sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

A primeira civilização ateia

Artigo de Jorge Almeida Fernandes, publicado no jornal Público de 24 de Dezembro:

Declarou Vaclav Havel em Setembro de 1994 num discurso na Universidade de Stanford: "O papel do intelectual é, entre outras coisas, antever, como Cassandra, as variadas ameaças, horrores e catástrofes. O papel do político é escutar as vozes de aviso, tomar nota dos perigos e, ao mesmo tempo, pensar intensamente no modo de os afrontar ou prevenir."

Havel acaba de ser homenageado pelo seu papel histórico, pelo combate pela liberdade e pela verdade, como cidadão europeu ou como teórico do "pós-totalitarismo". Foi um dos grandes pensadores políticos da segunda metade do século XX. Tem, no entanto, muitas vidas e vozes - do dramaturgo ao boémio, do político ao profeta. Tentou, ao longo de décadas, deixar-nos um aviso: não tomem nada como automaticamente garantido, pois a nossa civilização corre o risco de catástrofe. É o trabalho de Cassandra, o mais silenciado e o que aqui nos interessa.

Em Outubro de 2010, Vaclav Havel surpreendeu alguns jornalistas no discurso de abertura da 14ª Conferência do Forum 2000 em Praga: "Estamos a viver na primeira civilização global." Ela tem inúmeras vantagens e um grande inconveniente: cada perigo que nasce num ponto do mundo pode tornar-se numa ameaça global.

O escândalo vem na passagem seguinte: "Mas também vivemos na primeira civilização ateia, por outras palavras, numa civilização que perdeu a conexão com o infinito e a eternidade." Apontava-lhe dois efeitos. Primeiro, a preferência pelo ganho a curto prazo. "O que é importante é que um investimento seja rentável em dez ou 15 anos: o modo como afectará as vidas dos nossos descendentes dentro de cem anos é menos importante."

Segundo: o "orgulho", aquilo que os gregos denominavam por hubris, a "ideia arrogante de que conhecemos tudo e que aquilo que ignoramos depressa o descobriremos, porque vamos saber tudo". É a convicção de que o progresso da ciência, da tecnologia e do conhecimento racional em geral "induzem crescimento, mais crescimento e ainda mais crescimento, a começar pela dimensão das aglomerações" - o tema da conferência era a globalização, a urbanização e o planeta.

"Nós esquecemos o que as anteriores civilizações sabiam: nada é evidente por si mesmo. Penso que a recente crise financeira e económica é de extrema importância e constitui, na sua essência, um eloquente sinal para o mundo contemporâneo." Colheu-nos de surpresa. "É um aviso contra a desproporcionada autoconfiança e o orgulho da civilização moderna. (...) O comportamento humano não é totalmente explicável como muitos inventores de teorias e conceitos económicos acreditam. (...) Vejo a recente crise como um pequeno apelo à humildade. Como um pequeno desafio para que não tomemos nada como automaticamente garantido."

Havel suspeita que "a nossa civilização caminha para a catástrofe", a menos que corrija "a sua miopia e a sua estúpida convicção de omnisciência, o seu desmesurado orgulho".

Esta intervenção não encerra novidade, é um tema recorrente em Havel. "A minha principal preocupação não é o terrorismo", declarou em 2007 ao Nouvel Observateur. "É a dinâmica suicidária da evolução da nossa civilização planetária. É como se estivesse obstinada em perseguir objectivos de curto prazo, quando a sorte do planeta exige um mais agudo e voluntário sentido de antecipação."

"Pela primeira vez na História, assistimos ao desenvolvimento desenfreado de uma civilização deliberadamente ateia. Deve alarmar-nos. Quanto a mim, sou apenas meio crente, pois não adiro completamente nem a um único deus, nem a uma religião revelada. Tenho, no entanto, a certeza de que tudo no mundo não é apenas efeito do acaso. Estou convencido de que há um ser, uma força velada por um manto de mistério. E é o mistério que me fascina." Havel não propõe nem a conversão religiosa, nem o misticismo, sublinha a espiritualidade e a necessidade do sentido de transcendência: "A transcendência é a única alternativa real à extinção."

Preveniu no mesmo discurso de Stanford: "Sei que, ao dizer estas coisas, corro o risco de que um exército de cientistas e jornalistas me ponham o rótulo de místico que espalha opiniões obscurantistas. (...) O risco do ridículo é, no entanto, razão insuficiente para guardar silêncio sobre aquilo que considero ser verdadeiro."

É uma linha de pensamento que se filia no próprio passado de combate pela liberdade e pela verdade na Europa de Leste. Escrevia em 1984: "O maior erro que a Europa Ocidental poderia cometer seria não compreender os regimes pós-totalitários tal como eles são em última análise, isto é, um espelho deformador da civilização moderna no seu todo." A derrota do comunismo não resolveria por si a "doença" da civilização ocidental.

Sublinhava noutra entrevista de 2007: "O Ocidente democrático perdeu a capacidade de proteger e cultivar os valores que não cessa de reclamar como seus. (...) O pragmatismo dos políticos que querem ganhar eleições futuras, reconhecendo como suprema autoridade a vontade e os humores duma caprichosa sociedade de consumo, impede esses mesmos políticos de assumirem a dimensão moral, metafísica e trágica da sua própria linha de acção. (...) Uma nova divindade tende a suplantar o respeito pelo horizonte metafísico da vida humana: o ideal de uma produção e de um consumo incessantemente crescentes."

Havel falou muito de "antipolítica". O politólogo Jacques Rupnik, seu antigo conselheiro, anotou há dias no Monde: "A "antipolítica" remete para um défice de legitimidade da política. A política deve legitimar-se através de qualquer coisa que a transcenda, como valores éticos e espirituais. A dissidência [anticomunista] não tinha por ambição conquistar o poder e rejeitava a política como tecnologia do poder."

Este resumo da "profecia" de Havel é inevitavelmente redutor. O actual momento de crise, a generalização da insegurança, os conflitos no horizonte - e a experiência dos limites do "orgulho"- justificam a evocação de uma outra profecia feita em 1994: "Dada a sua fatal incorrigibilidade, a Humanidade terá provavelmente de atravessar muitos outros Ruanda e muitos outros Tchernobil antes de compreender quão incrivelmente míope pode ser um ser humano ao esquecer que não é Deus."

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

"O Rapto de Europa"

"O Rapto de Europa", de Nadir Afonso, na 1ª página do Diário de Notícias de hoje.

Europa era filha de Agenor, rei da Fenícia, e de Telefaassa. Zeus, metamorfoseado em touro, aproximou-se de Europa. Esta sentou-se sobre o seu dorso e deixou que ele a conduzisse, suave e vagarosamente, sobre a crista do mar. Quando se apercebeu, viu-se transportada a galope sobre as ondas. Chegados a Creta, Zeus consumou o seu amor por Europa. Dessa união nasceram três filhos: Minos (futuro rei de Creta), Radamanto e Sarpédon.


terça-feira, 27 de dezembro de 2011

O mau gosto americano

O bloco sanitário da cela ocupada por Saddam Hussein foi arrancada e transportada para os Estados Unidos, para vir a ser exibida num museu.
A notícia na CNN pode ser vista e ouvida aqui.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Estas guerras ditas humanitárias: Iraque

A onda de explosões que assolou hoje a capital iraquiana fez pelo menos 57 mortos e mais de 200 feridos, indicam responsáveis da área da saúde de Bagdade.
Notícia publicada no site do Expresso pode ser lida aqui.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Nós, as "gorduras"

Artigo de opinião de Manuel António Pina, publicado no Jornal de Notícias:
Primeiro foram os jovens desempregados a receber do secretário de Estado da Juventude guia de marcha para fora de Portugal; agora coube a vez aos professores, pela voz do próprio primeiro-ministro.
No caso dos professores, a coisa passa-se assim: o ministro Crato varre-os das escolas; depois, Passos Coelho aponta-lhes a porta de saída do país: emigrem, porque Angola e Brasil "têm uma grande necessidade (...) de mão-de-obra qualificada". Portugal (que é um dos países da Europa com mais baixos níveis de escolarização, segundo o Relatório do Desenvolvimento Humano de 2011, divulgado no mês passado pelo PNUD) não tem, como se sabe, necessidade de mão-de-obra qualificada.
E, como muito menos tem necessidade de mão-de-obra "desqualificada", ninguém se surpreenda se um dia destes vir o secretário de Estado do Emprego e o novo presidente do Instituto do Emprego e Formação (?) Profissional a mandar embora quem tiver como habilitações só o ensino básico; o ministro da Segurança Social a pôr na rua pensionistas e idosos (para que precisa Portugal de pensionistas e idosos, que apenas dão despesa?); o ministro da Saúde a dizer aos doentes que vão morrer longe, em países sem listas de espera e com taxas moderadoras em conta; o da Defesa a aconselhar os militares a desertar e ir para sítios onde haja guerras; e por aí adiante...
Percebe-se finalmente o que são as tais "gorduras do Estado": são os portugueses.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Como seria o mundo, hoje?

Cartoon de Chappatte, publicado no International Herald Tribune.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Quase uma notícia

Artigo de opinião de António Manuel Pina, publicado no JN de ontem:
Conta a Lusa que "o Tribunal da Relação de Coimbra condenou os proprietários de uma loja de Aveiro a pagar 6.500 euros a uma trabalhadora [na realidade ter-se-á tratado de uma coima] que obrigou a cumprir o horário laboral sentada virada para a parede e sem nada fazer".
A notícia adianta que a trabalhadora fora transferida para essa loja, a 70 quilómetros do seu anterior lugar de trabalho, sem precedência de qualquer processo disciplinar e que o acórdão concluiu que a gerência da loja colocou a trabalhadora na situação referida "com a intenção, declarada, de não lhe atribuir quaisquer funções", criando-lhe assim um "ambiente hostil e humilhante".
A notícia é, de facto, duas notícias: a da condenação da empresa e a do seu inqualificável comportamento, pormenorizadamente descrito. E igualmente uma quase-notícia: o nome da empresa (o "Quem?" da teoria clássica do jornalismo) é pudicamente omitido.
Talvez, quem sabe?, nem loja nem empresa tenham nome, ou talvez o seu nome não conste do acórdão "a que a Lusa hoje teve acesso". Ficam, pois, todos os "proprietário[s] de loja[s]" de Aveiro sob suspeita de assédio no local de trabalho. Ou talvez nem todos. Atrevo-me a admitir (mas eu sou um cínico) que a loja em questão não seja de ciganos, cabo-verdianos, paquistaneses ou chineses, casos em que o jornalismo (e não me refiro particularmente ao da Lusa) costuma ser menos pudico no que toca ao "Quem".