do que se fala constantemente é da possível desagregação da zona euro, da possível desagregação da UE. Só se fala nisto. Depois há o outro discurso, de que temos de afirmar a Europa. Através de quê, quando tudo vai no sentido contrário?
Dizia esta semana Eduardo Lourenço que não acredita que Portugal venha a “morrer realmente”, apesar da tentação do pessimismo. Alimenta alguma esperança?
Não tenho um outro factor racional que me diga que haverá uma reviravolta nesta linha. Vejo as dificuldades maiores. A solução seria a unificação política da Europa, mas mesmo com um estado federal, diferente, não vejo que seja possível. A esperança vem da inércia, porque não acreditamos que possa haver uma catástrofe na Europa.
Faria falta uma catástrofe?
Não, não. Isso parece-me bastante perigoso. Faz-me lembrar os discursos antes da Segunda Guerra Mundial, em que se dizia que precisávamos era de uma boa guerra para purificar. Não precisamos de boa guerra nenhuma, a guerra só é má, e agora sobretudo. Simplesmente em relação à Europa estamos na mesma situação que temos relativamente à nossa própria morte. Sabemos que vamos morrer, mas não acreditamos. Não é possível, porque viver é auto-suficiente por si. A Europa é a mesma coisa. Se aqui estamos, como é possível que desaparecesse?
Mas pode sentir que se encaminha para um certo suicídio?
O suicídio de quem? A Europa não é uma pessoa, são colectividades coesas ou menos coesas, numa realidade que não se formou ainda. Estou a falar da Europa dos estados-nação, não da Europa que está por detrás disso tudo, que nos forma, a Europa de uma cultura e de uma terra que é muito mais rica que a Europa política e dos estados, que não tem fronteiras definidas.
Esse capital ainda é o bem mais precioso no movimento de resistência?
Certamente, agora é preciso é entender a cultura de uma outra maneira. De uma maneira antropológica, a cultura implica relação com todo o território, com toda uma maneira de ser e de viver e de formar uma colectividade.
Quando fala de território, é possível conjugá-lo com a ideia de um tempo movido, por exemplo, pelo imediatismo das redes sociais? Recordo por exemplo a noção de cronopolítica de Paul Virilio, ou de como a gestão do tempo é tão ou mais decisiva hoje que a gestão do espaço.
Com certeza que também. Simplesmente domar o tempo histórico é pretensão de tal maneira ambiciosa... quase limite em relação à finitude do homem. Há qualquer coisa no tempo que se vai acelerando e que nos vai dominando. Quem pensou melhor isso foi, como disse, o Paul Virilio, urbanista francês, e ele não tem solução. Constata que há uma mudança extraordinária na velocidade e no tempo. Ele dizia na brincadeira que ia passar a andar de burro em Paris, porque já não suportava os carros.
Não temos alternativa senão alinhar na engrenagem?
Quem tem o poder pode alguma coisa, mas não pode muito. Um dos problemas dos governos é tempo, um outro tempo, mas é o tempo. Eles não param para pensar, têm de tomar iniciativas, têm de, têm de. Talvez não tenham de. Podem talvez parar.
Recomendar-se-ia um bocadinho da síndrome do Bartlebly?
Pois, mas repare, no Bartleby aquilo é um meio fechado. Ele é empregado num escritório e toda a relação depende do facto de a fórmula “I would prefer not to” condicionar não só o seu patrão, mas também os colegas. Isso é possível porque é um meio fechado. Quando aparecem os oficiais para o porem fora do escritório, põem-no fora. Porque esses guardas não são condicionados por aquilo. Há dois mundos. Ora nós estamos nisso. Há um mundo que não é condicionado por uma resistência, e é esse mundo que tem força, o mundo da política, dos guardas.
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
O bispo também descende do macaco

Mucho han evolucionado los obispos desde que el de Oxford le preguntó a Thomas Huxley, el bulldog de Darwin, si él creía venir del mono por parte del abuelo paterno o del materno. Un siglo y medio después de aquella salida gloriosa, la Universidad de Oxford ha querido reeditar la reyerta con unos modales más británicos. El debate entre el evolucionista y ateo militante Richard Dawkins y el obispo de Canterbury, Rowan Williams, ha alcanzado hoy alturas estratosféricas y profundidades teológicas sin llegar a las manos. No ha resuelto la naturaleza de Dios, pero al menos ha servido para saber que los obispos ya admiten venir del mono. Por vía paterna y materna.
El debate entre Huxley y el entonces obispo de Oxford, Samuel Wilberforce, se celebró en 1860, solo siete meses después de que Darwin publicara El origen de las especies, y la ocurrencia de Wilberforce se ha convertido desde entonces en el chascarrillo obligado sobre lo mal que le sentó el libro al clero. La reedición de hoy ha tenido lugar en el solemne salón de actos de la facultad de Teología de la Universidad de Oxford. Su solo título ya rizaba el pelo: La naturaleza del ser humano y la cuestión de su origen último.
Si la actitud de Williams, que es el jefe de la iglesia anglicana, es representativa de la mentalidad religiosa actual, o al menos una avanzadilla de ella, el último siglo y medio de teología responde al esquema del God of the gaps, o Dios de los huecos: una teología que va aceptando la evidencia científica, aunque sea murmurando, y deja a Dios el papel de ir rellenando los huecos allí donde la ciencia actual no alcanza.
Williams, al igual que el Vaticano, acepta ahora la evolución biológica, pero sigue creyendo que tiene un propósito superior. También admite que el ser humano proviene del mono, lo que deja a Dios el dificultoso papel de insertarle un alma en algún momento de la evolución de los homínidos. Acoge de mil amores el Big Bang —lo más parecido a una Creación que ha producido la ciencia, y encima formulado por un cura—, pero frunce el ceño frente a la inmensidad del cosmos, y no hablemos ya de los universos paralelos que conjeturan muchos físicos teóricos. Puede que Dios utilice la ciencia, pero solo si es para crear al hombre.
Es curioso que no haya sido el obispo de Canterbury, sino el ateo Dawkins, quien haya logrado orientarse entre todas esas brumas de las capas altas o altísimas de la atmósfera para señalar el problema verdaderamente vital que tienen las religiones en nuestro tiempo: “El perdón de los pecados y la salvación de las almas”.
Dawkins, como Einstein y otros científicos, opina que las religiones viven del miedo que sienten sus feligreses ante la intranscendencia de la vida y la certeza de la muerte. Es poco probable que el grueso de los creyentes se preocupe por la causa última del Big Bang o el fino ajuste de las constantes físicas mientras no le resuelvan esas cuestiones más acuciantes.
El científico también le ha soltado al obispo una de sus refutaciones favoritas de la existencia de Dios. La teoría del diseño inteligente —versión posmoderna del creacionismo norteamericano— sigue sosteniendo lo mismo que la teología natural de los tiempos de Darwin, que deducía la existencia de Dios a partir de la complejidad de sus criaturas. Dawkins argumenta, en cambio, que un diseñador inteligente debe ser aún más complejo que las criaturas a las que pretende dar explicación, luego no les da ninguna.
Como ocurre a veces en este tipo de debates, los ponentes han adoptado a menudo el lenguaje del adversario con la intención —invariablemente frustrada— de llevarse el gato al agua. Así, el obispo de Canterbury ha hablado con cierta soltura de “consciencia autorreflexiva”, bases binarias, mutaciones saltatorias, genes del lenguaje, el carácter predecible de los sistemas emergentes, o la falta de él, el mecanismo de transferencia de la información genética y la naturaleza de los procesos evolutivos antes de la aparición de las primeras moléculas autorreplicantes. Hasta se ha disculpado por el hecho de que los redactores de la Biblia no tuvieran ni idea de la física del siglo XX, lo que ha suscitado la comprensión del público.
Dawkins también ha atemperado en cierta medida su lengua viperina. Por ejemplo, no ha dicho que la existencia de un Creador sobrenatural fuera imposible, sino “extremadamente improbable”, con esa vocal muy larga en las segundas sílabas que saben poner en Oxford. Hasta ha llegado a admitir la relevancia de las “macromutaciones”, aunque solo en la evolución de las plantas.
Pero su mejor momento fue cuando el obispo de Canterbury le preguntó: “¿Acaso el conocimiento humano se puede explicar por la evolución?”, y él respondió: “Mire usted, no entiendo ni la pregunta”.
Ese es el Dawkins que cabreaba a los obispos en otros tiempos. Ay Dios, cómo se echa de menos a Samuel Wilberforce.
(do site do jornal El País)
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
Casa de campo em Olot, Girona, Espanha

domingo, 12 de fevereiro de 2012
La casa de Molière, Mario Vargas Llosa
A fines de los años cincuenta, cuando vine a vivir a París, aunque uno fuera paupérrimo podía darse el lujo supremo de un buen teatro, por lo menos una vez por semana. La Comédie Française tenía las matinés escolares, no recuerdo si los martes o los jueves, y esas tardes representaba las obras clásicas de su repertorio. Las funciones se llenaban de chiquillos con sus profesores, y las entradas sobrantes se vendían al público muy baratas, al extremo que las del gallinero —desde donde se veía sólo las cabezas de los actores— costaban apenas 100 francos (pocos centavos de un euro de hoy). Las puestas en escena solían ser tradicionales y convencionales, pero era un gran placer escuchar el cadencioso francés de Corneille, Racine y Molière (sobre todo el de este último), y, también, muy divertido, en los entreactos, escuchar los comentarios y discusiones de los estudiantes sobre las obras que estaban viendo.
Desde entonces me acostumbré a venir regularmente a la Comédie Française y lo he seguido haciendo a lo largo de más de medio siglo, en todos mis viajes a París: Francia ha cambiado mucho en todo este tiempo, pero no en la perfecta dicción y entonación de estos comediantes que convierten en conciertos las representaciones de sus clásicos.
Vine también ahora y me encontré que la Gran Sala Richelieu estaba cerrada por trabajos en la cúpula que tomarán todavía más de un año. Para reemplazarla se ha construido en el patio del Palais Royal un auditorio provisional muy apropiadamente llamado el Théâtre Éphémère. El local es precario, el frío siberiano de estos días parisinos se cuela por los techos y rendijas y los acomodadores (nunca había visto algo semejante) nos reparten a los ateridos y heroicos espectadores unas gruesas mantas para protegernos del resfrío y la pulmonía. Pero todos esos inconvenientes se esfuman cuando se corre el telón, comienza el espectáculo y el genio y la lengua de Molière se adueñan de la noche.
Se representa Le Malade imaginaire, la última obra que escribió Jean-Baptiste Poquelin, que haría famoso el nombre de pluma de Molière, y en la que estaba actuando él mismo la infausta tarde del 17 de febrero de 1673, en el papel de Argan, el enfermo imaginario, víctima de lo que los fisiólogos de la época llamaban deliciosamente “la melancolía hipocondríaca”. Era la cuarta función y el teatro llamado entonces del Palais Royal estaba repleto de nobles y burgueses. A media representación el autoritario y delirante Argan tuvo un acceso de tos interminable que, sin duda, los presentes creyeron parte de la ficción teatral. Pero no, era una tos real, cruda, dura e inesperada. La función debió suspenderse y el actor, llevado de urgencia a su casa vecina con una vena reventada por la violencia del acceso, fallecería unas cuatro horas después. Había cumplido 51 y, como no tuvo tiempo de confesarse, los comediantes de la compañía formada y dirigida por él, junto con su viuda, debieron pedir una dispensa especial al arzobispo de París para que recibiera una sepultura cristiana.
Buena parte de esos 51 años de existencia se los pasó Molière viviendo no en la realidad cotidiana sino en la fantasía y haciendo viajar a sus contemporáneos —campesinos, artesanos, clérigos, burócratas, comerciantes, nobles— al sueño y la ilusión. Las milimétricas investigaciones sobre su vida de ejércitos de filólogos y biógrafos a lo largo de cuatro siglos arrojan casi exclusivamente las idas y venidas del actor J.B. Poquelin a lo largo de los años por todas las provincias de Francia, actuando en plazas públicas, patios, atrios, palacios, ferias, jardines, carpas, y, luego de su instalación en París, escribiendo, dirigiendo y encarnando a los personajes de obras suyas y ajenas de manera incesante. Y, cuando no lo hacía, contrayendo o pagando deudas de los teatros que alquilaba, compraba o vendía, de tal modo que, se puede decir, la vida de Molière consistió casi exclusivamente —además de casarse con una hija de su amante y producir de paso unos vástagos que solían morirse a poco de nacer— en vivir y difundir unas ficciones que eran unos espejos risueños y deformantes, y, a veces, luciferinamente críticos de la sociedad y las creencias y costumbres de su tiempo.
Llegó a ser muy famoso y considerado por unos y otros el más grande comediante de la época, insuperable en el dominio de la farsa y el humor, pero, detrás de la risa, la gracia y el ingenio que a todos seducían, sus obras provocaron a veces violentas reacciones de las autoridades civiles y eclesiásticas —el Tartufo fue prohibido por ambas en varias ocasiones— y el propio Luis XIV, que lo admiraba e invitó a su compañía a actuar en Versalles y en los palacios de París y alrededores ante la corte, y fue a menudo a aplaudirlo al teatro del Palais Royal, se vio obligado también en dos ocasiones a censurar las mismas obras que en privado había celebrado.
El enfermo imaginario no tiene la complejidad sociológica y moral del Tartufo, ni la chispeante sutileza de El Avaro, ni la fuerza dramática de Don Juan, pero entre el melodrama rocambolesco y la leve intriga amorosa hay una astuta meditación sobre la enfermedad y la muerte y la manera como ambas socavan la vida de las gentes.
Cuando escribió la obra, estaba de moda —él había contribuido a fomentarla— incorporar a las comedias números musicales y de danza —el propio Rey y los príncipes acostumbraban a acompañar a los bailarines en las coreografías— y la estructura original de El enfermo imaginario es la de una opereta, con coros y bailes que se entrelazan constantemente con la peripecia anecdótica. Pero en este excelente montaje del fallecido Claude Stratz, esas infiltraciones de música y ballet se han reducido, con buen criterio, a su mínima expresión.
Paso dos horas y media magníficas y, casi tanto como lo que ocurre en el escenario, me fascina el espectáculo que ofrecen los espectadores: su atención sostenida, sus carcajadas y sonrisas, el estado de trance de los niños a los que sus padres han traído consigo abrigados como osos, las ráfagas de aplausos que provocan ciertas réplicas. Una vez más compruebo, como en mis años mozos, que Molière está vivo y sus comedias tan frescas y actuales como si las acabara de escribir con su pluma de ganso en papel pergamino. El público las reconoce, se reconoce en sus situaciones, caricaturas y exageraciones, goza con sus gracias y con la vitalidad y belleza de su lengua.
Viene ocurriendo aquí hace más de cuatro siglos y ésa es una de las manifestaciones más flagrantes de lo que quiere decir la palabra civilización: un ritual compartido, en el que una pequeña colectividad, elevada espiritual, intelectual y emocionalmente por una vivencia común que anula momentáneamente todo lo que hay en ella de encono, miseria y violencia y exalta lo que alberga de generosidad, amplitud de visión y sentimiento, se trasciende a sí misma. Entre estas vivencias que hacen progresar de veras a la especie, ocupa un papel preponderante aquello a lo que Molière dedicó su vida entera: la ficción. Es decir, la creación imaginaria de mundos donde podemos refugiarnos cuando aquel en el que estamos sumidos nos resulta insoportable, mundos en los que transitoriamente somos mejores de lo que en verdad somos, mundos que son el mundo real y a la vez mundos soberanos y distintos, con sus leyes, sus ritmos, sus valores, su música, sus ideas, sostenidos por una conjunción milagrosa de la fantasía y la palabra.
Pocos creadores de su tiempo ayudaron tanto a los franceses, y luego al mundo entero, como el autor de El enfermo imaginario, a salir de los quebrantos, las infamias, la coyunda y las rutinas cotidianas y a transformar las amarguras y los rencores en alegría, esperanza, contento, a descubrir la solidaridad y la importancia de los rituales y las formas que desanimalizan al ser humano y lo vuelven menos carnicero. La historia, más que una lucha de religiones o de clases, ha opuesto siempre esos pequeños espacios de civilización a la barbarie circundante, en todas las culturas y las épocas y a todos los niveles de la escala social. Uno de esos pequeños espacios que nos defienden y nos salvan de ser arrollados del todo por la estupidez y la crueldad oceánicas que nos rodean es éste que creó Molière en el corazón de París y no hay palabras bastantes en el diccionario para agradecérselo como es debido.
(Crónica de Mario Vargas Llosa publicada no El País de hoje)
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
"Poema em linha recta", de Álvaro de Campos
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possiblidade do soco;
Eu que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu que verifico que não tenho par nisto neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo,
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu um enxovalho,
Nunca foi senão - princípe - todos eles princípes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana,
Quem confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde há gente no mundo?
Então só eu que é vil e erróneo nesta terra?
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Soneto à maneira de Camões - Sophia de Mello Breyner Andresen
Esperança e desespero de alimento
Me servem neste dia em que te espero
E já não sei se quero ou se não quero
Tão longe de razões é meu tormento.
Mas como usar amor de entendimento?
Daquilo que te peço desespero
Ainda que m'o dês - pois o que eu quero
Ninguém o dá se não por um momento.
Mas como és belo, amor, de não durares,
De ser tão breve e fundo o teu engano,
E de eu te possuir sem tu te dares.
Amor perfeito dado a um ser humano:
Também morre o florir de mil pomares
E se quebram as ondas do oceano.

