terça-feira, 5 de abril de 2011

Ângelo de Sousa I

[] O Ângelo era daqueles seres raríssimos sem ego. Nada a esconder, nada a defender ou preservar, uma imagem social, um estatuto, uma carreira, uma psicologia. Quando falava, trazia a vertigem consigo. A vertigem da ausência de ego que alastrava para o exterior, os outros, abanando as leis dos hábitos, das convenções e da estupidez. Não suportava a estupidez e a grosseria. [] Tinha horror à “pose” cultural, à seriedade hipócrita das convenções, ao discurso sábio “intelectual” – e à interioridade que se finge possuir para parecer profundo. []

Porque não tinha ego era um ser livre. Porque era livre – das pessoas mais livres que conheci – era imprevisível: não surgia nunca onde o julgavam apanhar. Porque era imprevisível tinha a afectividade nascente e poderosa das crianças. A sua potência vital. Por isso da sua obra jorra o júbilo único de existir – como uma cor para uma criança, como um movimento que faz existir uma coisa. []

José Gil (excertos do texto lido no funeral de Ângelo de Sousa, publicado no Público de 4 de Abril).

sexta-feira, 1 de abril de 2011

O Mito de Leda

Leonardo da Vinci - 1505-1510

O Mito de Leda foi representado por diversos pintores: de Leonardo da Vinci a Salvador Dali Destaco a obra " Leda e o cisne" de Leonardo da Vinci.

Um dia, Leda – esposa de Tíndaro, rei de Esparta – banhava-se no rio Eurotas e viu um cisne que fugia de uma águia. A águia era Afrodite e o cisne era Zeus, ambos metamorfoseados. Leda tomou o cisne nos seus braços e acariciou-o. Fizeram amor. Nessa noite Leda também fez amor com Tíndaro. Meses depois, do seu ventre saíram dois ovos. De um deles nasceu Helena e Pólux (filhos de Leda e de Zeus). Do outro nasceram Castor e Clitemnestra. Foi, seguramente, uma concepção sem pecado. Eis a origem de Helena que, com Páris, fugiu para Tróia, originando a Guerra de Tróia (ver "O Julgamento de Paris").

Júlio - Saúl Dias


As madressilvas


que em abril florescem entre os brejos


parecem dizer:


Vede como somos belas!



e os namorados


que na estrada passam, abraçados, aos beijos,


erguem os braços para colhê-las...


in "Obra Poética", Mais e Mais (1932)

quinta-feira, 31 de março de 2011

Eduardo Souto de Moura

Discurso directo:

“De manhã, para me vestir não preciso de inventar um casaco - vou ao guarda-vestidos e escolho um. [...] Porque é que na arquitectura é preciso inventar? A arquitectura só precisa de, com o que tem, fazer bem.”

“Algumas das pessoas mais inteligentes que conheci não conseguiram fazer arquitectura. Porque isto tem um risco e um lado pataqueiro como tudo. Um lado primário, como as cartas de amor do [Fernando] Pessoa. De impulso, de incoerência, de emoção.”

“Olho muito para o [Aldo] Rossi. Primeiro os textos – preciso de ler sobre arquitectura. Ele era um grande arquitecto e um grande escritor.”

(Da entrevista publicada no Público de 31 de Março de 2011)

quarta-feira, 30 de março de 2011

Prémio Pritzker 2011

Ao Arquitecto Eduardo Souto de Moura foi atribuído o Prémio Pritzker 2011. Criado em 1979, é o mais importante prémio da Arquitectura e é atribuído com periodicidade anual. Ao Arquitecto Álvaro Siza Vieira tinha sido atribuído o Pritzker em 1992. É notório o reconhecimento internacional do valor da Arquitectura Portuguesa.

Permito-me opinar relativamente à Arquitectura de Eduardo Souto de Moura: ela é caracterizada por peso e leveza.

Esta minha observação é reforçada pela admiração de Eduardo Souto de Moura por duas obras notáveis e, talvez, contraditórias na relação interior-exterior:

- Casa Farnsworth (Chicago) de Mies van der Rohe

- Casa Malaparte (Capri) de Adalberto Libera

A primeira com as paredes em vidro e a segunda com as paredes em betão, quase sem janelas.

Mas, ao dizer que as obras do Arquitecto Souto de Moura são caracterizadas por peso e leveza, não me estava a referir à relação interior-exterior. Estava a referir-me à sua solidez - com a utilização preferencial da pedra e do betão - e à sua plasticidade e integração no sítio que lhes dão uma leveza notável.

Escreveu Milan Kundera: “A contradição pesado-leve é a mais misteriosa e ambígua de todas as contradições”.

terça-feira, 29 de março de 2011

Quem não quer ser primata, não lhe veste a pele!

Li o livro "O filósofo e o lobo" de Mark Rowlands e recomendo.

É um livro de filosofia, acessível ao comum das pessoas. São revisitadas ideias de vários filósofos: Aristóteles, S. Tomás de Aquino, Kant, Hobbes, Heidegger, Nietzsche, Sartre e outros ainda.

A partir da experiência dos doze anos em que viveu com o seu lobo, Mark Rowlands faz um paralelismo entre o primata e o lobo. Tal análise comparativa não é lisongeira para o primata. O primata é considerado a tendência para pensar que as coisas mais importantes da vida se resumem a uma análise custo-benefício. No entanto, reconhece que há alguns primatas que conseguem ter amigos e não apenas aliados.

Acrescenta que o lobo nos diz que os valores do primata são insensíveis e inúteis, que o mais importante da vida não tem nada que ver com contas e números.

Apesar de tudo, resta-nos uma esperança: é possível deixar falar o lobo dentro de nós.

domingo, 27 de março de 2011

Mensagem do Dia Mundial do Teatro

O TEATRO AO SERVIÇO DA HUMANIDADE


por Jessica Atwooki Kaahwa

Este é o momento exacto para uma reflexão sobre o imenso potencial que o Teatro tem para mobilizar as comunidades e criar pontes entre as suas diferenças.

Já, alguma vez, imaginaram que o Teatro pode ser uma ferramenta poderosa para a reconciliação e para a paz mundial?

Enquanto as nações consomem enormes quantidades de dinheiro em missões de paz nas mais diversas áreas de conflitos violentos no mundo, dá-se pouca atenção ao Teatro como alternativa para a mediação e transformação de conflitos. Como podem todos os cidadãos da Terra alcançar a paz universal quando os instrumentos que se deveriam usar para tal são, aparentemente, usados para adquirir poderes externos e repressores?

O Teatro, subtilmente, permeia a alma do Homem dominado pelo medo e desconfiança, alterando a imagem que tem de si mesmo e abrindo um mundo de alternativas para o indivíduo e, por consequência, para a comunidade. Ele pode dar um sentido à realidade de hoje, evitando um futuro incerto.

O Teatro pode intervir de forma simples e directa na política. Ao ser incluído, o Teatro pode conter experiências capazes de transcender conceitos falsos e pré-concebidos.

Além disso, o Teatro é um meio, comprovado, para defender e apresentar ideias que sustentamos colectivamente e que, por elas, teremos de lutar quando são violadas. 
Na previsão de um futuro de paz, deveremos começar por usar meios pacíficos na procura de nos compreendermos melhor, de nos respeitarmos e de reconhecer as contribuições de cada ser humano no processo do caminho da paz. O Teatro é uma linguagem universal, através da qual podemos usar mensagens de paz e de reconciliação.

Com o envolvimento activo de todos os participantes, o Teatro pode fazer com que muitas consciências reconstruam os seus pré-conceitos e, desta forma, dê ao indivíduo a oportunidade de renascer para fazer escolhas baseadas no conhecimento e nas realidades redescobertas.

Para que o Teatro prospere entre as outras formas de arte, deveremos dar um passo firme no futuro, incorporando-o na vida quotidiana, através da abordagem de questões prementes de conflito e de paz.

Na procura da transformação social e na reforma das comunidades, o Teatro já se manifesta em zonas devastadas pela guerra, entre comunidades que sofrem com a pobreza ou com a doença crónica.

Existe um número crescente de casos de sucesso onde o Teatro conseguiu mobilizar públicos para promover a consciencialização no apoio às vítimas de traumas pós-guerra.

Faz sentido existirem plataformas culturais, como o Instituto Internacional de Teatro, que visam consolidar a paz e a amizade entre as nações.

Conhecendo o poder que o Teatro tem é, então, uma farsa manter o silêncio em tempos como este e deixar que sejam “guardiães” da paz no nosso mundo os que empunham armas e lançam bombas.

Como podem os instrumentos de alienação serem, ao mesmo tempo instrumentos de paz e reconciliação?
 Exorto-vos, neste Dia Mundial do Teatro, a pensar nesta perspectiva e a divulgar o Teatro, como uma ferramenta universal de diálogo, para a transformação social e para a reforma das comunidades.

Enquanto as Nações Unidas gastam somas colossais em missões de paz com o uso de armas por todo o mundo, o Teatro é uma alternativa espontânea e humana, menos dispendiosa e muito mais potente.

Não será a única forma de conseguir a paz, mas o Teatro, certamente, deverá ser utilizado como uma ferramenta eficaz nas missões de paz.