
domingo, 20 de março de 2011
As pequenas pequenas obras

Outra notícia liliputiana

Um pequeno grande livro

sábado, 19 de março de 2011
"Pessoas de qualidade"

O terramoto e tsunami de 1755 provocaram, em Lisboa, 15 mil mortos, dos quais, segundo relato da época, só “oito pessoas de qualidade”, escreve José Cutileiro (Expresso de hoje). Ainda não tinham soprado os ventos da Revolução Francesa (1789) e, de resto, só uma ínfima minoria sabia ler, pelo que, quem escrevia estava à vontade porque a “populaça” não tinha acesso ao que era escrito. Hoje, é preciso mais cuidado com o que se escreve.
Há dias, ouvimos Cavaco Silva dizer: “Há limites para os sacrifícios que se podem exigir ao comum dos cidadãos” (discurso de tomada de posse). Por sua vez, Passos Coelho disse: “o (meu) partido está preocupado com a situação social existente em Portugal e que o novo pacote de austeridade vem piorar o cenário”. ”(declarações à saída da reunião com Cavaco Silva).
Podemos concluir que Passos Coelho, se fosse primeiro-ministro, não implementaria mais qualquer pacote de austeridade e, nesse aspecto, seria apoiado por Cavaco Silva.
Mas não nos precipitemos. Acrescentou Passos Coelho: “Se a dramatização do tudo ou nada que o Governo está a fazer tem fundamento, significa que a verdadeira situação que o país atravessa é diferente daquela que têm dito ao país”. Não é difícil compreender o caminho que está a preparar. Se chegar ao poder, a primeira coisa que afirma é: “a situação do país é muito pior do que aquilo que nos andaram a dizer” (como se fosse possível mascarar a situação real com os holofotes da Europa e do Mundo apontados para nós). A seguir, já estaria à vontade para tomar as medidas de austeridade com que agora diz que discorda e muitas outras.
Há ainda a possibilidade de que tanto Cavaco Silva como Passos Coelho estejam a ser sinceros por se estarem a referir apenas aos cidadãos “de qualidade” (os tais 8 em 15000).
Uma forma de podermos perceber as verdadeiras intenções da direita é lermos o que escreveu José António Saraiva, director do Sol, na edição de ontem deste jornal: “E a ironia é que as medidas que o Governo propõe são aquelas que o PSD terá de pôr em prática no dia em que for poder”. E continua: “O país precisa de um abanão, com opções claras, postas em prática por um Governo corajoso e que não tema a contestação sindical”.
sexta-feira, 18 de março de 2011
A caixa de Pandora
William Waterhouse (1849-1917) - Pandora
Ao descobrir que os homens tinham recebido o fogo de Prometeu, Zeus ficou profundamente irritado e disse-lhe: “para infelicidade tua e dos homens que estão para nascer, vou dar-lhes de presente um mal, que todos irão rodear de amor com todo o coração e por esse amor se irão perder”. Zeus ordenou ao seu filho aleijado, Hefesto, que esculpisse em barro uma figura feminina semelhante às deusas imortais em aparência e em beleza. No seu seio, Hermes insuflou a mentira, a imprudência e a falsidade, de acordo com a vontade de Zeus. Tinha sido criada a primeira mulher, Pandora. Zeus disse a Hermes que entregasse, como presente, Pandora a Epimeteu (irmão de Prometeu). Prometeu tinha recomendado a Epimeteu que não jamais aceitasse um presente de Zeus, se queria poupar os homens a uma terrível desgraça. No entanto, Epimeteu, ao contrário de Prometeu (o que pensa primeiro), só compreende depois, pelo que, seduzido pela jovem, aceitou-a como esposa. Epimeteu tinha guardada uma jarra, dentro da qual, com muito esforço, Prometeu tinha encerrado tudo o que poderia atormentar os homens: a Velhice, o Sofrimento, a Pobreza, a Doença, a Loucura, os Vícios e as Paixões. Prometeu tinha recomendado a seu irmão que a mantivesse fechada, custasse o que custasse. Mas Pandora, roída pela curiosidade, abriu a jarra e todas essas pragas se espalharam pela Terra. Apercebendo-se do que estava a acontecer, tornou a colocar a tampa novamente. No fundo da vasilha ficou apenas a Esperança, único conforto da Humanidade e única maneira de sobreviver no novo mundo hostil. (Adaptado de “Mitos e Lendas da Grécia Antiga” da autoria de Marília P. Futre Pinheiro)
Tenho de confessar que não temo as mulheres, apesar da mentira, da imprudência e da falsidade insuflada por Hermes. Tenho medo sim dos estragos que podem causar políticos que nunca se enganam ou que são aprendizes de feiticeiro que não estão a resistir à tentação de abrir a caixa de Pandora.
quarta-feira, 16 de março de 2011
A "Guerra do Ultramar"

“Importa que os jovens deste tempo se empenhem em missões e causas essenciais ao futuro do país com a mesma coragem, o mesmo desprendimento e a mesma determinação com que os jovens de há 50 anos assumiram a sua participação na Guerra do Ultramar”, afirmou Cavaco Silva na cerimónia de homenagem aos combatentes, por ocasião do 50º aniversário do início da guerra em África, que decorreu ontem, em Lisboa
Até 1951, Portugal tinha um Ministério das Colónias. Nesse ano, o Minstério mudou de nome e passou a designar-se Ministério do Ultramar. Evidentemente que a mudança de nome pretendia pôr as colónias portuguesas a salvo do movimento anti-colonialista que crescia em África. Portugal deixou de ter colónias e passou a ter "províncias ultramarinas". Em 1961 eclodiu a “Guerra do Ultramar”. Claro que após o 25 de Abril de 1974 essa guerra passou a designar-se Guerra Colonial, já que é sempre bom chamar os bois pelos nomes. Agora, Cavaco Silva vem falar em "Guerra do Ultramar" e considera a participação nessa guerra um exemplo a seguir. Triste exemplo!
Creio que, no primeiro mandato como Presidente da República, Cavaco Silva nunca usou a expressão “Guerra do Ultramar”.
A felicidade na sociedade de hiperconsumo

Conferência de Gilles Lipovestsky na Gulbenkian (Outubro de 2009). Pode ouvir-se aqui: Parte I; Parte II
"Deixámos a «sociedade de consumo», chegou a hora do hiperconsumo, terceira fase histórica do capitalismo de consumo.
Doravante, impõe-se uma espécie de «turbo-consumidor» móvel e flexível, largamente liberto das pretéritas culturas de classe, imprevisível quanto a gostos e aquisições. De um comprador sujeito a condicionalismos sociais de nível, passámos para um hiperconsumidor em busca de experiências emocionais, de qualidade de vida e saúde, de marcas e autenticidade, de imediatismo e comunicação ilimitada. O consumo intimizado veio substituir o consumo honorífico num sistema em que o comprador está cada vez mais informado e é cada vez mais infiel, reflexivo e «estético».
Qualquer que seja a intensidade das críticas apontadas à sociedade de hiperconsumo ainda só se encontra nos primórdios, sendo o cenário mais provável vir a alargar-se à escala do planeta numa época em que não há nenhum sistema alternativo credível. Nem os protestos ecologistas, nem as novas formas de consumo mais sóbrio, nem os «alterconsumidores» serão suficientes para pôr cobro ou travar a fuga em frente da mercantilização da experiência e dos modos de vida.
A sociedade de hiperconsumo é a da «felicidade paradoxal». Relativamente aos anos de 1960, consumimos o triplo da energia, contudo ninguém pode sustentar que somos três vezes mais felizes. Quanto mais se multiplicam as fruições privadas mais se afirmam as frustrações da vida íntima, as ânsias e as depressões, as desilusões afectivas e profissionais. As insatisfações próprias progridem proporcionalmente às satisfações proporcionadas pelo mercado.
O «trágico» da nossa época radica na dinâmica da individualização e em novas aspirações de vida feliz; quanto mais se afirma a exigência de felicidade privada, mais crescem, inevitavelmente, as insatisfações e desilusões de todo o tipo.
Impõe-se constatar que o nosso poder sobre as «coisas» segue uma curva exponencial, mas o nosso poder sobre a alegria de viver mantém-se muito fraco. As chaves que abrem as portas da felicidade não progridem, teimando em escapar ao controlo dos homens. Manifestamente, o projecto de poderio ilimitado dos Modernos atinge aqui os seus limites.
Sem pessimismo, nem optimismo radical: resta-nos viver tendo a consciência de que a felicidade é o enigma indomável, imprevisível, inultrapassável de hoje como de amanhã."
Gilles Lipovetsky concluiu a sua conferência fazendo a ressalva de que o alvo das suas críticas não é o consumo, mas sim o excesso de consumo. “O consumo deverá ser um meio, e não um fim em si”, lamentou. O problema reside na capacidade de inverter a “paixão consumista”: é preciso opor-lhe outra paixão, motivar as pessoas para outros objectivos para além do consumo, que não passa de um “paraíso passageiro”.
