sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

A guerra do Iraque

O governo dos Estados Unidos anunciou nesta quinta-feira o encerramento formal da Guerra do Iraque, com a retirada dos últimos soldados do país e o final das operações que duraram quase nove anos e custaram milhares de vidas.
"A guerra do Iraque foi ilegítima. Foi uma conspiração imoral e criminosa. Não houve qualquer provocação, qualquer ligação à Al Qaeda, nem armas do Armagedão. As historietas de cumplicidade entre Saddam e Osama foram pura merda em self- service. Foi uma velha guerra colonial pelo petróleo, disfraçada em cruzada a favor da vida e da liberdade ocidentais, desencadeada por uma clique sedenta de guerra, formada por fantasistas geopolíticos judeo-cristãos, que ocuparam os meios de comunicação e exploraram a psicopatia norte-americana do 11 de Setembro." John Le Carré, Amigos até ao Fim.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Eleições na República Democrática do Congo (ex-Zaire), capital Kinshasa

Desenho de Glez, Burkina Faso (publicado no site do Courrier International)
Tradução do texto do desenho: Demon - Demónio
- De que horrível flagelo está a fugir?
- A Democracia ...
Brazzaville (capital da República do Congo) e Kinshasa ficam muito próximas.

Como resultado de um escrutínio marcado por irregularidades, o presidente cessante Joseph Kabila foi proclamado vencedor das presidenciais (48,95 %). O seu opositor Etienne Tshisekedi (32,33 %) respondeu autoproclamando-se também presidente. Notícia do Courrier International, intitulada "E agora: evitar a guerra", aqui.

domingo, 11 de dezembro de 2011

O Reino Unido não está solidário com a Europa

Desenho de Peter Schrank, publicado no "The Economist"

sábado, 10 de dezembro de 2011

Centro Carlos Santamaría


Centro Carlos Santamaría - Biblioteca y Centro de Documentación da Universidade do País Basco, em San Sebastián. Projecto do Arquitecto Ander Marquet Rya e da Arquitecta Técnica Juncal Aldamizechevarría González de Durana, ambos da Sociedade de Arquitectura JAAM.


quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

A indústria financeira britânica

Declarações de David Cameron:

«Quando for a Bruxelas, vou lá estar para defender e promover os interesses do Reino Unido. E, neste momento, esses interesses passam pela resolução dos problemas da Zona Euro que têm tido efeitos nefastos sobre a nossa economia».

E, prosseguiu, «isto significa obviamente que os países da Zona Euro têm de agir em conjunto. E se escolherem usar o tratado europeu para isso é óbvio que haverá salvaguardas e interesses britânicos nos quais vou insistir».

Fica então o aviso: «Eu não assinarei um tratado que não garanta essas salvaguardas, como a importância do mercado único ou o funcionamento dos serviços financeiros».

Notícia completa do site Agência Financeira aqui.

Segundo o "El País":
"Ante las insistentes amenazas del primer ministro británico, David Cameron, de vetar un acuerdo a 27 si no conseguía más poderes para proteger su industria financiera, la canciller alemana Angela Merkel casi descartó la posibilidad de llegar a un acuerdo a 27."

Os principais inimigos da Europa estão dentro da Europa.

Entre mortos e vivos

Excertos do artigo da autoria de Inês Pedrosa publicado na revista Ler de Dezembro de 2011.

“Safo-me razoavelmente bem do ritual de humilhação colectiva agora vigente em Portugal a que parece ser moda chamar “realidade”. Temo a loucura normal, feita de habituação ao infortúnio, acatamento e lobotomia. Vejo muita gente encolhida, escravizada ao discurso do dinheiro, encharcada em álcool, comprimidos ou trabalho (o trabalho transforma-se em droga dura) para não pensar que a vida é demasiado breve para ser a merda que nos querem fazer crer que ela é.* Os moralistas do papel almaço ressuscitam um salazarismo em versão Armani e ensinam aos filhos que o importante é a esperteza de serem ricos.”

“Portugal é demasiado velho para se tornar um puto neoliberal carregado do pestilento acne do individualismo triunfante. Já nem na América se usa este ambiente de bordel sem luxúria.”

“No livro da Tatiana**, a paixão acontece de repente e muda passado e futuro num sopro. É de facto assim mas poucos são capazes de ver. Atordoam-se. Organizam-se. Despedaçam-se no escuro. A luz assusta – poucos a distinguem, no carrossel dos néones. “O lume que acendia enchia a sua casa de fumo, não a iluminava de luz”, escreve Abelardo na História Calamitatum que é o relato, na primeira pessoa da sua vida. O amor por Heloísa perdeu-o e salvou-o, isto é, permitiu-lhe perceber a diferença entre as variedades da luz e do lume. E nada mais há para perceber nesta vida.”

* Sublinhado meu

** Dois Rios de Tatiana Salem Levy


Duas visões à procura de um compromisso

Por Teresa de Sousa
(artigo de opinião publicado no jornal Público de 4 de Dezembro de 2011)

A procura de um novo compromisso entre Paris e Berlim volta a estar no cerne do futuro e do destino da Europa

1. Na quinta e na sexta-feira o Presidente da França e a chanceler da Alemanha ofereceram-nos as respectivas visões desta crise, da forma de a superar e o caminho do futuro. Muito diferentes, não tenhamos dúvida. Mas com um ponto de partida comum: a crise abre uma nova fase da integração europeia. Muito diferente da anterior, iniciada em Maastricht quando se tratou de responder à "súbita aceleração da história" desencadeada pela implosão do império soviético e pelo fim da Europa de Ialta. Foram os termos dessa nova Europa que ambos traçaram nas linhas e nas entrelinhas das duas intervenções. Correspondem, como sempre aconteceu na história da integração europeia, a duas visões e duas sensibilidades distintas sobre o futuro da Europa. No passado, os dois países que estão no cerne da integração conseguiram encontrar sempre o compromisso entre essas duas visões. O euro é, precisamente, o resultado desse compromisso. E, porque se tratava precisamente de um compromisso, foi possível aos outros países reverem-se em boa medida nele. 

O desafio que hoje a Europa enfrenta é definir os termos desta nova fase. De uma maneira que resulte de uma negociação em cujo resultado todos, e não apenas a dupla franco-alemã, se possam rever.

Começam aqui os problemas.



2. Durante muito tempo, o compromisso entre Paris e Bona assentou numa ideia muito simples: a França liderava politicamente o projecto europeu; a Alemanha pagava a conta. O contrato durou enquanto havia duas Alemanhas e duas Europas e o mundo estava dependente do equilíbrio da guerra fria. Terminou no dia em que caiu o muro de Berlim e se iniciou o processo imparável da reunificação alemã. O euro nasceu porque o chanceler Helmut Kohl entendia que só poderia haver uma Alemanha unida dentro de uma Europa unida. Abdicar do poderoso marco era a prova exigida pela França para selar um novo acordo europeu. 

A França percebeu que julgava a sua última cartada para preservar o seu papel de liderança política. Mas basta recordar - é hoje conveniente recordar - o debate que rodeou o referendo convocado por François Mitterrand para ratificar Maastricht, em Setembro de 1992, para entender até que ponto antevia a sua perda de influência. O Presidente esteve quase a perdê-lo. O sentimento antigermânico contaminou a campanha. A História estava ainda demasiado presente e o futuro era demasiado incerto. O nascimento do euro e os seus primeiros dez anos de existência feliz provaram que Mitterrand e Kohl tinham razão. O problema de fundo sobre a liderança europeia não ficou resolvido. 

Regressa hoje em força. Em condições europeias e mundiais completamente diferentes. Depois de uma tremenda crise económica e financeira que voltou a "acelerar a História", revelando um mundo no qual o Ocidente deixou de ditar as regras do jogo - económicas e, cada vez mais, políticas. A Europa está de novo confrontada com o desafio de se adaptar às novas circunstâncias geopolíticas que alteram profundamente os dados da sua própria integração. A Alemanha emerge de novo como a potência central, disposta a assumir sem complexos o seu papel de liderança europeia. A França descobre as suas próprias fraquezas e procura controlar os danos. A procura de um novo compromisso entre Paris e Berlim volta a estar no cerne do futuro e do destino da Europa. 


3. Altura para voltar aos dois discursos de Sarkozy e de Merkel e ao esboço de compromisso que vai ter de ser negociado até ao final desta semana. O Presidente da França cedeu no essencial: a "Europa da estabilidade" que a chanceler exige e que quer dizer exactamente a perda de soberania orçamental dos países da zona euro e pesadas sanções políticas para quem infrinja as novas regras do jogo. Tudo inscrito nos tratados e sujeito a recurso para o Tribunal do Luxemburgo. De resto, para a chanceler, a resolução da crise será uma longa e penosa cura de austeridade (uma maratona) que um dia levará à convergência económica da zona euro, de acordo com o modelo alemão. Merkel aceita implicitamente uma intervenção limitada do BCE em caso de emergência financeira. Não aceita nada que alivie a pressão sobre os Governos dos países em extrema dificuldade nem a co-responsabilização pela dívida soberana dos países-membros (ou talvez a aceite ao quilómetro 42 e para quem, entretanto, não morreu no caminho). Chega para salvar o euro? Ninguém sabe. 

Nicolas Sarkozy aceita o início de um novo "ciclo de desendividamento", ou seja, de austeridade e reformas. Não pode ceder sem luta na soberania orçamental da França. Como ele próprio explica, os dois países têm duas culturas políticas muito diferentes. Segundo a boa tradição gaullista, qualquer reforma dos tratados tem de colocar nas mãos dos Estados (e não das instituições europeias) o controlo da "união orçamental". É a velha tese de Jacques Chirac sobre uma "vanguarda" do euro, organizada fora dos tratados e das instituições europeias. Por isso, Sarkozy quer um novo tratado a 17, negociado a 17, enquanto Merkel entende que esta é apenas a "segunda melhor solução" A primeira é uma revisão dos tratados aceite pelos 27. Qualquer reforma passará por um compromisso entre estas duas visões tradicionais dos dois países. Mas é aqui que os outros deixam de ser figurantes e têm uma palavra a dizer. De Portugal à Itália. 


4. O Presidente francês tentou apaziguar as reacções internas, cobrindo a fraqueza da França com a importância história da relação franco-alemã e com a salvação da Europa. As reacções não se fizeram esperar e são perigosas. O velho antigermanismo que contaminou o debate de Maastricht está a ressurgir em força. E não está limitado às franjas nacionalistas, à direita e à esquerda - atravessa o Partido Socialista. Manifestou-se de forma virulenta na reacção ao discurso de Toulon. Arnauld Montbourg, o muito popular líder da ala esquerda do PS, compara Merkel a Bismark e Sarkozy a Daladier. Outras facções socialistas limitam-se a explorar a "fraqueza" do Presidente diante da chanceler. Mas o vírus ameaça transformar-se numa arma eleitoral. Nada seria pior. 

Por alguma razão Angela Merkel sentiu necessidade de dedicar parte do seu discurso no Bundestag a afastar a ideia de que a Alemanha está a impor o seu diktat aos parceiros europeus. Não chegam as palavras. A sua surda intransigência na resolução da crise do euro, somada a uma confrangedora falta de visão, têm contribuído muito para alimentar um sentimento antialemão que se propaga muito além da França. Frank-Walter Steinmeir, líder parlamentar do SPD e vice-chanceler da anterior coligação da CDU da chanceler com os sociais-democratas, denunciou-a no Bundestag, acusando Merkel de estar a alienar "até os nossos vizinhos mais próximos". 

A Alemanha está a dividir a Europa em vez de conseguir uni-la. E isto também é perigoso. 

Sarkozy fala de urgência, de solidariedade e de Europa, mas tem actuado sobretudo para salvaguardar os interesses da França. Merkel não percebe o risco de separar o interesse alemão do interesse europeu e deixou isolar a Alemanha. Ambos conseguiram desacreditar a aliança franco-alemã, quando ela era tão indispensável como sempre foi. 


5. A Europa tem cinco dias para encontrar um acordo que consiga acalmar os mercados, abrir as portas para uma negociação dos tratados e oferecer aos europeus, incluindo aqueles que estão hoje a sofrer as penas da austeridade, uma perspectiva de futuro. Há um debate que falta fazer sobre o modelo europeu e que vai exigir decisões políticas muito difíceis. Felipe González resumiu-o logo no início da crise financeira mais ou menos por estas palavras: o Ocidente passou os últimos 30 anos a gastar e os outros a poupar; chegou o momento de ter de fazer o contrário. Esta é uma verdade inquestionável que não dispensa uma outra: o endividamento europeu apenas se tornará sustentável quando a Europa conseguir regressar ao crescimento. É aqui que a Alemanha não tem qualquer pensamento ou que a França só vê o caminho do proteccionismo contra a globalização. É aqui que falta também um novo consenso sem o qual as reformas legais e as "uniões orçamentais" podem ter a vida curta. 

Ninguém sabe se a Europa conseguirá um acordo suficientemente claro e ambicioso no final da semana para poder respirar fundo. Há uma panóplia de possibilidades que ainda podem desencadear uma catástrofe. O Financial Times enumerava algumas. Um grande banco que vá à falência, uma corrida aos depósitos num qualquer país, uma escalada nos juros da dívida soberana. E um enorme descrédito na capacidade dos líderes europeus de se erguerem à altura da situação. Mas já é bom que se parta das diferenças entre Paris e Berlim em vez de se fingir um entendimento que nunca existiu.