
sábado, 16 de julho de 2011
Ricardo Bak Gordon

Que crise é esta?

Neste momento, Portugal está sensivelmente como estava a Grécia há um ano. A Espanha está como Portugal estava há um ano. A Itália e a Bélgica estão logo a seguir e a Irlanda está lá pelo meio. O que é que se está a passar? Comecemos com a situação em Portugal.
No dia seguinte à sua vitória eleitoral, Passos Coelho declarou à Reuters: ”Governo pode ir além das medidas da troika”. Constituído o governo, o seu programa foi discutido na Assembleia da República e, logo a seguir, acontece o “murro no estômago”: a agência Moody’s cortou o rating de Portugal em quatro níveis. O programa de governo não tranquilizou os mercados. A situação tem algo de patético: os acólitos dos mercados revoltaram-se por verem a sua confiança (nos mercados) traída. Levantou-se um coro de vozes diabolizando a Moody’s. Vale a pena lembrar que aquele que nunca se engana e que raramente tem dúvidas tinha afirmado, há uns meses, que “não vale a pena recriminar as agências de rating”. Concordo. O que é preciso é fazer o diagnóstico da situação e definir a terapêutica adequada. Está a haver uma crise de confiança nas economias mais débeis da zona euro. As agências de notação ao baixarem o rating de um país, estão a transmitir que existe um maior risco desse mesmo país não cumprir os compromissos assumidos perante os seus credores. Se o risco de incumprimento for muito grande, o preço do dinheiro será muito elevado. Portugal precisa de se financiar, em primeiro lugar para fazer face ao défice da sua balança comercial. De facto, Portugal importa muito mais do que aquilo que exporta e precisa de dinheiro para compensar esse défice. Então, o essencial da solução consiste em exportar mais e importar menos. Vivemos numa economia aberta e ninguém, actualmente, defende (creio eu) uma política proteccionista que se poderia sintetizar como uma atitude de “orgulhosamente sós”.
Em Março passado, Paul Krugman, Prémio Nobel da Economia, escreveu que Portugal cometia um erro ao reduzir a despesa pública quando existe um desemprego elevado. Segundo ele, "a estratégia correcta seria (criar) empregos agora, (reduzir) défices depois".
Krugman entendia que estão errados "os advogados da austeridade que prevêem que os cortes da despesa trarão dividendos rápidos na forma de uma confiança crescente e que terão pouco, se algum, efeito adverso no crescimento e no emprego".
Justificou a preferência pelo adiamento da redução do défice com o argumento de que "os aumentos dos impostos e os cortes na despesa pública deprimirão ainda mais as economias, agravando o desemprego".
Acrescentava, a este propósito, que "cortar a despesa numa economia muito deprimida é muito auto-derrotista, até em termos puramente orçamentais", uma vez que "qualquer poupança conseguida é parcialmente anulada com a redução das receitas, à medida que a economia diminui".
Entretanto, o que está a acontecer na Grécia confirma esta visão. A Grécia, durante o primeiro ano de intervenção do FMI, BCE e Comissão Europeia, aumentou a sua dívida, apesar das medidas tomadas e indicadas por aqueles organismos. Este é o desespero dos gregos: são pedidos sacrifícios para se atingir um determinado objectivo e esse objectivo está cada vez mais distante. Objectivamente, a Moody’s tem um entendimento semelhante e, tudo indica, considera que o doente (Portugal) pode morrer da cura.
Neste momento, Portugal tem de concretizar os compromissos que assumiu com a troika, a troco do dinheiro que lhe foi emprestado. Mas, querer aplicar medidas ainda mais pesadas do que as indicadas pela troika, é um erro.
E tenhamos a consciência de que a crise não se resolve em Portugal. O caminho trilhado pela Europa é um caminho original. Nunca um conjunto de países, politicamente não unidos, tinham criado uma moeda única. Mas se o caminho é original tem de ser trilhado com originalidade. Não podemos proceder como de costume porque senão temos uma surpresa. A que estamos a ter é bem desagradável. E a Europa não está a agir adequadamente, limita-se a reagir. São convocadas reuniões de emergência todas as semanas. A Europa anda a reboque dos acontecimentos e devia agir por antecipação.
Há duas soluções para a actual crise: ou o euro desaparece ou os países da zona euro passam a ser solidários entre si. Claro que esta solidariedade tem de se basear no cumprimento de regras. Isto é: só é possível solidariedade com partilha de soberania. Podemos fazer um paralelismo. Em Portugal há regiões mais desfavorecidas do que outras. Há solidariedade nacional, através da qual as regiões mais ricas apoiam as regiões mais pobres. Isto acontece porque há uma identidade nacional. Só com uma identidade europeia, com solidariedade europeia e com partilha de soberania é possível sair da actual crise. Não adianta chorar porque os mercados não se vão comover porque não têm sentimentos. Se a crise que existe é uma crise de confiança há que dar garantias que contrariem essa desconfiança.
Em conclusão: precisamos de uma Europa Unida para ultrapassar esta crise.
sexta-feira, 15 de julho de 2011
Marquês de Pombal
Retrato do Marquês de Pombal, gravura de C. Legrand, Câmara Municipal de Lisboa, Arquivo Fotográfico
Anteontem, fui à Universidade da Beira Interior e soube que um dos seus edifícios foi mandado construir pelo Marquês de Pombal, para aí instalar a Real Fábrica de Panos em 1764. O Marquês de Pombal também aqui, na Covilhã. Figura controversa, sem dúvida. Modernizador de Portugal e déspota. A minha opinião tem sido um misto de admiração e de repulsa. À medida que vou conhecendo a sua obra, a admiração vai-se sobrepondo à repulsa.
O Marquês de Pombal governou Portugal entre 1755 e 1777. Mudou a face de Portugal em 23 anos. Para enquadrarmos a sua acção temos de recuar um pouco. A guerra da restauração tinha decorrido entre 1640 e 1668. A independência de Portugal tinha tido um preço muito elevado. Demasiado elevado. Tínhamos conseguido a protecção de Inglaterra, através dos tratados de 1642 e de 1654. O Professor Aurélio de Oliveira (Faculdade de Letras do Porto), no seu artigo “Destinos do império: da construção ao apogeu e à decadência”, escreve: “O referido Tratado de 1642, em que a ajuda inglesa à causa de D. João IV significou a abertura dos portos nacionais e do Império português ao comércio inglês e o Tratado de 1654. Este, na verdade, antes um Ultimato imposto pelos navios ingleses que então bloqueavam o porto de Lisboa. Por ele se escancarou, por completo, a Metrópole e o Ultramar ao domínio inglês. (Face a este "Tratado de 1654" o celebrado Tratado de Methween de 1703 não passa de um mero e circunscrito episódio). Mas não foi pequena a importância do Tratado de Methuen – Tratado de Panos e Vinhos. Estabelecia que:
"Artº 1- Sua Sagrada Majestade El-rei de Portugal promete tanto em seu próprio nome como de seus sucessores, de admitir para sempre daqui em diante no reino de Portugal, os panos de lã, e [...] lanifícios de Inglaterra, como era costume até o tempo que foram proibidos pelas leis, não obstante qualquer condição em contrário.
Artº 2- É estipulado, que Sua Sagrada e Real Majestade Britânica, em seu próprio nome, e no de seus sucessores será obrigada para sempre daqui em diante admitir na Grã-Bretanha os vinhos de produto de Portugal, de sorte que em tempo algum não se poderá exigir de direitos de alfândega nestes vinhos [...]."
No momento em que a Inglaterra e outros países lançavam as bases para o que viria a Revolução Industial, Portugal remetia-se ao papel de país produtor de vinho. Com o tratado de Methuen perdemos o comboio do desenvolvimento industrial. A acção do Marquês de Pombal esbateu esta realidade e deu alguns passos no sentido de libertar Portugal da dominação económica de Inglaterra.
terça-feira, 12 de julho de 2011
Carta de amor de Pablo Neruda a Matilde Urrutia

segunda-feira, 11 de julho de 2011
Pablo Neruda
A RAINHA
Proclamei-te rainha.
Há-as mais altas do que tu, mais altas.
Há-as mais puras do que tu, mais puras.
Há-as mais belas do que tu, mais belas.
Mas tu és a rainha.
Quando vais pela rua,
ninguém te reconhece.
Ninguém vê a tua coroa de cristal, ninguém repara
na alfombra de ouro rubro
que pisas ao passar,
a alfombra que não existe.
E, quando surges,
todos os rios marulham
no meu corpo, os sinos
abalam o céu,
e um hino enche o mundo.
Apenas tu e eu,
apenas tu e eu, meu amor,
o escutamos.
Pablo Neruda, Os versos do Capitão, 1952
Pablo Neruda nasceu no dia 12 de Julho de 1904, completam-se amanhã 107 anos. Chileno. Poeta. Venceu o Prémio Nobel da Literatura em 1971. Morreu 12 dias após o golpe militar de Setembro de 1973. Na página da Fundação Pablo Neruda podem encontrar-se inúmeras informações acerca da sua vida e obra e também acerca das três casas-museus.
Recomendo os dois livros de poesia: "Os versos do Capitão" (Campo das Letras) e "20 poemas de amor e uma canção desesperada" (Dom Quixote) e o livro de memórias "Confesso que vivi" (Europa-América). Para mim, Pablo Neruda é dos que melhor escreveram o amor.
Recordo o belo filme “O Carteiro de Pablo Neruda” que tem como base uma estadia de Pablo Neruda e Matilde Urrutia na ilha de Capri, em 1952. De facto, as filmagens são feitas em Salina uma das ilhas Eólias, situadas um pouco a norte da Sicília. Filme sobre o amor e a poesia.
quarta-feira, 6 de julho de 2011
Coitadinho do jacaré

Is there anybody out there?
"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos." (Fernando Pessoa)
Era o que eu queria dizer aos lideres europeus. Mas, tudo indica que a Europa não tem lideres. E isto é o mais preocupante!
