quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Idolatria do dinheiro e espírito cristão

Por Frei Bento Domingues
(artigo de opinião publicado no jornal Público de 4 de Dezembro de 2011)

O sonho dos fundadores da UE não era a constituição de um império, nem de uma relação de dominadores e dominados

1. Ninguém pode viver só com dúvidas. Bastam as que favorecem o espírito crítico, vigilante perante a propaganda e as pseudo-evidências. As certezas, para serem saudáveis, precisam de abrigar interrogações que as não deixem estabelecer-se como definitivas e irreformáveis.

 Isto nada tem a ver com o relativismo como sistema. É apenas o reconhecimento da condição humana, limitada, falível, atraída pelo Absoluto. Quando no filme de Nanni Moretti Habemus Papam, o eleito dos cardeais, assaltado pela dúvida, foge aos que o desejam aclamar na Praça de S. Pedro, o cineasta humanizou o papel do Papa envolto numa fantasmagoria que o isola do contacto com a vida da gente comum. Por outro lado, ter respostas antes das perguntas, soluções antes dos problemas, favorece o imobilismo. As inevitáveis surpresas serão recebidas como ameaças à boa doutrina. Nanni Moretti tem alguns motivos para dizer que o seu filme é um presente que faz à Igreja. Um presente cheio de humor, sem cedências à vulgaridade. 

O mundo das "verdades reveladas" não é um exclusivo do Vaticano. Hoje, no meio dos ruídos sobre o presente e o futuro da UE, decreta-se, com a exibição de números assustadores, que não há alternativas nem correctivos a programas que, em nome de um futuro fictício, tornam o presente insuportável. A insistência em que não há alternativa é uma conhecida retórica para matar qualquer possibilidade de discussão séria e de diálogo profundo e frutuoso. É a linguagem da imposição, de criados obedientes às ordens da especulação financeira e dos seus tutores, das sempre invocadas exigências dos mercados. Os seus interesses são sagrados, intocáveis. Eles são os novos deuses. É preciso conquistar-lhes a confiança. Sacrificar tudo nos seus altares. As agências de rating dizem quem cometeu sacrilégios, quem pecou mortalmente. É preciso confessar-lhe todos os pecados passados, mostrar arrependimento, prometer cumprir a penitência imposta. Depois disso ainda podemos continuar a não passar de lixo.


2. O sonho dos fundadores da UE não era a constituição de um império nem de uma relação de dominadores e dominados. Conseguiram, por isso, 60 anos de paz, de desenvolvimento e de qualidade de vida, como nunca tinha acontecido na Europa. Entrar para a UE era o passaporte para um mundo de possível prosperidade, espantosamente alargado com a queda do Muro de Berlim.

 Que aconteceu à União Europeia para que depois de um casamento auspicioso cresçam as vozes anunciando um divórcio ruinoso ou a ameaça de um futuro da União a várias velocidades? A alma da Europa tem de ser a de um por todos e todos por um, implicando tanto os mais fortes como os mais débeis, cada um segundo o seu talento. A relação de dominadores e dominados só pode produzir desconfiança mútua.

 Neste momento, duvida-se de tudo e está tudo posto em causa, a começar pelo projecto social europeu. Seria importante corrigir o que deve ser corrigido, mas sem esquecer o que levou anos e anos a construir.


3. Que podem fazer os cristãos por uma Europa que seja de acolhimento dos seus membros e aberta a todos os povos? A concepção cristã da vida pode encarnar-se em qualquer povo e cultura. Em Jesus Cristo são derrubados os muros da separação. Ele não é mais de um povo do que de outro. Lembremos, no entanto, o seguinte: a hierarquia da Igreja tem insistido que, sem as raízes cristãs, a Europa é incompreensível. João Paulo II multiplicou os pedidos de perdão pela infidelidade dos cristãos ao Espírito de Cristo, que nos lembra: não podeis servir a Deus e ao dinheiro.

 Espero que nas dioceses de Portugal e em muitos países da Europa surjam iniciativas semelhantes às do bispo de Viseu. Pediu aos padres da sua diocese para repartirem uma fatia do subsídio de Natal em favor do fundo de solidariedade diocesano, esgotado pelo aumento dos pedidos das famílias em dificuldades. Esclareceu que a receita será, de imediato, entregue ao Secretariado Diocesano da Pastoral Social, através da Cáritas Diocesana, contribuindo para que haja Natal nas pessoas e nas famílias da sua diocese. Pede também o contributo financeiro dos restantes cristãos da Igreja viseense.

 É uma atitude verdadeiramente eclesial. O bispo aparece com o clero, para darem o exemplo, não para impor, mas para solicitar a participação de toda a Igreja local. De facto, para os cristãos é bispo, com eles é cristão, segundo a boa eclesiologia de St.º Agostinho. 

Estes gestos de partilha são fundamentais e insubstituíveis. Brotam do coração perante as urgências imediatas. Não podem, no entanto, substituir o que pertence à acção política, o cuidado do bem comum de todos os cidadãos, seja a nível local, a nível europeu ou global. Muitas vezes, reduzimos a responsabilidade cristã às relações curtas, à caridade entendida como socorro imediato. É um erro. O próprio Pio XII falava de caridade política, do amor que recorre às mediações longas, que tende a influenciar e assumir responsabilidades públicas. A UE deve muito aos sonhos e aos trabalhos de dirigentes cristãos, de mãos dadas com outros dirigentes políticos no pós-guerra. A pergunta que é preciso fazer é esta: e agora?

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Rússia e China pedem ao Irão acesso ao avião americano derrubado

Notícia no jornal peruano La Republica:

"Rusia y China han pedido autorización a Irán para inspeccionar el avión espía no tripulado RQ-170 "Sentinel" de EEUU que se encuentra en poder del país musulmán, informó la agencia iraní Mehr, que cita una fuente militar que no identifica.
La agencia también señala: "Según informaciones no confirmadas, Irán podría exponer públicamente el avión no tripulado", considerado uno de los más avanzados producidos por EEUU y dedicado a labores de observación, espionaje y operaciones electrónicas.
El pasado domingo, Irán anunció el derribo de un avión estadounidense de reconocimiento no tripulado en la zona oriental del país, del modelo RQ 170 "Sentinel", que había violado el espacio aéreo iraní.
Fuentes militares dijeron que, tras su derribo, el aparato no sufrió graves daños y quedó en manos de las Fuerzas Armadas de Irán.
Medios internacionales señalaron posteriormente que EEUU y la OTAN habían admitido la pérdida de uno de estos aviones no tripulados en el oeste de Afganistán, en la zona fronteriza con Irán, y que Washington estaba preocupado por que su tecnología fuese obtenida por los iraníes y otros países."

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Christina Rossetti

Christina Rossetti fotografada por Lewis Carroll

A BIRTHDAY, de Christina Rossetti (1830-1894)

My heart is like a singing bird
Whose nest is in a water'd shoot;
My heart is like an apple-tree
Whose boughs are bent with thick-set fruit;
My heart is like a rainbow shell
That paddles in a halcyon sea;
My heart is gladder than all these,
Because my love is come to me.

Raise me a daïs of silk and down;
Hang it with vair and purple dyes;
Carve it in doves and pomegranates,
And peacocks with a hundred eyes;
Work it in gold and silver grapes,
In leaves and silver fleurs-de-lys;
Because the birthday of my life
Is come, my love is come to me.

O poema pode ser ouvido
aqui, lido por Stella Gonet.

O poema traduzido por Margarida Vale de Gato:

UM ANIVERSÁRIO

Meu coração é um pássaro cantante
Cujo ninho é um rebento orvalhado;
Meu coração é uma macieira
Vergando o tronco de frutos pesado;
Meu coração é um búzio irisado
Vogando na corrente com langor;
Meu coração mais que tudo se alegra
Porque a meus braços chegou meu amor.

Dai-me um dossel tingido de cor roxa;
De seda debruada de mil folhos;
Bordai nele romãs, pombos alados,
Pavões com caudas de mais de cem olhos;
Ornai-o de uvas, de rubis e prata,
Folhas douradas, pomares em flor;
Porque hoje é dia que nasce m'nha vida,
Hoje a meus braços chegou meu amor
.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Manuel de Arriaga

"Hei-de morrer pobre, hei-de morrer tão descrente dos homens quão crente nos princípios que sigo; hei-de morrer vencido e cansado, mas hei-de ter a consolação de que por cima da minha sepultura pode dizer-se:
"Aqui jaz um homem que não explorou ninguém e que antes por alguns foi explorado""
Manuel de Arriaga, A questão do Lunda, 1891
(sublinhado meu)

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Estas guerras ditas humanitárias

Tout commence souvent par des images : une femme qui fuit un bombardement en emportant un bébé dans ses bras, des cadavres étalés devant les caméras de télévision, le visage d’un dictateur qui menace. Viennent ensuite les mots entrelardés de chiffres alarmistes : dans la bouche des intellectuels ou sous la plume des éditorialistes, ils exhortent la « communauté internationale » à agir pour « éviter l’irréparable ». Une guerre de propagande obscurcit alors le dialogue diplomatique, tandis que monte la pression de l’urgence, l’appel des uns à éliminer un « nouvel Hitler » (Saddam Hussein, Slobodan Milosevic, Mouammar Kadhafi...) répondant à la dénonciation de l’impérialisme des grandes puissances par les autres.

Parfois, les crimes dénoncés sont réels, parfois exagérés ou carrément imaginaires. Souvent, ils ne constituent que des prétextes dans le jeu des puissances qui s’abritent derrière les organisations internationales. Les pays dominants cherchent à marquer des points sur l’échiquier géoéconomique mondial, à liquider un dirigeant peu accommodant… Les bonnes intentions donnent souvent de mauvaises idées, disait Machiavel. Alors comment s’y retrouver ? Sans doute en feuilletant les pages de l’histoire récente qui fournissent maints exemples des pièges tendus à la conscience. Les étudier permet de repenser la nécessaire prévention des conflits.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Haruki Murakami

" Whether in music or in fiction, the most basic thing is rhythm. Your style needs to have good, natural, steady rhythm, or people won’t keep reading your work. I learned the importance of rhythm from music — and mainly from jazz. Next comes melody — which, in literature, means the appropriate arrangement of the words to match the rhythm. If the way the words fit the rhythm is smooth and beautiful, you can’t ask for anything more. Next is harmony — the internal mental sounds that support the words. Then comes the part I like best: free improvisation. Through some special channel, the story comes welling out freely from inside. All I have to do is get into the flow. Finally comes what may be the most important thing: that high you experience upon completing a work — upon ending your “performance” and feeling you have succeeded in reaching a place that is new and meaningful. And if all goes well, you get to share that sense of elevation with your readers (your audience). That is a marvelous culmination that can be achieved in no other way.
Practically everything I know about writing, then, I learned from music. It may sound paradoxical to say so, but if I had not been so obsessed with music, I might not have become a novelist. Even now, almost 30 years later, I continue to learn a great deal about writing from good music. My style is as deeply influenced by Charlie Parker’s repeated freewheeling riffs, say, as by F. Scott Fitzgerald’s elegantly flowing prose. And I still take the quality of continual self-renewal in Miles Davis’s music as a literary model."
(Parte de um ensaio de Haruki Murakami. O texto completo pode ser encontrado aqui)

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Noam Chomsky

Noam Chomsky é um linguista, filósofo e activista político. É professor de Linguística do MIT. É judeu e cidadão dos E.U.A. Em 2010, Israel impediu a sua entrada no país. A notícia está aqui.
Participou activamente no Fórum Social Mundial em Porto Alegre, em 2003.
No YouTube estão disponíveis muitos vídeos de conferências dadas por si.
Muito interessantes estas duas: