domingo, 24 de julho de 2011

O amor é meu pastor, nada me faltará

“... O dom da fé não nos é dado a todos do mesmo modo nem se esgota no formato de um Deus mais ou menos escanhoado; cada um de nós tem a possibilidade de escolher entre o amor que acende o mundo e o ódio que o apaga.

Dir-me-ão que nada é tão simples – e não é, de facto, porque escolher o amor significa perder o direito ao conforto da cobardia, prescindir da segurança dos caminhos previamente traçados, estar disponível para merecer a felicidade, isto é, enfrentar de olhos abertos os obstáculos, a dor, a mudança. (...)

Num mundo que celebra e louva a desatenção, a corrida bárbara para lugar nenhum, ...

‘Aceitação’ é outra palavra caída em desuso porque, na voragem em que escolhemos des-existir, a confundimos com resignação ou desistência – e é rigorosamente o seu contrario: só pode aceitar o que a vida lhe apresenta quem sabe quem é e o que quer.

...acordarei feliz nas mais árduas manhãs, dizendo: o amor é meu pastor, nada me faltará”

Estes são excertos da crónica de Inês Pedrosa publicada no jornal Sol de 22 de Julho. O texto foi escrito a propósito da morte de Maria José Nogueira Pinto e das últimas palavras da sua crónica de despedida: "O Senhor é meu pastor, nada me faltará".

Où est passé l'avenir?

Pergunta: Retomando uma questão que serviu de título a um dos seus livros: “Où est passé l’avenir?”

Resposta: No pequeno livro a que se refere, esse título remetia para o facto de já não ousarmos falar do futuro. Depois das grandes utopias do século XIX, não nos atrevemos a fazer esse tipo de projeções. Talvez a última grande narrativa seja a narrativa liberal, de Fukuyama, essa ideia de que a combinação do mercado liberal com a democracia representativa é uma fórmula que triunfou por todo o lado e se tornou indiscutível. Mas não é verdade, há países que pertencem a este mercado mas não democráticos. E, alem disso, a perspetiva que temos hoje permite-nos perceber que as coisas não vão necessariamente no sentido de uma democracia generalizada, mas no sentido de uma oligarquia planetária. É talvez por isso que perdemos a possibilidade de falar do futuro. E a nossa consciência atual de que o planeta é uma pequeníssima coisa num universo de uma grandeza que nem sequer conseguimos conceber provoca-nos muito mais a angústia pascalina dos espaços infinitos do que a vontade de imaginar o futuro.

(extracto da entrevista a Marc Augé publicada no suplemento Atual do Expresso de 23 de Julho)

sábado, 23 de julho de 2011

Maria João Pires

Hoje, é o dia do aniversário de Maria João Pires. Muitos parabéns! Tenho por ela uma grande admiração. Só a sua grande sensibilidade e uma total entrega interpretativa permitem as suas admiráveis interpretações. Há dias, Maria João Pires deu uma entrevista ao jornal El País e disse que tenciona retirar-se dos palcos em 2014, quando completar 70 anos. Confessou que o realizador que prefere é Akira Kurosawa e, às vezes, também gosta de Woody Allen. Conta ainda Inés Vila, que assina o artigo, que: “Maria João Pires começou a tocar piano de ouvido. Um professor ia a sua casa dar aulas à sua irmã e quando se ia embora, Maria João Pires dirigia-se ao piano e reproduzia as partituras de memória. Tinha três anos.” Segundo o El País, Maria João Pires é considerada por muitos como a melhor pianista do mundo.

É incrível a energia que existe dentro daquele corpo frágil com um metro e meio de altura e de uma extrema magreza. Segundo Maria João Pires: “A chave de uma interpretação está em combinar leveza com temperamento".

Há talvez sete anos passei um fim de semana em Belgais. Fiquei numa suite magnífica com a lareira acesa, mesmo aos pés da cama, com piano de cauda – absolutamente inútil para mim – uma estante cheia de livros – ainda tive oportunidade de folhear alguns. O quarto tinha uns tecidos indianos estendidos, o que ajudava a obter um ambiente quente e acolhedor. À noite, foi servido um chá, biscoitos e fruta no quarto. Na manhã seguinte, tomámos o pequeno almoço na sala de jantar, numa mesa única, em conjunto com as outras pessoas que estavam alojadas em Belgais, também com Maria João Pires que foi uma anfitriã exemplar. Fez com que nos sentíssemos em família.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Alex Steinweiss

Alex Steinweiss (24 de Março de 1917 - 18 de Julho de 2011) inventou, em 1940, as capas dos discos de vinil que, até aí, eram vendidos dentro de envelopes pardos. Nessa altura, os discos rodavam à velocidade de 78 rotações por minuto. Devemos-lhe belos desenhos que tornaram os discos de vinil um produto muito mais apetecível. São inúmeros os desenhos da sua autoria, principalmente durante os anos 40. Também foi ele o criador do logotipo Lp.
Em Março passado a Taschen editou um livro sobre a sua obra: "Alex Steinweiss: The Inventor of the Modern Album Cover".
Merece a homenagem de todos os amantes do belo.

Literatura e pintura

Con qué artista asocias a tu escritor favorito?

Por: Winston Manrique Sabogal


Imagen: Cinco bañistas, de Paul Cézanne.

¿Si Ernest Hemingway quería ser una especie de Cézanne de la literatura, es decir, escribir con la fuerza y la técnica pictórica del gran artista francés del postimpresionismo, y creo que lo logró en muchas de sus obras, a qué artista le hubiera gustado parecerse digamos a Homero, a Shakespeare, a Cervantes, a Austen, a Proust o a Woolf?

Como es muy difícil saber la respuesta, se me ha ocurrido proponer un ejercicio de sinestesia literaria-artística con la siguiente pregunta: ¿Con qué artista podríamos asociar u homologar a escritores como Tólstoi, Fitzgerald, Joyce, García Márquez, Mishima, James, Kawabata, Pound, Balzac, Dostoievski, Yourcenar, Morrison, Marías, Byron, Stendhal, Brontë, McCarthy, Lorca, Pavese, Mann, Faulkner o al autor que queramos?

Todo esto viene a cuento porque el sábado pasado el autor irlandés Colm Tóibín escribió para Babelia un magnífico y esclarecedor artículo sobre el poder subterráneo de la literatura de Hemingway, a propósito de los 50 años de su muerte el pasado 2 de julio. La pieza de Tóibín es contundente y seductora desde la primera línea: "En un fragmento eliminado de su relato El gran río de los dos corazones, Ernest Hemingway escribía a propósito de su alter ego: "Quería escribir como pintaba Cézanne. Cézanne empezaba por emplear todos los trucos. Luego lo descomponía todo y construía la obra de verdad. Era un infierno... Quería... escribir sobre el campo de forma que quedase plasmado como había conseguido Cézanne con su pintura... Le parecía casi un deber sagrado".

Pues bien, como ya les decía, esa aspiración del Nobel estadounidense me ha llevado a pensar y a invitarles a ustedes a participar del juego del que hablaba hace un momento: "Fulanito quería escribir como pintaba Menganito", bajo la siguiente pregunta: ¿Con qué artista asocias a determinado escritor? La idea revolotea en mi imaginación, me entusiasma, pienso... recurro a la complicidad de mi biblioteca para ver si al leer algunos nombres me asalta el nombre de un artista... No hay nada claro... Pienso en un escritor concreto y recorro en mi memoria y recuerdos a varios artistas... Difícil... Invierto el orden, y pienso en un artista y trato de relacionarlo con un escritor... Más difícil aún. Después de un buen rato doy con una pareja para abrir este ejercicio literario-artístico: Jane Austen con Fragonard y García Márquez con Rubens, más abajo explico por qué.

¿Cuáles serían tus propuestas y sinestesias entre escritores y artistas?

Para mí, por ejemplo, Jane Austen me recuerda a Fragonard:

La autora de Orgullo y prejuicio podría ser un Fragonard por la delicadeza de la pincelada, la riqueza en los detalles y la manera como extiende los colores y sombras sobre las superficies; además de sus escenas ansiosas de atención, de sus personajes anhelantes de amor y pasión, como los de la propia Austen. Y está esa aparente serenidad de Fragonard en la que se esconden deseos bajo una luz que enmascara los matices de la condición humana en cuanto a sentimientos y emociones que tan bien plasmó Austen. (El cuadro es Carta de amor, de Fragonard).

En cambio, Gabriel García Márquez puede ser para mí un Rubens:

La relación del Nobel colombiano por el pintor flamenco la encuentro en la vitalidad de la pintura, la fuerza del movimiento de sus personajes y del cuadro en general; por la vida que bulle y palpita en ellos, donde nunca hay nada quieto, inmóvil, y en muchos de ellos suceden varias cosas a la vez, y cada fragmento está en un sólo instante en que algo acaba de suceder y va directo a su destino. Sugiere pasado y futuro. ¡Ah!, y el color, la picardía (En la imagen Danza de los aldeanos, Rubens).

¿Y Shakespeare? ¿Y Homero? No dejo de pensar en ellos, en estos dos escritores Big bang de la literatura y la imaginación, en tratar de relacionarlos con algún artista...

Ahora, ustedes tienen la palabra para continuar este ejercicio de sinestesia literaria-artística...

domingo, 17 de julho de 2011

Piscinas camufladas

Um dos motivos que faz com que eu ainda compre o Expresso é a crónica de José Cutileiro que leio sempre com muito interesse. A que foi publicada ontem começa assim:

"Floresce em Atenas o fabrico de coberturas de piscina camufladas que parecem, vistas do ar, um bocado de jardim. Vendem-se bem desde que helicópteros do fisco sobrevoam o campo grego à procura de sinais exteriores de riqueza. Nas paisagens míticas de Maratona, das Termópilas, de Delfos não há crise da União Europeia que trave a luta de quem deva pagar impostos contra quem os manda cobrar."

Transcrevo este texto não para evidenciar que os gregos são muito piores do que nós. Sei que nós e os gregos somos, culturalmente, feitos da mesma massa. Em circunstâncias idênticas estou convencido de que também aqui floresceria esse negócio.

Também não o transcrevo numa atitude moralista e recriminatória.

Transcrevo porque o descrito caracteriza bem a atitude perante as instituições das sociedades do Sul da Europa que não foram influenciadas pelas ideias de Martinho Lutero.

A diferença entre esta atitude e a dos países do Centro e do Norte da Europa é uma das dificuldades para a concretização da Europa Unida. Termos consciência dessa diferença é já um passo no sentido de que ela seja atenuada.

Vejamos a questão da pontualidade. Estou na Universidade de Évora há 17 anos e noto uma diferença abissal no que diz respeito ao cumprimento de horários de início das reuniões: há 17 anos as reuniões começavam, no mínimo, com meia hora de atraso e, actualmente, há muitas reuniões que começam à hora marcada. Outra questão: o acto de atirar lixo para a via pública. Antigamente eram os estrangeiros que se admiravam com a sujidade das ruas das nossas cidades. Agora somos nós que nos admiramos com a sujidade que encontramos em muitas cidades fora da Europa que visitamos.

Por isso, a nossa atitude perante o fisco não é uma fatalidade cultural. O que é tradição hoje, deixa de ser admissível amanhã.

Já Luís de Camões o tinha constatado ao escrever:

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o Mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

Hemingway

Foto de Robert Capa

Texto da autoria de COLM TÓIBÍN, publicado no El País de ontem:

Secretos de Hemingway

En un fragmento eliminado de su relato El gran río de los dos corazones, Ernest Hemingway escribía a propósito de su alter ego: "Quería escribir como pintaba Cézanne. Cézanne empezaba por emplear todos los trucos. Luego lo descomponía todo y construía la obra de verdad. Era un infierno... Quería... escribir sobre el campo de forma que quedase plasmado como había conseguido Cézanne con su pintura... Le parecía casi un deber sagrado". En su remembranza de sus primeros años en París, París era una fiesta, Hemingway escribió también sobre la influencia que había tenido en él el pintor francés cuando estaba aprendiendo su oficio: "Estaba aprendiendo de la pintura de Cézanne algo que hacía que escribir simples frases verdaderas no fuera suficiente, ni mucho menos, para dar a los relatos las dimensiones que yo quería darles. No sabía expresarme lo bastante bien como para explicárselo a nadie. Además, era un secreto".

La idea de que, al escribir prosa, lo que se deja fuera es más importante que lo que se incluye inspiró de forma esencial el método de Hemingway

El secreto estaba en las pinceladas de Cézanne, cada una abierta y de textura visible, con repeticiones y variaciones sutiles, cada una llena de algo parecido a la emoción, pero una emoción profundamente controlada. Cada pincelada trataba de captar la mirada y retenerla y, al mismo tiempo, construir una obra más amplia, en la que había riqueza y densidad, pero también mucho de misterioso y oculto. Eso es lo que Hemingway quería hacer con sus frases. Después de contemplar la obra de Cézanne por primera vez en Chicago, luego en los museos de París y en casa de su amiga Gertrude Stein, lo que deseaba era seguir el ejemplo de esta última y escribir frases y párrafos a primera vista simples, llenos de repeticiones y variaciones extrañas, cargados de una especie de electricidad oculta, llenos de una emoción que el lector no podía encontrar en las propias palabras, porque parecía vivir en el espacio entre ellas o en los repentinos finales de algunos párrafos determinados.

Así, en París era una fiesta, Hemingway pudo escribir: "Pero París era una ciudad muy antigua y nosotros éramos jóvenes y nada era fácil, ni siquiera la pobreza, ni el dinero repentino, ni la luz de la luna, ni el bien y el mal, ni la respiración de la persona que yacía junto a ti bajo la luna". En esa frase consigue manifestar muy poco pero sugerir mucho; en el original inglés, de las 41 palabras, 27 son monosílabas. Eso hace que el lector se sienta cómodo, como si se estuviera diciendo algo sencillo. Sin embargo, está claro, por la puntuación y las variaciones de la redacción, que nada era fácil, sino que era, en gran parte, ambiguo y casi doloroso. En vez de decirlo, Hemingway logra ofrecer la impresión, alivia al lector con la dicción pero luego le sacude con los cambios de tono y significado dentro de cada oración.

La teoría es dejar que el escritor sienta y plasme ese sentimiento en la prosa, lo entierre en los espacios en blanco entre las palabras o entre los párrafos. Así el lector lo siente con más intensidad, porque no le llega como mera información, sino como algo mucho más poderoso. Le llega como ritmo, y le llega con tanta sutileza que la imaginación del lector se dedica por completo a capturarlo con toda su incertidumbre y su peculiaridad. Es decir, tiene un efecto más próximo al de la música, aunque las palabras conservan su significado. Contrapone la estabilidad de significado al misterio del sonido silencioso.

Esta idea de que, al escribir prosa, lo que se deja fuera es más importante que lo que se incluye inspiró de forma esencial el método de Hemingway como novelista y autor de relatos, hasta tal punto que algunas de sus obras posteriores parecen parodias de ese método, o una elaboración demasiado abierta del sistema que había desarrollado. Ahora bien, en sus mejores ejemplos, el sistema podía obrar milagros.

Hace unos años, cuando trabajaba en la biblioteca de la Universidad de Virginia, encontré un guión cinematográfico de la primera novela de Hemingway, Fiesta, escrito por un guionista profesional al que odiaba. En los márgenes hay insultos escritos por el novelista, al que indignó especialmente que el guionista tratase de insinuar que Jake, el protagonista de la novela, era impotente debido a causas psicológicas. Hemingway explicó de manera enfática que a Jake le habían disparado en los testículos durante la guerra, un suceso que, según escribió, él había visto producirse en varias ocasiones.

Sin embargo, en el propio texto de la novela no lo deja claro. Aunque está implícito, también nos deja margen para creer que Jake tiene algún problema psicosexual que le hace impotente. Tal vez ocurrió en la guerra, se sugiere, pero quizá fue psicológico.

La novela transcurre en el tiempo presente. Nos ofrece pistas e insinuaciones sobre hechos del pasado, sobre quién es Jake y de dónde viene. Pero la mayor parte de su pasado se queda fuera, lo cual otorga profundidad a las acciones actuales. Tampoco hay una descripción de Jake, y eso significa que leer el libro es un intenso acto de imaginación, de llenar las lagunas, que queda reflejado en la propia prosa. La redacción, a primera vista, es sencilla, con cortas frases afirmativas. Hemingway quería conseguir en su obra lo que había conseguido Cézanne en sus cuadros, algo denso, que atrajera la mirada y la imaginación, empleando un método que parece dejar muchas cosas fuera y una técnica que parece abierta y sencilla, pero con un resultado que puede contener no sólo una impresión, sino una cantidad infinita de emoción.

Colm Tóibín tem os seguintes livros publicados em português: Mães e Filhos, Brooklyn e O Mestre. The Empty Family é o seu último livro.