terça-feira, 21 de junho de 2011

Retrato de Van Gogh



Segundo notícia no site do jornal El País: O auto-retrato de Van Gogh afinal é o retrato do seu irmão Theo Van Gogh. Esta foi a conclusão a que chegou o Museu Van Gogh de Amesterdão. A conclusão baseou-se na análise da orelha do retratado, mais redonda do que a de Vincent Van Gogh.

Silêncio quebrado

Manuel António Pina escreveu (publicado no Jornal de Notícias de ontem):

"Ao contrário do que foi dito quando veio a público o escândalo do "copianço" no CEJ, o caso não é "pontual". Acompanhei de perto um curso anterior em que o "copianço" era frequente e a política seguida por certos (insisto: certos) dos então responsáveis do CEJ a de esconder esse lixo debaixo do tapete.

Alguns professores abandonavam as salas durante os testes confiando a vigilância à honestidade de cada formando. O problema era que a honestidade de alguns (hoje nos tribunais a acusar e julgar casos de fraude) nem sempre era a expectável em futuros magistrados.

Existem nos arquivos do CEJ documentos demonstrando o que aconteceu a uma formanda que quebrou a lei da "omertá" e se referiu ao assunto durante um encontro na presença do desembargador coordenador da sua formação. Na sequência disso (decerto por coincidência), passou a ser sujeita a humilhações e discriminações de toda a ordem e "avaliada", em relatórios escritos, por coisas como fumar, almoçar sozinha, ter "pré-juízos" em relação às leis de protecção animal (pois teria gatos) e a direitos de autor (pois publicara obras literárias), culminando tudo num relatório final do mesmo desembargador, feito com base em quatro (repito: quatro) trabalhos, escolhidos a dedo entre os mais de 500 que realizara, que a forçou à desistência.

Talvez a formação de futuros magistrados seja coisa séria de mais para estar entregue a certos actuais magistrados."

domingo, 19 de junho de 2011

A via para o futuro da humanidade

Stéphane Hessel, autor do livro “Indignai-vos” que já vendeu um milhão e meio de exemplares, diz: “Já não é mais tempo para propor a indignação. As próximas obras devem trazer-nos respostas aos problemas que nos indignam”. Hessel elogia o novo livro de Edgar Morin “La Voie”.

A via proposta por Edgar Morin pode resumir-se em sete reformas essenciais para o século XXI:

1. A via da reforma política : política da humanidade e política de civilização

2. A via das reformas económicas

3. A via das reformas sociais

4. A via da reforma do pensamento

5. A via da reforma da educação

6. A via da reforma da vida

7. A via da reforma moral

Léah

Disse José Saramago que nas escolas, em vez do “Memorial do Convento”, devia ser estudado o livro “A Escola do Paraíso” de José Rodrigues Miguéis (JRM).

Perante tal declaração, era urgente ler JRM. O livro que consegui foi “Léah e Outras Histórias”. Já li o conto Léah e gostei muito. O início do conto é magnífico: “Lembro perfeitamente a tarde quieta em que parei à porta da pensão, para tomar um quarto sem refeições: Chambre à louer”. Nesta primeira frase transparece a serenidade e a fluidez que presidem à narrativa. Gostei em particular da forma como JRM nos revela Léah. No início não sabemos se Léah é homem ou mulher. Ficamos a saber que é empregada da pensão na 6ª página de um conto com 29 páginas. A descrição de Léah surge na 9ª página:

“Nessa altura vireime para ti, Léah, e vite: pela primeira vez. A luz das janelas davate em cheio na cara, e reparei que eras bonita, nova e séria. A tua boca entreaberta de espanto, viva e carnuda, mostrava os dentes brancos, delicadamente implantados; os teus olhos redondos, límpidos, cinzentos, miravam com sincero horror a desordem do quarto; os teus seios, fortes e salientes, ainda arquejavam da carreira em que tinhas subido; e no teu pescoço, branco e solidamente afeiçoado, havia um refego delicado e viase latejar uma artéria. Os teus cabelos eram ondulados e dum louroqueimado; e eras quase da minha estatura, rosada, fresca e reluzente como um grande fruto. Tinhas a cintura estreita, e as tuas ancas alargavamse numa curva criadora e firme.”

Acerca de JRM, António José Saraiva escreveu em “Iniciação na Literatura Portuguesa”:

“Mas o seu mundo tem uma comunicabilidade humana que Eça não conheceu, porque não é visto com olho permanentemente crítico, antes com simpatia e comunhão, embora com uma certa distância humorística. Ninguém como ele sabe evocar a Lisboa do princípio do século (XX)…”

Nas notas biográficas contidas na contra-capa do livro "Léah e Outras Histórias" pode ler-se que viveu entre 1901 e 1980, foi Presidente da Segunda Liga da Mocidade Republicana e director do semanário Globo (com Bento de Jesus Caraça); em 1935 expatriou-se para os Estados Unidos, onde viveu até à sua morte, salvo uns quatro períodos de cerca de dois anos cada.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Pierrot le fou

No Diário de Notícias, João Lopes recorda o filme “Pedro o Louco” de Jean-Luc Godard, um dos realizadores da Nouvelle Vague. Também integrados neste movimento, há a destacar: François Truffaut, Alain Resnais, Claude Chabrol, Éric Rohmer e Jacques Rivette. Destes, creio que, com excepção de Alain Resnais, todos pertenciam aos Cahiers du Cinema. E estes críticos de cinema, no fim dos anos 50, inícios de 60, passaram a mostrar como entendiam que se devia fazer cinema. Passo corajoso, já que é sempre mais difícil fazer bem do que dizer o que foi mal feito. Surge um cinema experimental, polémico, amoral, revolucionário, em que são utilizados recursos escassos. Apesar de não ser uma característica deste movimento, às vezes tenho saudades dos longos diálogos, com discussões mais ou menos filosóficas, contidos em alguns daqueles filmes. Conheci este tipo de cinema quando, entre 1971 e 1974, pertenci ao Cine Clube do Porto. Recordo-me de ter visto muitos filmes da Nouvelle Vague, nas sessões que decorriam no Cinema Batalha aos domingos às 11 horas da manhã. Comecei por estranhar ver cinema de manhã mas passei a não dispensar aquela ida ao cinema. Ao domingo tinha de me levantar relativamente cedo mas era por uma boa causa.

Sobre Pierrot le fou, um muito bom texto de Maria João Madeira:

Godard pegou no romance policial de" Lionel White L 'Obsession, em Jean-Paul Belmondo (Ferdinand/Pierrot) e Anna Karina (Marianne Renoir) e pô-los anarquicamente em fuga na direcção do mar como uma espécie de último casal romântico. O filme não segue naturalmente o livro. Nunca assim acontece com os filmes de Godard que já na altura entendia o argumento ponto de partida para um trabalho de liberdade, em que à acção se sobrepusessem as palavras (diálogos, leituras, canções, inscrições nos fotogramas), às imagens os sons, colocando o cinema (e também a política, que o cinema é político segundo ele acreditou) no centro da questão. Neste sentido, Pierrot le Fou (...) é um filme bastante livre.

Narrativamente, questionando o sentido de uma relação entre um homem e uma mulher. Formalmente, à procura de sentidos visuais. No fundo, a passagem do livro de arte Ferdinand lê na banheira no princípio do filme anuncia o programa de Pierrot: "Depois de chegar aos 50 anos, Velasquez já não pintava nada de concreto e preciso. Vagueava pelo mundo material, penetrava-o, como o fazem o ar e o crepúsculo...”

Pierrot não segue uma ordem canónica. Se a "história" é apesar de tudo tradicional (dois amantes que se encontram e se separam, vendo-se entretanto envolvidos num enredo policial onde cabem traficantes de armas, complots e assassínios), a forma de a “contar”, pelo contrário, procede por interrupções, foras de campo ou pela alteração da ordem temporal dos acontecimentos através da montagem. Há vários níveis de leitura, a interferência fragmentária de elementos de ordem diversa. Por exemplo, os planos de pintura ou de banda desenhada ou de palavras. Por exemplo, a aparição a dada altura de um figurante que chega, se apresenta e parte, sem que se saiba de onde veio nem para onde vai, ou o plano em que Ferdinand se vira para a. câmara e se dirige explicitamente ao espectador, como explica a Marianne.

Para além das "pausas", os contrastes são permanentes, também ao nível das cores, sobretudo o azul e o vermelho sempre presentes, marcados pelo imaginário da pop arte. O contraste começa logo na caracterização das duas personagens principais que em resumo se podem definir em termos de contemplação (Ferdinand) e de acção (Marianne). É mais do que neles, no espaço e no tempo que impossibilitam o entendimento entre eles que Pierrot se detém. Afinal, nem conseguem concordar no nome dele... a cada vez que ela lhe chama Pierrot (incitando o seu lado aventureiro?) ele responde, “o meu nome é Ferdinand" (afirmando a sua condição de intelectual?). Afinal, ela preocupa-se mais com a linha da sorte e ele com a da anca dela. É ouvir as canções, as histórias que contam um ao outro e tudo se percebe. É olhar os planos e a explosão final fará tanto sentido como a desconcertante última tirada de Belmondo: "Après tout, je suis idiot, merde, merde".

segunda-feira, 13 de junho de 2011

América corre o risco de um default em Agosto

Segundo o Expresso:
Os chineses e as agências de notação Fitch e Moody's zangaram-se com o Congresso americano. Se o limite de endividamento dos EUA não for aumentado, 30 mil milhões de dólares de títulos do Tesouro que vencem a 4 de agosto podem estar em maus lençóis.
Ainda, segundo o Expresso:
Ao fechar a semana, as probabilidades de default dos quatro países da zona euro sob observação dos mercados sobem sem parar. Espanha sobe para 9º lugar no "clube" da bancarrota.
Interessante a diferença entre a terminologia usada para uns e para outros. Os Estados Unidos da América são os meninos. Os denominados PIGS são os rapazolas. O respeitinho é muito lindo!

domingo, 12 de junho de 2011

Jorge Semprún, republicano

Jorge Semprún foi enterrado perto de Paris envolvido pela bandeira republicana, como era seu desejo: o filho de republicanos exilado em França, desde os 15 anos, foi enterrado neste país com a bandeira do regime a que nunca deixou de pertencer. Cerca de uma centena de pessoas - família e amigos próximos - assistiu à cerimónia. Não houve orações nem ofício religioso. Apenas houve evocações pela parte de quem o quis fazer. Florence Malraux, filha de André Malraux, disse que a melhor homenagem que se podia fazer a Semprún era relê-lo. Pela minha parte, vou ler "Vinte anos e um dia". (post baseado na notícia do El País)