domingo, 13 de março de 2011

Notícia liliputiana

Desenho (desconheço o autor) alusivo a "As Viagens de Gulliver"

Afinal, voltei a comprar o Expresso. Destaco a notícia que transcrevo:
"As exportações portuguesas aumentaram 19,2% em Janeiro. Para a União Europeia o acréscimo foi de 18,6% e para fora da Europa o acréscimo foi de 21,3%. O défice comercial desceu 2%. As vendas à Alemanha cresceram 32,3%."
De realçar que a referida notícia ocupa 4,3cmx2,9cm da última página do caderno principal (cerca de 1% da página).
Porquê tanta discrição? Talvez porque um grande destaque a uma notícia deste tipo poderia aumentar perigosamente o amor-próprio dos portugueses. Lembrei-me de José Gil, que disse numa entrevista:
"Há qualquer coisa no português que se manifesta como uma complacência paralisante, a complacência no pequeno. É esse o nosso mundo, e o nosso mundo tem que ser pequenino, e nós nos fazemos pequeninos como nosso mundo”.

sábado, 12 de março de 2011

Epicuro de Samos


Extratos da "Carta a Meneceu" (Carta sobre a Felicidade) da autoria de Epicuro, nascido na ilha de Samos, Grécia, em 341 a.C.:
"... Lembra-te que o futuro nem é nosso nem é completamente não nosso, de modo que nem podemos contar que virá de certeza nem podemos abandonar a esperança nele com a certeza de que não virá.
Tens de considerar que alguns desejos são naturais, outros vãos, e dos que são naturais alguns são necessários e outros apenas naturais. Dos desejos naturais, alguns são necessários para a felicidade, alguns para o bem-estar do corpo, alguns para a própria vida. O homem que tem um conhecimento perfeito disto saberá como fazer toda a sua escolha ou rejeição tender para ganhar saúde do corpo e paz de espírito, dado que este é o fim último da vida bem-aventurada. Pois para alcançar este fim, nomeadamente a libertação da dor e do medo, fazemos tudo. Quando se atinge esta condição, toda a tempestade da alma sossega, dado que a criatura nada mais precisa de fazer para procurar algo que lhe falte, nem de procurar qualquer outra coisa para completar o bem-estar da alma e do corpo. Pois só sentimos a falta de prazer quando sentimos dor com a sua ausência; mas quando não sentimos dor já não precisamos de prazer. Por esta razão, dizemos que o prazer é o princípio e o fim da vida bem-aventurada. Reconhecemos o prazer como o bem primeiro e natural; partindo do prazer, aceitamos ou rejeitamos; e regressamos a isto ao ajuizar toda a coisa boa, usando este sentimento de prazer como o nosso guia.
Precisamente porque o prazer é o bem principal e natural, não escolhemos todo o prazer, mas por vezes abstemo-nos de prazeres se estes forem cancelados pelas privações que se seguem; e consideramos muitas dores melhores do que prazeres quando um maior prazer virá até nós depois de termos sofrido dores demoradas. Todo o prazer é um bem dado ter uma natureza congénere da nossa; contudo, nem todo o prazer deve ser escolhido. De igual modo, toda a dor é um mal, contudo nem toda a dor é de natureza a ser evitada em todas as ocasiões. Pesando e olhando para as vantagens e desvantagens, é apropriado decidir todas estas coisas; pois em certas circunstâncias tratamos o bem como mal e, igualmente, o mal como bem.
Encaramos a auto-suficiência como um grande bem, não para que possamos desfrutar apenas de poucas coisas, mas para que, se não tivermos muitas, nos possamos satisfazer com as poucas, estando firmemente persuadidos de que quem retira o maior prazer do luxo é quem o encara como menos preciso, e que tudo o que é natural se obtém facilmente, ao passo que os prazeres vãos são difíceis de obter. Na verdade, temperos simples dão um prazer igual ao dos banquetes pródigos quando a dor devida à necessidade for removida; e pão e água dão o máximo prazer quando uma pessoa necessitada os consome. Estar acostumado à vida simples e básica conduz à saúde e faz um homem ficar pronto a enfrentar as tarefas necessárias da vida. Prepara-nos também melhor para usufruir o luxo se por vezes tivermos a sorte de o encontrar, e faz-nos intrépidos face à fortuna.
Quando dizemos que o prazer é o fim, não queremos dizer o prazer do extravagante ou o que depende da satisfação física — como pensam algumas pessoas que não compreendem os nossos ensinamentos, discordam deles ou os interpretam malevolamente — mas por prazer queremos dizer o estado em que o corpo se libertou da dor e a mente da ansiedade. Nem beber e dançar continuamente, nem o amor sexual, nem a fruição de peixe ou seja o que for que a mesa luxuosa oferece gera a vida agradável; ao invés, esta é produzida pela razão que é sóbria, que examina o motivo de toda a escolha e rejeição, e que afasta todas aquelas opiniões através das quais a mente fica dominada pelo maior tumulto. [...]
Medita nestes preceitos e noutros como estes, de dia e de noite, sozinho ou com um amigo da mesma opinião. Então nunca terás receio, de dia ou de noite; mas viverás como um deus entre os homens; pois a vida no seio de bem-aventuranças imortais não é de modo algum como a vida de um mero mortal."

quinta-feira, 10 de março de 2011

Foi no mar que aprendi

"As Três Graças" Museu Arqueológico de Antalya, Turquia


Foi no mar que aprendi o gosto da forma bela

Ao olhar sem fim o sucessivo

Inchar e desabar da vaga

A bela curva luzidia do seu dorso

O longo espraiar das mãos de espuma


Por isso nos museus da Grécia antiga

Olhando estátuas frisos e colunas

Sempre me aclaro mais leve e mais viva

E respiro melhor como na praia


Sophia de Mello Breyner Andresen

Geração à rasca

Nos inícios da década de 1970, em Portugal, frequentavam o ensino superior menos de 30 000 estudantes. No ano lectivo 2001/02 eram 400 000. Passámos de uma situação de emprego garantido e bem remunerado para um emprego não garantido e que pode ser bem ou mal remunerado. À rasca estavam os 370 000 que nos inícios da década de 1970 não tiveram acesso ao ensino superior.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Solidariedade europeia

Ouvimos, todos os dias, comentários acerca das medidas de austeridade adoptadas pelo governo. A posição mais cómoda e mais facilmente aplaudida (todos nós preferimos ouvir aplausos a ouvir apupos) é de frontal oposição. Uma posição um pouco mais sensata será dizer que é preciso fazer algo, inclusive implementar medidas de austeridade, desde que essas medidas só afectem os outros. Também se ouve dizer que a culpa é da moeda única e, sendo muito poucos, há quem preconize que Portugal saia do euro e adopte de novo o escudo como moeda. De facto, se a nossa moeda fosse o escudo o problema económico que está a acontecer resolvia-se facilmente com a desvalorização da moeda. No passado isso aconteceu. O que representa desvalorizar a moeda? Representa, fundamentalmente, tornar os produtos importados mais caros para nós e os produtos exportados mais baratos para os estrangeiros. Como consequência, inevitavelmente, implicará um aumento da taxa de inflação e um aumento das taxas de juro. O que é que isso implicaria para nós? O dinheiro que possuímos passaria a valer menos! De facto, seria uma forma camuflada de reduzir os nossos ordenados. Quem tem um empréstimo bancário a pagar, seria duplamente prejudicado: passaria a ganhar menos e passaria a ter de pagar mais ao banco pelo empréstimo contraído. Não tenho qualquer dúvida: abandonar a moeda única (euro) ainda iria piorar a nossa situação.

Podemos arranjar um bode expiatório para o que está a acontecer. Quanto mais perto esse bode expiatório estiver de nós, melhor: assim, estando próximo, está à mão de semear – até lhe poderemos dar umas surras ou, pelo menos, encostar-lhe um megafone aos ouvidos. De facto, o cerne da questão não está em Portugal mas na Europa e no euro. Não estou a dizer que a Europa é que tem de resolver os nossos problemas mas sim que temos de olhar para mais longe – e não só para o nosso quintal – para percebermos o que nos está a acontecer.

Está a acontecer um ataque especulativo à zona euro. Esse ataque tem começado pelos elos mais fracos: Grécia, Irlanda e, a seguir, posiciona-se Portugal. Esse ataque tem surtido efeito porque a solidariedade europeia não tem sido suficiente. Mas para se conseguir uma maior solidariedade, nomeadamente da Alemanha, é necessário que os alemães não sintam que estão a querer usar a riqueza por eles gerada para que outros levem uma vida melhor do que a deles. Por exemplo, como é possível obter solidariedade dos alemães para com um país onde a idade de reforma é inferior à deles? Para se conseguir a necessária solidariedade europeia é preciso estabelecer regras comuns que todos sejam obrigados a cumprir. Há dias, foi publicado no Finantial Times um artigo da autoria de Guy Verhofstadt, Jacques Delors e Romano Prodi onde esta questão é colocada muito claramente. Trata-se de aprofundar a União Europeia – creio que, de facto, a União Europeia está a precisar de um aprofundamento e não de um alargamento. O que se não pode é clamar pela solidariedade da Europa para connosco e rejeitar regras comuns intitulando-as como ingerência nos assuntos internos e de perda de soberania nacional. Eu aposto, sem hesitar, em Mais Europa.

Festival d'Angoulème

No Festival International de Bande Dessinée - 2011, realizado em Angoulème, o prémio do melhor álbum foi atribuído a "Cinq mille kilomètres par seconde", da autoria do italiano Manuele Fior (35 anos). No Brasil, chamam à banda desenhada quadrinhos. Nome muito apropriado para o que constitui a 9ª arte.

No site Neuvieme-art.com pode encontrar-se um resumo do conteúdo do álbum:

L’histoire d’amour entre Piero et Lucia, que l’on retrouve à différents moments de leur vie dans Cinq mille kilomètres par seconde, se présente comme le portrait d’une certaine génération : celle qui, instable et sans repère, se trouve aujourd’hui dans la trentaine. Séduite par des milliers de modèles de vie possibles, elle ne sait en trouver un qui lui convienne. En le cherchant, elle s’aventure dans le monde, emprunte de nouveaux chemins, et s’égare. L’amour, idéalisé par l’éloignement, trompé par l’illusion de moyens de communication de plus en plus rapides, se transforme, s’épuise, et révèle alors la cruauté de son visage.

Sous des auspices intimistes, Cinq mille kilomètres par seconde est un ouvrage ambitieux qui nous promène dans le monde et dans le temps. Cette fresque introspective est illuminée par les aquarelles à couper le souffle d’un Manuele Fior qui atteint ici une maturité graphique impressionnante.

segunda-feira, 7 de março de 2011

O Mito do Minotauro

Representação do Minotauro num vaso ático de 515 a.C.

Minos fez um pedido a Poseidon, deus dos mares, para que o ajudasse a tornar-se rei de Creta. Poseidon aceitou mas colocou como condição que Minos sacrificasse um touro que sairia do mar. O touro que saiu do mar era tão bonito que o rei Minos ficou com ele e sacrificou um outro no seu lugar. Poseidon apercebeu-se disso, ficou furioso e resolveu castigá-lo. Fez com que Pasífae, esposa do rei Minos, se apaixonasse pelo touro. Dessa união nasceu o Minotauro (touro de Minos). O rei Minos pediu a Dédalo (pai de Ícaro) que construísse um grande labirinto donde o Minotauro não conseguisse sair. Por os atenienses terem morto Androceu, filho do rei Minos, durante a guerra entre cretenses e atenienses, que foi ganha pelo rei Minos, este obrigou os atenienses a, todos os anos, enviarem sete rapazes e sete raparigas para serem devorados pelo Minotauro. No terceiro ano, Teseu – filho do rei Egeu de Atenas – ofereceu-se para integrar o grupos de jovens a ser sacrificado, com o intuito de ir a Creta matar o Minotauro. Quando Teseu chegou a Creta, Ariadne, filha do rei Minos, apaixonou-se por ele e quis ajudá-lo. Entregou-lhe um novelo de lã para que Teseu pudesse marcar o caminho percorrido para que não se perdesse no labirinto. Teseu consegue matar o Minotauro com a espada que Ariadne lhe tinha dado e sair do labirinto seguindo o caminho marcado com o fio de lã.

Teseu e Ariadne embarcam para se dirigirem para Atenas. Pelo caminho, Teseu abandonou Ariadne na ilha de Naxos. Mais tarde, Ariadne viria a casar com Dionísio, deus do vinho. Ao aproximar-se de Atenas, esqueceu-se de içar a vela branca – sinal combinado com seu pai como sinal de vitória sobre o Minotauro. O rei Egeu ao ver o barco com a vela negra, pensou que o seu filho tinha morrido e suicidou-se atirando-se ao mar que ficou, a partir daí, conhecido por mar Egeu.